19 de Junho de 2021 archive

A Professora do Ano é…

Maria Elsa Cerqueira, professora de Filosofia na Escola Secundária de Amarante, é vencedora deste ano do Global Teacher Prize Portugal, o “Nobel da Educação”. O prémio foi entregue esta tarde, numa cerimónia transmitida online. A professora de Amarante foi considerada a melhor de um rol de 10 finalistas, apurados de um total de 186 candidaturas.

A docente, que se move pelo desafio de criar e implementar “pequenas utopias”, com o intuito de potencializar o desenvolvimento de cidadãos críticos e criativos para uma sociedade mais humanizada, criou o projeto de Filosofia com Cinema.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2021/06/a-professora-do-ano-e/

Ser professor: Cinco maneiras de atrair candidatos à profissão – Bárbara Wong

Ser professor: Cinco maneiras de atrair candidatos à profissão

Há mais de 20 anos, havia dois casos britânicos que acompanhava com interesse. Os rankings das escolas e a falta de professores. Sobre o primeiro, assinalámos 20 anos que começamos a publicá-los e já não são umas simples listas de escolas ordenadas, são um retrato possível, com todas as injustiças que possam ter. Quanto ao segundo, ouvia com frequência sindicatos e professores dizerem que ou se fazia alguma coisa ou o mesmo aconteceria por cá e faltariam professores no sistema. Mas não eram os únicos preocupados, desde pelo menos 2016, que o Conselho Nacional de Educação alerta para este problema.

À medida que os anos foram passando fomos assistindo ao envelhecimento da classe docente, mas também à perda de alunos interessados em prosseguir os seus estudos na área do ensino ou, pior ainda, aqueles que a seguem não são sequer os melhores — pelo menos não são os que chegam com as melhores notas de acesso ao ensino superior. Veja-se um exemplo muito concreto: há perto de 30 anos, a nota de entrada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para Português-Inglês era a terceira mais alta do país. Hoje vão para as humanidades os alunos mais fracos do secundário e a nota do último classificado, o ano passado, em Estudos Portugueses na mesma instituição foi de 13,4 (numa escala de 0 a 20), muito longe das Medicinas, Engenharias Aeroespaciais, Arquitecturas e afins – aliás, se um filho nosso tiver grandes notas, a última coisa que queremos é que ele escolha humanidades.

Quem são os principais prejudicados por este sistema que, incompreensivelmente, quer poupar nos recursos, quando a escola e os seus professores podem ser os grandes contribuintes para o esbatimento de desigualdades sociais, para o tal elevador social, para a defesa da democracia? Os alunos.

Feito o retrato, em pinceladas grossas (grosseiras até, dir-me-ão alguns), vamos ao que nos trouxe aqui: como atrair os melhores para a docência?

Se um filho nos disser que quer ser professor, não fazer logo aquele ar do “ando eu a criar um filho para isto…”. Claro que devemos falar-lhes dos prós e contras da profissão, mas também incentivá-los a prosseguir os seus sonhos. Se fizerem o que gostarem vão fazê-lo sempre com um sorriso, mesmo que ganhem mal.

Se os nossos amigos nos disserem: “Já viste que o nosso filho quer ser professor…” falar-lhes da importância desta profissão, como podem, de facto, ajudar a mudar o mundo! É esse lado poderoso que os professores têm e que tem de ser mais sublinhado – o seu poder para contribuir para um mundo melhor!

2. Valorizarmos as ciências sociais e humanas

Em épocas como a que estamos a viver, com o avanço rápido das inovações cientificas e tecnológicas, percebemos cada vez mais como é importante reflectir sobre as questões e nada como as ciências sociais e humanas para nos darem essas ferramentas. Aprender a pensar, a questionar, a encontrar respostas – essa é uma capacidade fundamental que as crianças devem aprender com os pais, educadores de infância e professores.

CNE propôs um 10.º ano igual para todos, “mais livre e transversal”. Na formação inicial dos professores, a História e a Filosofia não devem ser esquecidas. Da mesma maneira que nos cursos de Jornalismo há cadeiras de estatística (que nos permitem ler o mundo através dos números e fazer manchetes bombásticas), também os futuros professores – sejam de Matemática, Biologia ou Educação Física – têm de conhecer a sociedade em que vivem, têm de saber pensar e ter mundo para lá da disciplina que leccionam.

