Procuram-se, com carácter de urgência, pais presentes e competentes…

 

Tristes, sós e abandonados (sem ironia), assim parece estar grande parte dos jovens que frequenta as nossas escolas… E a culpa disso não pode ser exclusivamente atribuída aos confinamentos que lhes foram impostos, por motivos epidemiológicos…

 O problema será, talvez, muito mais profundo do que isso, já existiria previamente e apenas se terá acentuado com o “gatilho” dos confinamentos…

O isolamento social experimentado por essa via, agravou e catalisou, por certo, o problema, deu-lhe maior visibilidade, mas não será o principal responsável pela solidão, pela tristeza ou pela sensação de abandono, frequentemente observados nos jovens ao longo dos últimos meses…

 Na verdade, muitos jovens parecem estar abandonados há muito tempo, deixados numa solidão que cada vez mais os aprisiona e os empurra para um mundo irreal, não poucas vezes também surreal… E um mundo assim, onde facilmente se confunde a realidade com a ficção e a fantasia, pode tornar-se num mundo que condiciona e restringe as capacidades de auto-controle e de enfrentar e gerir a frustração, a ansiedade e a angústia, presentes na vida de qualquer ser humano, decorrentes das mais variadas situações…

 Nos últimos tempos, as crises de ansiedade e de pânico vivenciadas por muitos jovens, cada vez mais frequentes e visíveis em contexto escolar, talvez sejam a principal manifestação das dificuldades existentes ao nível da capacidade de auto-controle e da capacidade de gerir adequadamente os níveis de frustração, de ansiedade e de angústia…

Cada vez mais, a escola é o reflexo do que se passa no seio de muitas famílias e a forma como as famílias funcionam vê-se, comummente, na escola, através do desempenho e do comportamento dos jovens…

E quando o funcionamento das famílias apresenta disfunções, é frequente constactar-se a existência de pais alheados; pais que não conhecem os próprios filhos; pais que não comunicam com os filhos, nem lhes prestam a devida atenção…

 Também encontramos pais com comportamentos patologicamente invasivos e controladores, incapazes de respeitar a individualidade dos filhos e de lhes proporcionar o espaço necessário para errar ou para cometer alguns “disparates”… Pais focados apenas nos resultados escolares, incapazes de os conseguir contextualizar… Para esses, muitas vezes, as vitórias e as conquistas dos filhos nunca são suficientes e raramente são reconhecidas…

 Uns e outros, apresentam-se como pais que parecem ignorar os medos, as angústias ou as ansiedades dos seus filhos e que dificilmente conseguirão ser contentores ou securizantes, em termos emocionais e afectivos… Quase sempre, ou são pais muito descansados porque é muito mais confortável “não saber” do que intervir ou pais que recorrentemente impõem uma pressão desproporcionada e sistemática, tornando-se, eles próprios, potenciais agentes ansiogénicos…

 Uns e outros, apresentam-se como figuras parentais que, de forma consciente ou inconsciente, não estão disponíveis para apoiar o processo de descoberta e de exploração do mundo exterior por parte dos seus filhos, nem o estabelecimento de relações com esse mundo…

 E o estabelecimento de relações com o mundo exterior impõe a necessidade imperiosa de se fazerem escolhas… Escolhas que, nos casos anteriores, ficam quase sempre entregues aos próprios jovens, muitos deles, ainda sem disporem das aptidões e dos recursos emocionais necessários para triar opções, de modo a conseguir eleger as mais sensatas e mais adequadas…

 O acompanhamento dos jovens, por parte dos pais, nessa descoberta e nesse deslumbre pelo mundo exterior torna-se premente e imprescindível… A responsabilidade por essa orientação e acompanhamento não pode deixar de ser imputada, em primeiro lugar, aos pais, enquanto adultos que, à partida, não podem deixar de ser considerados como competentes para esse efeito e enquanto figuras presumivelmente significativas do ponto de vista afectivo…

Em sentido restrito, o abandono não é físico, o abandono é sobretudo afectivo e emocional, mas apresenta efeitos igualmente perniciosos, e não pode deixar de ser considerado como uma forma negligente de actuação…

Salvo raríssimas excepções, não existem justificações atendíveis para este tipo de enjeitamento por parte dos pais…

A ausência de comunicação, de partilha, de negociação e de vinculação afectiva entre pais e filhos conduz, muitas vezes, os jovens a “refugiarem-se” nas conhecidas Redes Sociais, em que a (falsa) sensação de pertença a um determinado grupo tende a substituir as relações interpessoais em presença… E o resultado mais comum disso é o surgimento de uma certa alienação e de uma prisão dos jovens a um mundo meramente virtual…

 Mas sem presença ou contacto físico é praticamente impossível estabelecer relações interpessoais genuínas e saudáveis, quer se trate de amizade ou de namoro… Fantasiar ou idealizar essas relações não é o mesmo que vivê-las e experienciá-las na vida real…

 As Redes Sociais acabam, assim, por promover o isolamento social e o distanciamento físico, apesar de quererem fazer parecer o contrário… Praticamente tudo o que se passa nessas Redes é efémero e ilusório: num determinado momento, ter aí muitos “amigos” ou muitos “seguidores” significa exactamente o quê?

Em muitos casos, a dependência psicológica dessas Redes indicia também a presença de um comportamento aditivo, evidenciado por jovens à deriva, entregues a um mundo quimérico, à mercê do que o acaso lhes possa proporcionar, “anestesiados” por relações postiças e simuladas…

 E apesar da Escola não poder, nem dever, cair na tentação de substituir-se à família nem àquilo que são as suas principais funções, também é verdade que muitos desses jovens procuram (e encontram) na sua escola, em pessoas da sua escola, algum conforto emocional que de outra forma não obteriam… Muitos desses jovens precisam, desesperadamente, que alguém os oiça, que não os ignorem e que não os menosprezem…

 Por onde andam os pais desses jovens? Por onde andam as Associações de Pais, de quem também se espera um papel formativo junto dos respectivos associados?

