Em 2 de Abril de 2021, num texto aqui publicado, relativo ao drama das “aprendizagens perdidas” e a propósito do Governo ter criado por essa altura uma Equipa de Trabalho para esse efeito, escrevi isto:
Como previsivelmente acontecerá, atulhar as escolas, os alunos e os profissionais que nelas trabalham com mais projectos e programas irrealistas e artificiais, concebidos à custa de enquadramentos teóricos impossíveis de concretizar em termos práticos e feitos à medida de quem não faz a mínima ideia do que é o dia-a-dia numa escola, não parece ser nem sensato nem consequente… A auto-flagelação, os episódios folclóricos e a demagogia na Educação parecem estar a agigantar-se…
Com a publicação do Plano de Recuperação das Aprendizagens 21/23, confirmaram-se essas expectativas mais pessimistas:
A implementação das medidas mais simples e mais pragmáticas, sem floreados e sem dramas desnecessários, como reduzir o número de alunos por turma ficou, ao que tudo indica, “na gaveta”, preferindo-se a opção pela (pretensa) digitalização das escolas e pelo frenesim de Projectos, que não resolverão qualquer problema de fundo, mas que servirão, por certo, como instrumentos de propaganda e de manipulação da opinião pública, iludindo-a com um (suposto) investimento de 900 milhões de euros na Escola Pública…
Os 900 milhões de euros até podem ser efectivamente gastos, mas, com as medidas preconizadas no referido Plano, não parece plausível que sirvam para recuperar eventuais aprendizagens perdidas durante a pandemia…
Não intervir ao nível do mais elementar e mais básico, em prol de adornos e de aparatos, parece uma atitude semelhante à daquelas famílias que não têm dinheiro para comida porque se endividaram com a compra de um carro topo de gama e não souberam estabelecer prioridades no seu orçamento familiar, dominadas pela tentação do “show off”, meramente exibicionista…
Reduzir drasticamente o número de alunos por turma seria a medida mais pertinente e eficaz no sentido de criar as condições necessárias para se efectivar a Diferenciação Pedagógica em contexto de sala de aula, absolutamente imprescindível para a recuperação de qualquer aprendizagem, se for esse o verdadeiro objectivo…
Não assumir o anterior é querer continuar a “fazer de conta” que um professor, confrontado, entre outros, com a obrigatoriedade do cumprimento de Programas Curriculares, consegue estabelecer uma plena relação pedagógica com 30 alunos em cada turma e disponibilizar a cada um deles tarefas, finalidades, conteúdos, apoios, recursos e estratégias, devidamente adaptados às particularidades e características de cada um…
Esperar isso de um professor ou exigir-lho, nessas circunstâncias, é absolutamente irrealista, inexequível e até desumano, pelos implícitos “requintes de malvadez”…
A inclusão, tão repetida ao longo do documento que substancia o Plano de Recuperação das Aprendizagens 21/23, não passará de uma miragem, farsa ou ignomínia, sem a possibilidade de existir uma verdadeira e efectiva Diferenciação Pedagógica em contexto de sala de aula…
Com ou sem Covid, adivinha-se um próximo Ano Lectivo sem serenidade e sem sensatez, mas com muita entropia, sobretudo imputável ao próprio Ministério da Educação, incapaz de se mostrar como um elemento contentor, apaziguador e equilibrador…
A “corrida desenfreada” a Projectos improfícuos e a Formações inúteis parece inevitável e o fundamental ficará, mais uma vez, por fazer…
E o fundamental, neste caso, é tudo o que pode afectar o que passa dentro de uma sala de aula, ao nível do estabelecimento de uma relação pedagógica, e que não é substituível por apetrechos tecnológicos, nem por formações teóricas distantes da realidade e sem aplicação prática…
Infelizmente, aqui não parece aplicar-se um dos principais axiomas de Kurt Lewin: “Não há nada mais prático do que uma boa teoria”…
(Matilde)




11 comentários
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ELES a sabem toda! É assim que se ganham votos e eleições aos tontos!
Gostei do conteúdo do texto e subscrevo-o.
“ Reduzir drasticamente o número de alunos por turma seria a medida mais pertinente e eficaz no sentido de criar as condições necessárias para se efectivar a Diferenciação Pedagógica em contexto de sala de aula, absolutamente imprescindível para a recuperação de qualquer aprendizagem, se for esse o verdadeiro objectivo…” É isto mesmo que importa, para chegar a todos e a cada um dos alunos.