3. O ensino superior ser exigente com quem quer a via ensino 

Os cursos superiores para o ensino não podem ter as médias mais baixas, não podem acolher alunos medíocres que vão fazer um curso só porque sim e que ali chegam já vencidos, já com os vícios e as palavras de ordem dos sindicatos.

Da mesma maneira que há faculdades que procuram atrair os melhores alunos – vejam-se os cursos de Economia e Gestão com todo aquele jargão do “somos vencedores, somos os melhores”, etc. –, também as faculdades de letras e de ciências, bem como as escolas superiores de educação têm de ter orgulho naquilo que fazem e incuti-lo nos seus alunos. Têm de conquistar os melhores. Têm de ser mais dinâmicas, mais activas, com os pés no mundo e não lamentarem-se porque qualquer dia têm de fechar as portas por falta de estudantes.

Preparar os futuros professores não é só ensinar didáctica e inovação, é transmitir-lhes confiança, é dar-lhes bons exemplos, é ensiná-los a ser para que – quando chegarem à sala de aula – reflictam o que aprenderam e sejam daqueles professores que os alunos não esquecem o seu nome até ao fim da vida, daqueles que os miúdos olham com reverência como uma referência, daqueles que, um dia, pensam “quando for grande quero ser como o meu professor de Matemática!”.

4. Ajudarmos a reabilitar o papel social do professor

Projectos como o do Global Teacher Prize, que premeiam os professores que se destacam; projectos educativos que levam a sociedade civil a entrar nas escolas e a contribuir para que os estudantes estejam mais predispostos a aprender; ou aquelas correntes que percorrem as redes sociais sobre “o professor que mudou a minha vida”, contribuem para que olhemos para a docência com o respeito que merece.

A comunicação social também tem o seu papel – somos muitas vezes acusados de mostrar o pior. É verdade, mas esse pior não pode ser escondido porque deve levar-nos a reflectir sobre o sistema e como este pode mudar. Contudo, também damos voz a tantos professores que escrevem colunas de opinião no PÚBLICO, também saímos em reportagem e informamos sobre bons exemplos, boas práticas, actividades que as escolas fazem que contribuem para a mudança e que podem ser exemplos inspiradores para outras comunidades educativas.

5. Exigirmos mais investimento e mudanças na carreira docente

É lamentável que a “bazuca” não seja usada para investir mais nos recursos humanos – o CNE defendeu o uso destas verbas para atrair professores –, mas em mais tecnologia e infra-estruturas para as escolas. As máquinas nada são sem a intervenção humana. Vimos isso recentemente, como o ensino à distância.

Se não houver mudanças na forma como os candidatos a professores acedem à carreira; se não se melhorar e não se derem incentivos para que estes se fixem em terras ou em escolas do interior, ou se dê um suplemento a quem está deslocado a mais de quilómetros de casa; se as escolas não tiverem mais autonomia (inclusive na contratação); se não existirem ferramentas transparentes para avaliar as escolas e os seus professores; se não se integrarem outros profissionais como assistentes sociais, psicólogos, mediadores, que trabalhem directamente com os professores, alunos e famílias; de nada vale estarmos a debater formas de atrair futuros profissionais para uma carreira estagnada e sem quaisquer incentivos.

Lamentavelmente, o desinvestimento na educação é o desinvestimento no nosso futuro.

 

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2021/06/ser-professor-cinco-maneiras-de-atrair-candidatos-a-profissao-barbara-wong/

