Uma folha de alface – João André Costa

 

Uma folha de alface

Estou na pele de um professor de ciências em Portugal, mais precisamente no Algarve. Não, esse professor não sou eu, mas podia ser, lecciono a mesma disciplina e parece coincidência. Parece, mas não é, e se contar tudo na primeira pessoa tem mais sentido. Pelo menos para mim. Omito o nome e o lugar por questões de confidencialidade.

Não sei se sou um bom professor, gostaria de pensar que sou. Aos olhos dos outros, dos meus colegas, já tenho nome, sou dedicado e tenho brio no que faço. Respeitam o meu trabalho, pedem-me ajuda e estão sempre disponíveis para ouvir a minha opinião. Mas, e independentemente de ser ou não bom professor, a verdade é que gosto do que faço, e se calhar aqui está a grande diferença. Apesar de todos os problemas à volta da educação, de resto sobejamente conhecidos e batalhados todos os dias, todos os anos, a educação existe, e existe em mim, dentro de casa, ao sair para a rua, no quiosque da esquina, no supermercado, ao chegar à escola. Mas vamos ao que interessa.

Ao longo dos anos tenho-me deparado com as péssimas opções alimentares dos meus alunos. Sem querer repetir a roda dos alimentos e a importância de uma refeição multicolor, não consigo deixar de me preocupar quando, à hora de almoço, os pratos dos nossos alunos se revestem de batatas fritas e carne ou carne e batatas fritas, às vezes arroz ou massa, mas normalmente só carne ou só batatas fritas.

E por não conseguir deixar de me preocupar, todos os dias à hora de almoço sento-me com os meus alunos para falar da necessidade de uma alimentação variada, o porquê das fibras, do peixe e da fruta, promovendo verduras como o maná dos deuses e celebrando efusivamente quando um, ou mais alunos, comem a mais pequena folha de alface! 

Perdoem-me a paixão, mas estamos a falar de crianças, muitas já obesas, outras em pré-obesidade e muitas mais a caminho com todos os riscos associados, do cardiovascular à diabetes, não preciso de me repetir, nós já sabemos de trás para frente, fazemos escolhas, as crianças é que não. Longe do seio familiar acabam a seguir modas e publicidades, viciam-se em açúcar a pontos de passar o dia inteiro a sorver sumos num mundo sem hábitos de desporto e onde o polegar é o membro mais musculoso, fruto de horas sem fim ao telemóvel. Cheios de açúcar até à ponta dos cabelos, muitas das minhas aulas de ciências são passadas com toda a gente em pé a andar de um lado para o outro entre demonstrações e experiências, ou não fossem os petizes incapazes de se sentar por 15 minutos que seja. Sentados, os petizes marinham, literalmente, pelas paredes acima. Eu sei. Já vi. Muitas vezes. Vezes demais.

Portanto, à hora de almoço luto por cada ervilha, por cada grama de fibra, por cada garfada de peixe, aos poucos introduzindo novos elementos nas dietas de quem nos rodeia e cresce todos os dias enquanto falo sobre as suas vantagens e a importância de estilos de vida saudáveis.

Ou lutava. Há pouco tempo recebi um recado de um encarregado de educação a proibir-me terminantemente de obrigar a sua filha a comer alface à hora de almoço. Em casa a rapariga come de tudo, acabando por não só perder a hora de almoço, fruto das minhas insistências, como também a ter medo da hora de almoço, não vá o “professor chato” sentar-se ao seu lado outra vez. Terminava o recado sublinhando o dever de me cingir à sala de aula e pouco mais, de onde, aliás, nunca deveria ter saído.

Resposta para o encarregado de educação: “Prezado encarregado de educação, muito obrigado pela sua chamada de atenção, a qual agradeço. Deixe-me dizer-lhe, no entanto, que o meu dia de trabalho nunca tem menos de 12 horas. A hora de almoço faz parte dessas horas desde sempre, desde que me lembro de ser professor, de bom grado sacrificando a minha hora de descanso para estar no inferno inaudível do refeitório onde, para todos os efeitos, continuo a trabalhar enquanto falo com os meus alunos, a sua filha incluída, sobre os bons hábitos alimentares. Mas, para evitar mais consequências para a minha pessoa, como bom entendedor asseguro-lhe que não mais passarei a minha hora de almoço com os meus alunos. Daqui em diante almoçarei na sala dos professores, na minha sala ou num dos cafés à volta da escola, em sossego e paz, usufruindo do descanso a que tenho direito para que, à tarde, esteja na melhor forma para me cingir à sala de aula, a mesma sala de onde não voltarei a sair. Cordialmente, assino por baixo.”

E assim foi. Nunca mais voltei ao refeitório e nunca mais almocei entre os alunos. Sob pena de uma queixa ou, pior, uma espera à porta da escola ou, pior ainda, uma surpresa dentro da minha sala de aula, tenho dedicado a minha hora de almoço e o meu período de descanso a fazer o que a lei me dá o direito de fazer: descansar. 

 

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2020/01/uma-folha-de-alface-joao-andre-costa/

7 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

    • Luluzinha on 9 de Janeiro de 2020 at 13:36
    • Responder

    Compreendo e subscrevo plenamente a postura do encarregado de educação. Há que demonstrar algum bom senso em não exceder as funções para as quais se está habilitado. E como bem admite, nunca deveria ter-se, abusivamente, imiscuído entre os alunos, no refeitório. Haja bom senso no respeito pelo espaço dos outros, sejam alunos ou não. Aprovo, reiteradamente, a atitude do encarregado de educação.

    • Eduardo on 9 de Janeiro de 2020 at 14:38
    • Responder

    Concordo. Os professores têm mais que fazer. O colega deve ter pouco que fazer para ter tempo aturar alunos na cantina. Ou não tem vida familiar como muitos. Esses gostam muito de reuniões.

      • Luluzinha on 9 de Janeiro de 2020 at 17:55
      • Responder

      Muito bem! Aliás, admito que essa “promiscuidade” com os alunos me suscita algum desconforto. Enfim…

      • Paciência on 10 de Janeiro de 2020 at 14:13
      • Responder

      Diz o provérbio: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”.
      A nossa “aldeia” está podre, já ninguém ama a profissão de ensinar e ajudar a educar os filhos dos outros.
      Era preferível trabalharem numa fábrica, onde não tinham de pensar nem aturar outras pessoas. Apenas tinham que se concentrar no que tinham à frente do nariz e mexer as mãozinhas até à hora do toque para sair.

    • 550 on 9 de Janeiro de 2020 at 17:58
    • Responder

    Os pais não sabem o que querem, uns dizem “ai” e outros dizem “ui”, por isso preocupemo-nos em estudar as matérias que temos de ensinar e em ensiná-las bem, deixemos a educação para os senhores encarregados de educação. Sugiro mais, retiremos as %s das atitudes dos critérios de avaliação e apliquemos à risca os regulamentos internos.

    • Jm on 10 de Janeiro de 2020 at 19:33
    • Responder

    A louvável ( e altruísta) atitude deste professor não foi compreendida. E pelos vistos não só pelo encarregado de educação…

    • TPereira on 10 de Janeiro de 2020 at 20:25
    • Responder

    Jm concordo consigo. Espero que a maioria dos comentários acima descritos não sejam de colegas (professores), caso contrário , fico a pensar… a quem estamos a entregar os nossos filhos…

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

WP2Social Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
Seguir

Recebe os novos artigos no teu email

Junta-te a outros seguidores: