1. Repetidas vezes temos ouvido os políticos a atribuir o atraso da nossa economia ao decantado défice de formação dos trabalhadores. Nesta premissa, aliás, têm vindo a assentar os sucessivos programas promotores do acesso ao ensino superior.
Mas aquilo que não se divisa são políticas coerentes, que ultrapassem os baixos salários e a precariedade e garantam que o dinheiro que o país despende com a formação dos seus jovens reverta a favor de melhores condições de vida para todos.
Assim, não surpreende uma notícia recente segundo a qual, num só ano, Portugal perdeu 128 mil trabalhadores com ensino superior. Trata-se de uma emigração em massa de quadros a quem oferecemos salários baixíssimos e não divisam aqui expectativas de futuro compatíveis com a formação que adquiriram.
Muitos dos que emigram são médicos, que vão deixando o SNS à míngua de especialistas. Já há alguns anos, o Prof. José Ponte demonstrou no Público que o custo de formação de um especialista ficava entre os 300 e os 500 mil euros. No ano corrente, o orçamento dos dois ministérios que tutelam o ensino ultrapassa largamente os 10 mil milhões de euros.
Acha isto normal? Acha normal que o nosso marasmo político financie o desenvolvimento dos outros países à custa do nosso retrocesso?
2. No quadro da 1ª fase dos últimos exames nacionais, foram apresentados 4080 pedidos de revisão das provas e consequentes classificações atribuídas (3855 relativos ao secundário e 225 ao 9.º ano). Do processo resultaram 3109 subidas de nota (76,2% no total das classificações revistas), e 321 descidas (7,9% no total das classificações revistas). Dito de outro modo, 84,1% das provas reavaliadas foram consideradas mal classificadas pelo Ministério da Educação. Sucede que o descrito não é um epifenómeno de um processo normal. Outrossim, é mais uma de constatações idênticas verificadas ao longo dos últimos anos, em que uma percentagem relevante de pedidos de revisão dos exames do secundário termina com a subida das classificações inicialmente atribuídas.
Acha isto normal? Como se explica a dimensão destes números? Como fica a confiança da sociedade relativamente ao processo? Que confiança se pode inferir sobre a fiabilidade das classificações atribuídas aos milhares de provas que não foram revistas?
3. Como foi fartamente divulgado, Marcelo vetou o pacote Mais Habitação e o Governo respondeu com uma posição de força, anunciando que vai reconfirmar o diploma no Parlamento, sem qualquer alteração. Toda a oposição, da esquerda à direita, todas as associações profissionais, todos os técnicos e especialistas independentes garantem que a situação piora se o diploma avançar.
Acha isto normal? Acha normal que, numa situação tão dramática para milhares de portugueses, o Governo recuse um esforço para encontrar convergências com a oposição e vá impor uma política que colhe a unânime discordância das outras forças políticas e do Presidente da República, fazendo o oposto da garantia que deu de que ia ser uma “maioria dialogante”?
4. A mesma arrogância e obstinação estão na origem da recusa em recuperar os seis anos, seis meses e 23 dias cumpridos pelos professores em período de congelamento. Não é possível detalhar, no pouco espaço de que disponho, os fundamentos que permitem afirmar que o decreto-lei agora promulgado pelo Presidente da República gera novas injustiças e desigualdades dentro da classe e deixa sem resposta as vertentes mais contestadas de toda a situação, ao não revogar as quotas que cerceiam os acessos aos níveis mais elevados da avaliação do desempenho e ao não eliminar as vagas instituídas para aceder aos 5º e 7º escalões. Por último, permanece a discriminação dos professores relativamente à restante administração pública e, particularmente, aos que ensinam na Madeira e nos Açores.
O Governo tem dito que os obstáculos são de natureza financeira e de equidade relativamente aos restantes funcionários públicos. São muitas e de proveniências insuspeitas as demonstrações de que o argumento financeiro é falso. Quanto à equidade, a verdade é que, na generalidade das outras carreiras, o tempo de serviço, convertido em pontos, já foi reposto.
Acha isto normal? Acha normal que seja por isto que vamos ter o próximo ano dominado por conflitos laborais, depois dos últimos três, parcialmente perdidos?
In “Público” de 30.8.23




7 comentários
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Só os ministros e secretários , em Portugal é que não têm formação deficitária.
São todos doutores!…
Bom dia a todos. Alguém tem uma previsão para a publicação das vagas e listas de acesso ao 5° e 7° escalões? Obrigado pela atenção.