 Obviamente que existirão consequências lesivas ao nível da motivação e ao nível da qualidade das aprendizagens escolares realizadas pelos jovens, mas isso parece também não interessar aos “sábios” da Educação, muito mais preocupados com a cooptação de votos eleitorais, por via de alardes acções de propaganda relativas a uma pretensa escola digital e tecnológica que, além do mais, não servirá para resolver nenhum destes problemas, pelo contrário…

 A Escola precisa urgentemente de ser reinventada, mas muitos pais também…

 

(Matilde)

 

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7 comentários

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    • Falar verdade on 17 de Junho de 2021 at 18:21
    • Responder

    Mas, já viram o quanto os pais correm para a direção da escola, para crucificar um professor dizendo as mentiras que as crianças (que se dizem sós e abandonadas) lhe dizem, só porque as “crianças sós, tristes e abandonados” copiaram num teste e o professor chamou a atenção e criticou a atuação dos “meninos”.
    Aos meninos nada acontece e o professor tem um processo disciplinar porque a direção quer ter do seu lado os pais/ ee dos meninos “Tristes, sós e abandonados”.

    • Prof e pensante on 17 de Junho de 2021 at 21:49
    • Responder

    A pandemia está a servir de pretexto para justificar muita coisa viscosa que por aí anda a tentar chegar ao cheque que ontem foi recebido com um “já posso ir ao banco” de mau gosto e a dar razão aos que afirmam que Portugal é para copos e mulheres.
    Nesta pandemia os alunos estiveram na maior. Acordavam tarde e a más horas, faltaram e atrasavam-se nas entradas nas aulas online, não entregaram trabalhos, estiveram nas redes sociais e no fortnite o tempo que quiseram.
    Trauma? Adoraram.
    É novo? Não, vem de trás há muito tempo.
    É bom? Para serem acríticos é excelente!
    Os pais? Há muito que se querem livrar deles.
    É novo? Não, há muito que vem de trás!
    É bom? É excelente para continuar na senda do imediatismo e da superficialidade!

    • Luluzinha! on 18 de Junho de 2021 at 13:25
    • Responder

    Enfim, mais um texto sem originalidade alguma, igual a tantos outros que pululam pelos jornalecos de província!

    • Luxúria Canibal on 18 de Junho de 2021 at 17:17
    • Responder

    À custa destas tretas os especialistas em senso comum (psicólogos) conseguiram que a câmara de Gaia desse centro e trinta e tal mil euros por livrinhos (tipo o vermelho de Mao) para distribuir por alunos do 1. ciclo.
    Resta saber de onde vem e para quem vai tanto dinheiro, porquê aquele livro e que parentescos existem.

    • Sofia on 19 de Junho de 2021 at 8:42
    • Responder

    Texto muito pertinente! Urge fazer-se uma reflexão séria sobre a saúde mental dos nossos jovens e a criação de um plano estratégico nesse sentido.

    • Paulo Pereira on 20 de Junho de 2021 at 0:42
    • Responder

    Pois sim!
    Os meios de comunicação e alguns empreendedores, porventura engajados no Sistema, não se cansam de promover projectos para ser trabalhados nas escolas, alguns deles na área da psicologia, do reforço positivo e outras merd*ces!

    Ou seja, o lugar-comum enraizado nestes empreendedores é focado quase exclusivamente nas escolas, em que cabe ao professor ser o agente que irá promover as suas iniciativas mirabolantes.

    Esquece-se, porém, que os alunos têm pais, e que a Escola não é nem pretende ser um substituto dos encarregados de educação.

    A montante, desconhece-se, ou conhece-se muito pouco sobre a realidade em que vivem as crianças no seu contexto familiar.
    Não se vislumbra qualquer iniciativa para envolver de forma activa os encarregados de educação, na realização e no apoio aos mesmos sem o envolvimento das escolas.
    Por outras palavras, não se vislumbram iniciativas concretas para promover a parentalidade activa sem o envolvimento das escolas. Pelos comportamentos de muitos alunos, poder-se-á dizer que estes praticamente se encontram entregues a si mesmos, nas suas casas paternas.

    Sendo a Família a célula social estruturante de uma Sociedade, estar a atribuir às escolas a responsabilidade e as funções da Família evidencia que algo bastante doentio existe na nossa Sociedade.

    Na utopia socialista após a Revolução Russa, no início do séc. XX, as crianças não estavam em casa dos pais em dias de semana. Estavam em internatos e, só nos dias de descanso se iam juntar com os pais. Ou seja, o casal operário, com filhos, não tinha tarefas acrescidas durante a semana, como cuidar dos rebentos. Essa tarefa era garantida pelo Estado.
    Bem vistas as coisas, este sistema talvez fosse mais lógico que aquele em que nos encontramos, em que a distopia familiar a todos prejudica, precisamente pela ausência e pelo abandono.
    Esta é a versão socialusta que funcionou nos países marxistas.

    Como é possível encontrar pais presentes e competentes quando a sua maioria sobrevive com ordenados baixos, tem de fazer sacrifícios fingindo que somos uma economia de 1.º mundo, e onde não há tempo para um ser humano poder descansar um pouco?

    Os pais ausentes e incompetentes são-no, porventura, por gosto????

    • mario silva on 30 de Junho de 2021 at 0:29
    • Responder

    também muitos profs estão “Tristes, sós e abandonados (sem ironia)”…

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