Opinião – A cívica ilegalidade catalã e a inútil legalidade portuguesa – Santana Castilho

 

A cívica ilegalidade catalã e a inútil legalidade portuguesa

1. Polícias a espancarem barbaramente civis que cometiam o “crime” de votar, que ensanguentaram cabeleiras brancas de mulheres que protegiam urnas de voto e que, a uma delas partiram, um a um, todos os dedos de uma mão, são coisas do foro “interno do Estado espanhol”? Nove centenas de cidadãos europeus feridos pelas forças que existem para os proteger são coisa interna de um estado membro ou, antes, matéria civilizacional que a todos importa?
O hibridismo do discurso diplomático e a contenção expressiva que o exercício politicamente correcto de determinados cargos recomenda podem obrigar a silêncios cobardes. Mas não justificam que se remeta para o remanso doméstico o comportamento protofascista de Mariano Rajoy. Murcham os afectos quando as mãos que os distribuem mergulham na pia de Pilatos!
2. Por falar em Pilatos, o provedor de Justiça considerou que o concurso que os professores contestam foi injusto e originou o “desrespeito pela ordenação concursal assente na graduação”. Mas proclamou, do mesmo passo, que uma eventual repetição complicaria o arranque lectivo e que a solução congeminada pelo Governo “traduz o reconhecimento da inadequação dos resultados concursais”. Afinal, a que solução se refere o provedor? A 10 de Setembro, António Costa disse que o problema teria uma solução a encontrar pelo ministério. Mas o ministério respondeu manhosamente. Sem reconhecer o erro que cometeu, acenou com mais um concurso extraordinário para, magnanimamente, permitir que os professores “corrijam” preferências. Como se fossem estes que erraram e não ele. Como se, em 2018, os lugares, que agora pertenceriam aos lesados, estivessem à espera deles. O compromisso do ministério foi a ausência de qualquer compromisso razoável para corrigir o dano que produziu. A sua desrazão foi servida à opinião pública como razão e iludiu valores maiores a troco de valores menores.
Nesta patusca Europa, os catalães, que não veneraram uma discutível vaca sagrada legal, pagaram com as cabeças rachadas. Mas os governantes portugueses, que mandaram às malvas a justiça e a transparência de um concurso público, foram comtemplados com a “amnistia” a que o “juridiquês” chama “da inutilidade superveniente do acto administrativo”.
3. O PS teve uma expressiva vitória eleitoral e amanhã celebra-se o Dia do Professor. Duas efemérides que não festejo. Porque na Educação, a acção governativa do PS só não é um flop porque é a consequência natural de um programa sem conteúdo (digo-o desde o início) e de uma equipa de incapazes. Porque o apregoado bom início do ano escolar se limitou a visitas oficiais às escolas que os prosélitos controlam, para celebrar uma cultura pedagógica de substituição do valor intrínseco do conhecimento pelo valor efémero da flexibilidade curricular. Porque a asneira comprovada é firmemente defendida no tecido político educacional actual, como se a qualquer Governo, por mais legitimo que seja, se possa permitir o emburrecimento de uma geração a golpes de lixo digital e programas definidos por aqueles que menos sabem do que falam. Exemplo recente? A intenção de facilitar a transumância dos alunos para os cursos profissionais, já que os resultados dos exames nacionais destes cursos (e só desses) poderão deixar de contar para a média final do ensino secundário. Ora os valores culturais centrais que contribuem para a compreensão fundamental do mundo e, por essa via, para a educação dos nossos jovens, não podem ceder o passo ao simples treino para conseguir emprego, por mais importante que o ensino profissional seja.
Porque o Governo não reconhece os esforços que os professores fazem em nome das crianças e, mesmo assim, é servido por uma elite de seguidores de teorias pedagógicas triviais e inconsequentes, onde a mentalidade de rebanho é dominante, o pensamento oposto liminarmente considerado inimigo e demasiados professores aceitam isto sem questionar, com uma complacência intelectual preocupante. Porque há uma tendência perturbadora para aceitar o crescimento do servilismo, do conformismo e da cobardia.
In Público de 4.10.17

 

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2 comentários

    • Lurdes on 4 de Outubro de 2017 at 19:04
    • Responder

    É agora que o Isaltino declara a independência de oeiras. Tal como a generalitad da Catalunha gosta de poder e não se importa muito com leis, é um municipio rico e não tem nada que pagar o rsi dos ciganos de loures. Para a semana há referendo em oeiras e depois gostaria de ver o que pensavam estes senhores tão amigos da Catalunha.

    • Paulo Pereira on 5 de Outubro de 2017 at 20:07
    • Responder

    Quanto à ilegalidade que políticos medíocres catalães impuseram ao povo catalão e o manipularam de forma vergonhosa, apelando à independência, basta ler a imprensa espanhola, o Artigo 115 da Constituição de Espanha e a Lei da Segurança Nacional, aprovada em 2015 pelo PP, PSOE e Ciudadanos. Logo por esta perspectiva se compreende o apoio dos partidos institucionalmente de esquerda, de Espanha contra os nacionalistas de Barcelona, além do partido de Rajoy e outros partidos de direita. E de toda a restante população de Espanha.
    Quanto à brutalidade da Guardia Civil, é outro assunto. Por cá, em Portugal, também tivemos excessos por parte da GNR e PSP em cargas policiais. Veremos de que forma o Estado Espanhol irá lidar com a situação.

    Por cá, quem se preocupa com a Lei? Quando o próprio Direito é usado para justificar argumentos de gente sem vergonha nem ética, e quem nos governa ainda se ri do jurista que elaborou o acórdão que o favorece…

    Isaltino é o caso paradigmático da fibra do que nós somos.

    A Madonna já percebeu como funciona Portugal: teve uma visita “secreta” com a Ministra da Administração Interna para adquirir um “visto especial”.
    Somos mesmo professores!

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