E se houvesse 83% de votos em branco, nas próximas eleições?

 

A menos de dois meses das eleições legislativas, o espectro partidário português mais parece um deserto, tornando-se difícil acreditar e confiar nos Partidos Políticos que serão alvo de escrutínio, sem esquecer os respectivos líderes partidários, candidatos ao cargo de 1º Ministro:

– Independentemente das ideologias políticas que pretensamente possam estar subjacentes a cada um dos Partidos Políticos, o espectro partidário português apresenta-se, no momento actual, como estéril, vazio, seco, árido, desolado, inóspito, a fazer temer o pior após o próximo dia 10 de Março…

– Com franqueza, no momento actual, nenhum Partido Político parece capaz de suscitar a confiança plena dos cidadãos portugueses, tal é o grau de descrédito que poderá ser apontado a todos os Partidos Políticos, quer se auto-designem como sendo de Esquerda ou de Direita…

E essas desconfianças têm vindo a acentuar-se de tal forma que chega mesmo a atenuar-se a convencional polarização Esquerda-Direita, que assim vai perdendo sentido…

São todos iguais”, ouve-se frequentemente…

E, neste caso, serem todos iguais, significa, sobretudo, que são todos igualmente maus…

Por outras palavras, intitulando-se como sendo de Esquerda ou de Direita, nenhum Partido Político actual parece conseguir convencer, sem reservas, os eleitores portugueses, nem ser capaz de os mobilizar, fazendo-os sair de casa para exercerem o seu direito de voto…

De modo geral, a classe política está descredibilizada, recaem sobre si as mais variadas suspeitas, isso percebe-se e está bem patente na vox populi, ouve-se todos os dias, nos mais variados lugares…

“Mais do mesmo” parece ser o mais provável que se pode esperar, ganhe quem ganhar o sufrágio agendado para o dia 10 de Março, tal é o marasmo que acomete os Partidos Políticos…

Perante tal cenário, e como forma de protesto, o que apetecia mesmo era votar em branco ou anular o boletim de voto, pela escrita de mensagens dirigidas aos Partidos Políticos…

Mas aí teríamos um problema:

No sistema eleitoral português, mesmo que os votos brancos e/ou nulos fossem superiores aos votos nas candidaturas, isso não teria qualquer implicação ou reflexo no apuramento do número de votos obtidos por cada candidatura, conforme consta no Site da Comissão Nacional de Eleições:

 

– “Os votos em branco, bem como os votos nulos, não sendo votos validamente expressos, não têm influência no apuramento do número de votos obtidos por cada candidatura e na sua conversão em mandatos. Ainda que o número de votos em branco ou nulos seja maioritário, a eleição é válida e os mandatos apurados tendo em conta os votos validamente expressos nas candidaturas.”

Portanto, em termos de consequências formais e institucionais, não adiantará de muito votar em branco ou anular o voto, o que me parece absolutamente lamentável e injustificável, sobretudo por, em lato sensu, contrariar a própria definição de Democracia Participativa e Representativa…

Se alguém se dá ao trabalho de se dirigir a uma urna de voto para expressar a sua avaliação e o seu juízo votando em branco ou anulando o seu voto, isso terá um significado muito concreto, impossível de ignorar em termos de interpretação:

– Nenhum dos Partidos Políticos a sufrágio merece a confiança e o respeito daquele eleitor, que prefere não votar em nenhum deles e usar o seu voto como protesto… Mas, e ainda, assim, saiu de casa para ir votar, o que não poderá deixar de se considerar como uma forma de exercício da Democracia e da Cidadania…

Quando os Partidos Políticos e os respectivos líderes não conseguem ter a lucidez de perceber que não suscitam a confiança da parte dos seus concidadãos, deixando-os numa encruzilhada, num beco de difícil saída, por não existirem alternativas suficientemente convincentes, a resposta a isso deveria ser o voto em branco…