Também questiono o “pensamento mágico” que o diploma 54/2018 coloca aos docentes!
No Manual de Apoio à Prática, pág. 49, estão previstos “Recursos específicos de apoio à aprendizagem e à inclusão” … recursos específicos existentes na comunidade, (que a escola deve mobilizar) a fim de responder a todos e a cada um… nomeadamente, técnicos especializados … assim sendo porque é que se eu preciso de uma avaliação psicológica de um aluno que apresenta (em início de escolaridade) baixo desenvolvimento global e manifesto défice cognitivo, se um aluno precisa urgentemente de um terapeuta da fala ou terapeuta ocupacional, por exemplo, a EMAEI me remete para os encarregados de educação dos alunos e diz que são eles que têm de se dirigir ao Centro de Saúde e pedir um P1 ao médico de família? Passou-se um ano letivo e as identificações de necessidades de apoio à aprendizagem e à inclusão não obtiveram respostas eficazes dentro da própria escola. Onde estão os recursos humanos? Os colegas detentores dos meios e das estratégias específicas para ajudar o titular de turma face à diversidade dos perfis dos alunos? Um docente da educação especial que mais não faz do que o docente de apoio educativo? Que me pergunta: “o que queres que eu trabalhe com o teu aluno?”
Se puderem elucidar-me se este é o “atendimento” na globalidade das escolas muito agradeço.
Tal como tantas outras coisas acontecem no planeta… pandemias, corrupção, guerras… a educação não é exceção uma jogada política em que o que se pretende é dividir para reinar… um roubo e uma completa traição, desmotivação aos que estão no terreno… agora vai chegar um exército de salvação à custa dos contribuintes… os que estão no terreno não servem e agora é que vai correr tudo bem… alunos, pais e professores exaustos e a solução é tornar tudo ainda mais maçudo… Basta… a política ao amadorismo daqueles que por lá andam no desenrascanço… a educação a todos aqueles que se profissionalizaram e vestem a camisola por esse país fora em toda e qualquer escola, pública, privada… do jardim de infância à universidade sénior. Estamos perante uma afronta, farsa e palhaçada.
Muito bem, Matilde. É assim, de facto. Acrescentaria mais qq coisa, mas o que foi dito já é suficiente.
Escreve a Matilde,
“A implementação das medidas mais simples e mais pragmáticas, sem floreados e sem dramas desnecessários…”
Devia ser o grande incentivo. Mas não, parece que temos no ADN esta mania de complicar e de teorizar à volta dos problemas da escola, tantas vezes fazendo copy/paste de medidas de outras paragens/realidades.
“Não há nada mais prático do que uma boa teoria”…
Como não somos práticos, dificilmente conseguimos uma boa teoria. O ser-se prático e mais pragmático não é caracter´stica dos experts e elites de pedagogos . Julgar-se-ão diminuídos intelectualmente perante os seus pares?
Grande post da Matilde.
Para a escola pública ser 5 estrelas só precisava de 3 coisas…
1 ° financiar manutenção de equipamentos e edifícios
2° as turmas terem no MÁXIMO 15 alunos
3° exames nacionais serem todos efetuados em escolas públicas, para não existir dúvidas de fraude
Se para isso fosse preciso 900milhoes …ok
Querida colega, agradeço a frontalidade e veracidade com que escreveu e publicou esta REALIDADE. Como eu concordo consigo. BEM HAJA! Deviam existir mais vozes conscientes como a sua, com as suas PALAVRAS TÃO VERDADEIRAS.
4° Esqueci-me do financiamento habitacional para professores deslocados….
por inerência a qualidade na escola aparece.
E para que a fantasia se torne mais fantasiosa, ainda temos que gramar com o Projeto Maia…
As mentes brilhantes descobriram que só o Projeto Maia poderá salvar o ensino!
Façam-se novos critérios de avaliação!
Páginas e páginas de planificação!
Rubricas, rubricas…. até mais não!
Não esquecer o feed back de qualidade , muita ponderação
E assim se desperdiça tempo precioso!
Política de terra queimada.
Ilude-se o povo, extenua-se quem trabalha e bola prá frente porque o objetivo é ganhar autarquias!
Obrigado por escrever o que muitos pensarão . Subscrevo na totalidade o que é dito neste texto.