Serviço sujo em nome da pandemia

 

Já se sabe que tudo o que vem de grupos de trabalho constituídos por independentes (nomeados pelo Governo e compostos por prosélitos seus) é bom e tem selo prévio de qualidade oficial. Numa escola da Amadora, António Costa e Tiago Brandão Rodrigues certificaram essa qualidade, protagonizando um lance de propaganda, com a designação cínica de “Plano 21/23 Escola+”. O ministro da Educação, lendo um discurso mal feito mas manipulador, anunciou uma dotação de 901,3 milhões de euros para o plano (140 milhões para recursos humanos, 43,5 para formação, 47,3 para digitalização e 670,5 para equipamentos e infra-estruturas). António Costa fechou a festa evocando “o triângulo de sucesso nas escolas”: descentralização, autonomia e flexibilidade.
O que se retira de toda esta narrativa enganadora é a inexistência de medidas para combater os problemas de sempre, agravados agora. Nenhuma referência para a redução do número de alunos por turma, a medida que mais sentido faria para responder às dificuldades e particularidades de cada aluno e melhorar as suas aprendizagens. Nenhuma intenção eficaz para prevenir a prevalência da indisciplina, fenómeno que mais impede o trabalho em sala de aula. Nem um ténue reconhecimento sobre a falência de uma inclusão que excluiu ainda mais os que careciam de apoio específico e prejudicou enormemente o trabalho dos restantes e dos professores. Nenhuma alusão ao indispensável reforço das equipas de intervenção precoce, depois de termos tido cerca de 90 mil crianças com necessidades educativas especiais abandonadas durante os períodos de suspensão do ensino presencial. Nenhum sinal de reconhecimento de que a autonomia profissional de cada professor é fulcral para promover a diferenciação pedagógica que a situação actual requer. Nada quanto ao tão reclamado alívio do trabalho burocrático que recai sobre os docentes, para que se pudessem concentrar nas tarefas exclusivas de ensino. Silêncio quanto à necessidade imperiosa de, no primeiro ciclo do ensino básico, não constituirmos turmas onde coexistam anos diferentes de escolaridade. Em contrapartida, mais formação inútil e causticante para os professores, entregue aos bonzos do regime, mais tutorias em grupos (cuja dimensão mata o conceito), mais tretas pedagógicas (clubes de ciência, recuperações com artes e humanidades e oficinas de escrita). Em resumo, assistimos a um enunciado de intenções, para dar fôlego às medidas que o Governo vem desenvolvendo desde 2015, relativamente às quais a maioria dos professores percebeu, de há muito, que dão resultados contrários aos pretendidos.
Atirados ao ar, os números sugestionam os incautos. Ponderados com os contextos a que respeitam, podem esvaziar-se facilmente. Como irão ser relacionados com as verbas consignadas à Educação, em cada um dos dois OE a aprovar, os 901,3 milhões agora referidos para dois anos? Vão somar-se às dotações previsíveis ou irão, outrossim e ao invés, aliviar o esforço do Estado com a Educação, em sede de orçamentos? Os 670,5 milhões destinados a equipamentos e infraestruturas somam-se ao que já foi anunciado para a transição digital ou foram, agora, simplesmente desagregados dessa verba? Porque não relativizaram, António Costa e Tiago, os 3300 docentes, que disseram que serão contratados, com o número dos que sairão para a reforma, mais de 2000 só neste ano? Que leitura política pode ser feita quando comparamos o que se consigna à Educação com os milhares de milhões que vão ser transferidos para outras áreas da economia, ou quando verificamos que para o que é critico para o funcionamento do sistema (as pessoas) apenas se reserva 15,5% do total?
Como ousam pedir mais empenho e esforço a professores que, com trinta anos de serviço e elevadas classificações de desempenho, permanecem absurdamente retidos no 4º escalão da carreira? Como ousam pedir mais empenho e esforço a professores submetidos à arbitrariedade que preside à atribuição das menções de mérito, com todo o cortejo de opacidade que as serve?
Substituir o apuramento sério das carências dos alunos e a intervenção educativa para as superar por compra de mais computadores e meios digitais, porque é esse o investimento dominante do plano, é fazer serviço sujo em nome da pandemia.

In Público de 9.6.21

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11 comentários

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    • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 9 de Junho de 2021 at 11:59
    • Responder

    Mais professores para a intervenção precoce,? Ou seja, mais mama? Tipo 910?
    Chamem já o zkaramba, o Atento, para falar sobre o assunto!

  1. Aplaudo a publicação e subscrevo-a inteiramente!

    Resta saber se há alguém (quem de direito) que leia e reflita sobre o que foi publicado…

    • Mirtha on 9 de Junho de 2021 at 12:58
    • Responder

    Antes as Cortes tinham os seus bobos… agora os bobos são eles que nos fazem rir… para não chorar! lololololololololololol lololololololololololololol lolololololololololol lololololololol

      • Mirtha on 9 de Junho de 2021 at 13:00
      • Responder

      Mas ainda existe gente que acredita nesses bobos?

    • Rui Filipe on 9 de Junho de 2021 at 14:53
    • Responder

    PORCOS. MAUS e FEIOS.

      • Mirtha on 10 de Junho de 2021 at 11:04
      • Responder

      Mas acabam por votar neles!!! Desde a fantástica revolução dos militares que vcs sempre têm sido (des)gorvernados pelos mesmos do costume… pelo Centralão…

    • Alexandra Matos on 9 de Junho de 2021 at 15:45
    • Responder

    Boa tarde, faço minhas, as sábias e verdadeiras palavras que foram publicadas. Tenho pena que existam colegas a pactuar com a infâmia em que vivemos e trabalhamos, que não nos dignifica em nada. Bem Haja a quem denuncia estas realidades e, cada vez que vejo ou ouço o Tiago, apenas preocupado em manter o seu cargo de Ministro, com sorrisos cínicos, fico indignada e enojada. Não tem competência para o cargo, ainda é um bebé de fraldas que não luta pelos milhares de docentes e não docentes, que vivem diariamente este drama. Tem de se gritar bem alto: Não são precisas tecnologias digitais, mas turmas com 15 alunos, no máximo, e acompanhamento psicológico destas crianças, que nasceram e crescem neste mundo agitado em famílias agitadas.

    • Helena Tinoco on 9 de Junho de 2021 at 16:10
    • Responder

    Os senhores que nos (Des)Governam insistem em julgar que os professores retidos nos escalões e, por conseguinte, desmotivados (porque já deram tanto de si em prol do sucesso dos aluno), têm algum interesse na concretização das orientações/recomendações emanadas do ministério.

    Desenganem-se. Professores desmotivados leva ao insucesso educativo. Ficam de costas voltadas para o sistema pois não confiam nele. O sistema traiu-os. É urgente que se reponham as injustiças., que se termine com este descalabro

    • Mantém on 10 de Junho de 2021 at 7:22
    • Responder

    Faltou o mais importante: o restauro da liberdade de opção no uso das mordaças…

      • Consciência on 10 de Junho de 2021 at 10:44
      • Responder

      Finalmente alguém toca num tópico importante que tem vindo a ser quase nada falado pela comunidade docente!

    • maria on 12 de Junho de 2021 at 1:41
    • Responder

    Os 900 milhões vão direitinhos para a “indústria” do futebol!
    O resto é música p´ra boi dançar…

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