Se a percentagem de votos em branco tivesse consequências ao nível dos mandatos apurados, talvez os Partidos Políticos “acordassem” e passassem a preocupar-se mais com o grau de honestidade com que enfrentam um acto eleitoral…

Um acto eleitoral não pode ser visto como um evento banal, comezinho, ou como algo insignificante, sem grande importância… Um acto eleitoral é, por excelência, a principal forma de exercer a Democracia e deve ser respeitado por isso…

No “Ensaio sobre a Lucidez”, José Saramago conta-nos uma história que se desenrola em torno dos votos em branco e da forma como essa via foi usada por determinados cidadãos para manifestarem a sua revolta e a sua insatisfação:

A história deste ensaio passa-se num país não identificado (mas com clara referência a Portugal), onde há eleições autárquicas e, nessas eleições o voto em branco chega aos 70% na capital do país. Repete-se a eleição e o problema aumenta: o voto em branco atinge os 83%.” (JornalismoPortoNet, em 31 de Março de 2004)…

Sobre o anterior, José Saramago terá afirmado: “Não há governo no mundo que esteja preparado para esta situação”. (JornalismoPortoNet, em 31 de Março de 2004)…

Decorrente dessa afirmação, pergunto-me:

O que sucederia se nas próximas eleições legislativas houvesse 83% de votos em branco?

Indisfarçavelmente, gostaria muito de poder assistir a isso… Haveria de dar que pensar…

E até consigo imaginar a atrapalhação e o desconcerto do Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, perante um acontecimento semelhante…

Havia de ser engraçado…

Imaginar ainda é possível e dizem, até, que faz muito bem ao Pensamento…

Então, imaginemos…

Paula Dias

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10 comentários

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    • Sempre Alerta on 22 de Janeiro de 2024 at 9:45
    • Responder

    Caríssimos,

    Já ouvi e li muito deste tipo de argumentário e posso resumi-lo a algumas considerações:
    1ª – Não há vazios de poder e alguém tem de governar.
    2ª – Atribuo este descrédito nos partidos a preguiça, repito preguiça, de ler os programas eleitorais e perceber o que cada partido defende.
    3ª – Além da preguiça, há uma herança de baixa escolaridade que grassou neste país até à revolução dos cravos que este ano comemorará 50 anos.
    4ª – A falta de cultura democrática é mais permeável a mentiras muitas vezes repetidas que os políticos são todos iguais. Se assim fosse o Salazar era igual ao Mário Soares, que seria igual ao Sá Carneiro, que seria igual ao Álvaro Cunhal, que seria igual ao Cavaco Silva.
    5ª – Dizer que os políticos são todos iguais, é equivalente a dizer que as pessoas são todas iguais. Ponham-se a dizer na rua com convicção que as pessoas são todas iguais e depois digam-me os resultados.
    6ª – Estas mentiras convém a quem quer manipular a opinião pública para colocar certos programas partidários no poder.
    7º – Não há um partido único que tenha de galvanizar o povo porque o debate político não é para entretenimento (embora há quem seja muito bom no TikTok). Mas tem mais impacto na “reality” que os reality shows. A democracia é plural e por isso é salutar não haver um pensamento único.
    7ª – O voto de protesto é uma falácia. Não se vota contra uma coisa. Vota-se sempre a favor de algo.
    8ª – É importante saber em que se vota e para isso existem: Os Programas Políticos dos partidos!

    Resumindo, deixem de se levar em cantigas vãs, façam como o Relvas e vão estudar. Se não se identificarem com nenhum programa, aí sim votem em branco. Atrás de uma cara, há uma extensa equipa de pessoas. Ninguém governa sozinho e o ato de governar não é fácil. Eu não gostaria de ser político!
    Convém estudar, especialmente se tiver que lecionar Cidadania. Os professores devem fazer parte das elites culturais do país e não é assim que lá vamos. A cultura política deste país é miserável e a culpa também é da Escola. Vê-se por este tipo de textos.
    Melhores cumprimentos e bons votos.

