Abrir as escolas
É preciso ver se ainda vamos a tempo de agarrar o futuro destes alunos, garantir que a deriva não tenha destruído suas vontades de ser alguém, predados que estão por tanta virtualidade e vício lúdico. Abrir as escolas é abrir o futuro, o regresso a essa construção elementar que ensina, educa, estrutura, faz gente.
Alguém protestava dizendo que o papel das escolas é instruir e o das famílias é educar. Por acaso o Governo tem um Ministério da Instrução, ou é mesmo da Educação que tratamos quando tratamos de escolas? A euforia pela cidadania do ódio, legitimada pelo poder absoluto dos pais sobre as ideias das crianças, quer que a escola seja como um canal de notícias ao jeito do papagaio sem emoções. A escola, contudo, é a extensão de todas as dimensões e é a fábrica humana por excelência, contra toda a ignorância que pode haver numa família, contra todas as precariedades, a favor da auto-estima dos alunos e da sua pura sobrevivência numa sociedade de diferentes e opositores.
Os professores, ainda que de disciplinas precisas e perfeitamente programadas, serão inevitavelmente exemplos de maturação emocional que indicarão aos estudantes caminhos para robustecerem e ascenderem acima das suas e das falhas das famílias. A escola não pode senão ser a educação fundamental porque, se deixados apenas ao arbítrio das famílias, os alunos jamais desenvolveriam competências sociais elementares para se relacionarem afectiva e profissionalmente. É, pois, muito perigosa a ideia de que às famílias competem temas específicos. Porque o que lhes compete é a intimidade das crenças e das convicções, mas a informação e o debate sobre qualquer assunto é apanágio não negociável da escola e isso vai, sim, iluminar os alunos acerca do que pode ser o Bem e do que pode ser o Mal. Com tal coisa, deverão conhecer e afastar preconceitos e antigas modas que não valorizam o humano e optam pela agressão contínua à liberdade e identidade dos outros.
Regressam às aulas, pois, aqueles que se humanizam. Aqueles que se completam, para que não se reduzam à avidez mimada das famílias, por mais que o mimo seja uma glória que todos agradecemos. Sem o outro lado das coisas, o teste prático das condutas entre amigos e desconhecidos, entre os empáticos e os antipáticos às nossas pessoas, não teríamos como aprender a sensatez, a moderação essencial para que frequentemos o Mundo como propensos à justiça e ao conhecimento e não ao egoísmo e à ignorância.
Vou ser sempre pelos professores. E vou ser sempre pelos professores que levam à dúvida e instigam à reflexão. Pelos professores saberemos se vamos a tempo de agarrar o futuro desta geração que está com dois anos de suspensão. Pelos professores e por todos quantos fazem uma escola devemos encetar o esforço para que ninguém se perca nem no refúgio doce de ser criança nem na raiva infértil de odiar o Mundo.




5 comentários
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Belíssimo artigo de alguém informado, que sabe qual deverá ser a função da escola. Infelizmente, grande parte dos docentes encaixa-se no “Alguém protestava dizendo que o papel das escolas é instruir e o das famílias é educar.”
É possível que o equívoco “educação” / ” instrução” decorra da escola ser responsável por explicar, por exemplo, os afixos nos eixos, formas algébrica e trignométrica, ou uma secção dos túbulos seminíferos onde decorre a espermatogénense, ou interpretar o significado de força contraelectromotriz de um receptor, ou a noção de Zeitlichkeit de Heidegger no Sein und Zeit, ou simplesmente, uma avó a ter uma conta de email para escrever ao neto emigrado, e, ao mesmo tempo educar no sentido comum do termo. Neste domínio, se o professor tem de dizer a alunos jovens adultos, para cumprirem as regras de socialização elementares no espaço de aula, é natural que pense, que não será possível “instruir” o que era suposto e é formado e pago para fazer. Este professor poderá ser até muito melhor “instrutor” do que “educador”, pois a sua formação e especialização académica e a sua apetência não foi a de “educar” adultos ou quase adultos. Foi a de ser docente em matérias específicas que implicam conhecimentos aprofundados de quem ensina e de quem se propôe a aprender. A noção de escola é muito vasta, cabem infantes, muito, muito novos, até aos 60, 70 e mais anos. Obviamente que o peso da “educação” e da “instrução” deveria alterar-se conforme as idades e as disciplinas. Mas é trágico se a escola só tem de “educar” jovens adultos que se recusam a aprender algo mais do que o elementar.
A preocupação que o artigo espelha é lícita e atual. Levanta o véu que destapa uma infindável controvérsia geradora de múltiplos debates e reflexões sem se vislumbrar uma solução satisfatória. Todos os docentes sabem que a escola não pode andar de costas voltadas para as famílias. Uma e outra têm que andar de mãos dadas para resolver sérios e graves problemas sociais e comportamentais pelo que não se pode reduzir ou minimizar o crucial papel da família na educação deixando para a escola todas as responsabilidades. Uma e outra têm de ser complementares, confluentes, sintonizadas. É neste âmbito que deve surgir a solução para a separação estanque dos papéis: escola – instruir; família – educar. Ambas têm que evoluir como dois espirais que ascendem, entrecruzando-se e, cada vez que o fazem, melhoram a sua relação. Em muitas situações verifica-se que os valores e princípios defendidos pela escola são opostos aos das famílias. São estes casos que demovem os docentes e a escola de tentarem uma solução. São estes casos que muitas vezes contribuem para generalizações acusadoras de que a escola e/ou as famílias se demitem do seu papel de educação. Contudo, estas duas instituições não são as únicas a contribuir para a formação das crianças e jovens. Há forças e contextos com poderes muito mais influenciadores. Portanto todos os intervenientes têm que ser chamados.
A dose de mais família e menos escola a que os alunos foram sujeitos por força dos confinamentos teve muitos aspetos negativos por terem tido períodos demasiado prolongados. Mas também se pode extrair daquela maior proximidade das crianças com as famílias, alguns aspetos positivos em termos de afetividade. Quanto à aprendizagem, as lacunas poderão parecer mais profundas do que a realidade. Sublinhe-se que houve muito trabalho feito tanto por parte de alunos como principalmente por parte dos docentes que tiveram que se adaptar em apenas dois dias a uma nova realidade, aumentando o seu horário por força de preparações mais exaustivas e minuciosas das suas aulas.
Agora que o normal se vislumbra, poderemos usufruir do efeito pós-guerra em que todas as sombras e medos se desvanecem e os espíritos se abrem em direção à compensação do tempo perdido.
Caro, VHM (permita-me que se lhe dirija assim):
“Vou ser sempre pelos professores.”
Ser sempre pelos professores pressuporia que o primeiro parágrafo desta sua singela reflexão fosse para defender o regresso da DEMOCRACIA às escolas.
A não ser assim, a publicação e o conteúdo deste texto, em Portugal, terá o mesmo impacto que teria na Coreia do Norte…
OBRIGADO, Valter Hugo Mãe!
Não me cansarei de lhe dizer OBRIGADO.
Acredite que há professores (com p pequeno) que gostaram dos últimos 2 anos. É sinistro, mas é verdade.
MUITO OBRIGADO