Caro Santana Castilho, considero que este país sofre de um marasmo intelectual e civilizacional há imensos anos. O busílis da questão está, como tão bem sabe, na Educação. Todos os males provêm, como também sei que tão bem o entende, da Educação. O seu artigo está, como sempre, bastante contundente e assertivo, mas peca por algumas razões:
1. Os médicos (algo que neste país é uma obsessão nacional) são os funcionários do Estado que melhor ganham em início de carreira (não quer isso dizer que aufiram bons salários porque, na verdade, não auferem). Os que trabalham no privado (acumulando o que lhes apetece com o público) , se o Santana Castilho não sabe, ganham como nababos. Sem dúvida que, toda a estrutura salarial destes profissionais deveria ser revista, tal como a dos professores (as duas profissões pilares – base de qualquer nação civilizada! Deveriam ser os mais bem pagos, exactamente como o são, por exemplo, nos países escandinavos).
2.. Os exames nacionais têm e devem ser realizados, num país que tem um ministro da educação que os odeia e não suporta qualquer tipo de qualidade ou exigência em Educação, para não me alongar mais, porque o indivíduo causa – me náuseas. Ora, os alunos habituaram – se a ter as notas internas mega inflacionadas desde que dão os primeiros passos na escola, culpa total dos meus ainda colegas . É natural que cheguem ao 12°ano a pensarem que são os maiores. Sabe, por mero acaso, o Santana Castilho, que o serviço de correcção de exames não é pago e é impingido aos professores de forma autoritária, muitas vezes ainda com aulas a decorrer, reuniões, relatórios para entregar, dossiers para organizar, conselhos de turma para preparar (só a quantidade de decretos, normas, formulários e quezandos, são inimagináveis…)? Sendo quase todos exames para débeis mentais, com cruzes, cruzinhas e palavras cruzadas, são aparentemente fáceis de corrigir. No entanto, para mostrar que há algo que se aproxima de “rigor”, são metidas algumas questões em que os alunos têm de escrever (mas que chatice!). Dado que o professor corrector tem de ler quase um manual para corrigir as provas (algo que lhe garanto que NUNCA fiz), imagine no que isto resulta. Espanta-me, por outro lado, que se espante com os pedidos de revisão, uma vez que os alunos não têm consciência daquilo que valem, uma vez que o Sistema os engana todo o percurso escolar deles.
Caro colega, sejam quais forem os motivos (e não deve ser apenas um, dada a complexidade do tema), esta discussão é válida e fundamental! A análise destas (e de muitas outras) questões deveria ser feita, não para apontar o dedo a este ou àquele, mas, efeCtivamente, para que possamos melhorar em todos os campos em que existem falhas. Infelizmente a verdade é que, como em tantos aspeCtos da vida neste país, a avaliação e o erro são sempre encarados como forma de penalizar alguém e não como um verdadeiro método de aferição para possível correCção e melhoria… e não me estou a referir aos exames dos alunos!
O verdadeiro problema está a montante… quando afirma que “os alunos não têm consciência daquilo que valem”, as perguntas que se seguem, normalmente, não são:
– Porquê?
e/ou
– Como resolvemos isso?
Mas sim:
– Por culpa de quem?…
Ao que, inevitavelmente, se segue um chorrilho de argumentos defensivos (e que muitas vezes se tornam ofensivos), num interminável apontar de dedos que, em última análise, deixa tudo em “águas de bacalhau”.
Quem tem a razão? Provavelmente todos e… provavelmente ninguém, porque ela se perde em discussões inúteis.
Começa a ser estruturalmente normal para quem veste o cachecol do PS e da esquerda radical.
A ordem mafiosa dos médicos nunca quis o SNS (o Martelo também votou contra) e tudo faz para o destruir. Exclusividade obrigatória no público e quem quiser sair que pague os 300 mil euros ao Estado.
Quanto à lei da habitação peca por pouco, a única coisa positiva é o travão ao AL (que o Supremo obrigou, pois a lei da vaca leiteira e do cocainado foi invalidada).
O Prof Martelo só liga à choradeira dos lobbies da cor dele e veta o que não deve, manda leis para o TC que não deve (lei da toxicodependência), mas as que devia enviar ja não manda (a lei do tempo de serviço).
Estamos bem entregues à bicharada e não se enganem, o PS faz o trabalho sujo, mas os betos liberalóides de pacotilha querem muito mais, só descansam com a destruição do serviço público de educação e saúde.
Por que não se fala que todos os exames, do 9.° ou secundário, tinham cinco ou seis perguntas, mas que na avaliação apenas contavam as duas com melhor cotação? Todos os Exames feitos para 120%?
Por que razão um excelente aluno acertava em todas as questões e tem a mesma cotação,, nessas 5 ou 6 questões, dos alunos q7e acertam em apenas duas?
É assim que conseguem médias positivas em quase todas as disciplinas…falseando resultados.