      • Mustang Horse on 22 de Janeiro de 2024 at 14:29
      • Responder

      Sempre Alerta:

      A desonestidade intelectual do seu comentário talvez seja devida a excesso de sabedoria.

      Talvez não fosse má ideia reler o texto, digo eu, que devo ser muito ignorante. Reler as vezes que forem precisas até perceber o seu conteúdo, que é o que se costuma aconselhar a quem não percebeu patavina do que leu.

        • Sempre Alerta on 26 de Janeiro de 2024 at 1:14
        • Responder

        Tem a bondade de me explicar, do alto da sua não ignorância? Se é professor, deve ser fácil explicar porque é que o texto lhe faz tanto sentido.

        • Sempre Alerta on 26 de Janeiro de 2024 at 1:23
        • Responder

        Por acaso tenho sabedoria suficiente para saber a pirâmide de Graham. Não consegue fazer melhor que um Ad Hominem barato?

    • FrankieAT on 22 de Janeiro de 2024 at 10:06
    • Responder

    Pior que tudo isso é o meu voto e milhares de outros votos não contarem:

    Ex: Guarda elege 3 deputados que são, sempre, PS e/ou PSD.
    Qualquer voto noutros partidos é deitado para o lixo. Isto porque se continuam a eleger deputados atrás duma divisão artificial do território. E que já nãos erve para nada há muito tempo.

      • Sempre Alerta on 22 de Janeiro de 2024 at 10:36
      • Responder

      Exato. É uma democracia distorcida.
      Pode-se por exemplo iniciar uma petição pública para a reforma da Lei Eleitoral, considerando que esta é uma questão que merece correção. Sistemas que na prática só distribuem votos por poucos partidos (nos casos Inglês ou Americano, dois), não são benéficos para a Democracia que se quer justa e plural.

    • PS on 22 de Janeiro de 2024 at 12:10
    • Responder

    O direito ao voto por todos os homens e mulheres portuguesas foi uma das vitórias do 25 de abril de 1974. Por isso é que além do voto ser um direito, também deveria ser um dever. Todos têm de votar na equipa que acham mais capaz e na filosofia de futuro para o país, com a qual mais se identificam, e nestas eleições, não poderia haver mais diferença entre as chamadas esquerdas e as chamadas direitas, entre o status quo e a esperança de mudança. Pena tenho eu que nas escolas não seja o mesmo, ou seja, os diretores deveriam ser eleitos pelo pessoal docente e não docente. A democracia é boa e é a única que dá a voz ao povo.

    • ?! on 22 de Janeiro de 2024 at 12:29
    • Responder

    “ O que sucederia se nas próximas eleições legislativas houvesse 83% de votos em branco?”
    NADA.
    É o que o PS quer, para manter o poder,

    • Ops. Agora já disse. on 22 de Janeiro de 2024 at 21:38
    • Responder

    ISto nunca vai acontecer.
    Porquê? Porque os portugueses falam muito mas não fazem nada.
    Queixam-se mas o grande problema está neles próprios.
    Vejam-se os professores. Demoraram 17 anos a começar a abrir os olhos. Foi sempre assim. Tal como no país.
    Os piores inimigos dos professores são os próprios professores. São reles, mesquinhos, capazes de passar por cima uns dos outros e tratar os outros como lixo.
    São os primeiros a sacanearem-se, a roubarem-se a aproveitarem-se do esforço alheio.
    As avaliações assim o promovem, mas o problema é mesmo deles próprios que são mal-formados.
    Com uma classe destas está-se à espera do quê?
    Que venham melhores? Claro que não. Virão ainda piores. Muito piores. Sobretudo a nível ético e moral.
    Parabéns e bem-vindos ao Ensino em Portugal.

    • Pois é on 22 de Janeiro de 2024 at 22:14
    • Responder

    E se exigissemos todos saber quem é que cada um dos lideres partidários pretende colocar como ministros, caso forme governo?
    Seria melhor, não acham?!

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