A espera… Concurso de professores… a lotaria do inferno

Aqui na paragem, os transportadores vão e voltam, enquanto eu aguardo uma vaga para poder, finalmente, embarcar…
Alguém passa e, sorrindo, diz-me “Quem espera sempre alcança”, não obtendo outra resposta que não seja “Quem espera, desespera”. Aqui sentados no banco, todos sorrimos para enganar o nervosismo e aquela pessoa parte para um lugar que desconhecemos povoado de pessoas que nos desconhecem, inebriadas pela imagem distorcida que têm de nós, professores.
Vão passando os anos no tempo que vai morrendo no relógio que tento esconder enquanto, imóvel, permaneço sepultado, esquecido da vida, ancorado nesta falsa esperança.
Vou ficando esquecido nesta longa e interminável espera por algo que poderá nunca vir a acontecer…
A fragrância a erva fresca é já só a réstia de uma longínqua memória numa paisagem outonal que encheu a rua de tantos sonhos caídos. Olho para as mãos vazias marcadas por promessas roubadas, revelando-me que os anos passaram como um filme no intervalo da vida que deixei de viver.
Deitei cá para fora o suspiro “Até quando…?”, mas ninguém reagiu como se todos ali presentes partilhassem da mesma angústia… vencidos pelo tempo que nos vai devorando a esperança, consumindo a juventude e nos torna vítimas de um implacável cobrador de sonhos que nos vai fazendo pagar esta espera subtraindo-nos anos de vida.
Tudo passa… as pessoas, os transportadores de sonhos, as horas e o vento de outono que põe à prova a nossa resiliência.
Longe deste frenesim, nas minhas costas há um mundo diferente que me convida a abandonar este banco duro e a rasgar o bilhete sagrado, amarelado pelo tempo, que ainda seguro nas mãos trémulas e a juntar-me aos demais que se deitam no feno ondulante que derrama odores esquecidos, olhando as aves que voam na terra dos sonhos levando-me a ver coisas que nunca vi e tudo aquilo que perdi – toda a vida desperdiçada, mesmo aqui ao lado desta estrada…
Vem-me à memória a longa e exaustiva corrida para alcançar um lugar neste banco de espera com a promessa de conseguir apanhar um lugar… para conseguir apanhar uma mão cheia de nada.
Aproxima-se o anoitecer e eu, estúpido, ainda à espera, tento enganar a certeza de que não haverá mais auroras. Ancorei os pés nesta paragem ainda o dia era uma criança e nunca mais daqui saí.
Na rua, que se transformou num beco sem saída do qual não consigo sair, olho para mais um transportador que se foi embora sem mim e agarro-me à réstia de esperança que ainda me detém aqui, a qual esconde o temor de eu não passar de mais um a vir a ser engolido pela escuridão – essa iminência do anoitecer que evidencia que esta espera se tornou num sorvedor de vida; uma espera que tem vindo a consumir o tempo.
Em breve a rua ficará deserta, exibindo a nudez da verdade que eu sempre me recusei a ver – a criança que um dia se sentou aqui, já não existe – ficou tão longe na minha memória que me tornou noivo da velhice.
A noite encosta-se a mim, debaixo de um céu de chumbo que chora tantas coisas que não aconteceram, que me transformaram apenas em mais um número no meio de tantos sonhos a sangrar neste chão tão longe do céu. Os candeeiros, com um esforço inglório, atiram luz para afugentar a noite, numa tentativa vã de fazer esquecer que não mais voltará a ser dia.
Temo que, no dia em que, por fim, chegar o meu tão desejado lugar para embarcar, eu já cá não esteja… vencido pela vida, pela espera, pela desesperança.
De consolo, resta a sensação de vitória sobre a noite na certeza de que, se for engolido por ela antes de embarcar, esta espera não terá sido em vão – ficarei em todas as vidas que consegui tocar que me tornarão imortal.
Assim é a vida de um professor nos dias de hoje… eternamente à espera da chegada do bilhete sagrado que, ao fim de uma vida de trabalho, finalmente o devolverá à sua família… muitas vezes, um lar que não será mais o mesmo. O restituirá a uma família ausente, com os filhos crescidos – longe da vista e fora de casa – e um amor ferido pela distância e pela saudade.
O chiar dos travões desgastados detêm o transportador de sonhos que, ofegante, fica imóvel deitando um bafo quente na paragem. Abre-se a porta e ecoa pela noite fria o grito com o código da lotaria do inferno que condiz com o meu nome. Na ausência de resposta fica um banco vazio de mim, onde unicamente resta um bilhete envelhecido, onde ainda se consegue ler a frase de propaganda desbotada “Um dia há de chegar a tua vez…”
Carlos Santos

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2021/06/a-espera-concurso-de-professores-a-lotaria-do-inferno/

Seguir

Recebe os novos artigos no teu email

Junta-te a outros seguidores: