O que destruiu a classe? – Carlos Santos

É fácil transformarmos este espaço num muro de lamentações, num tiro ao alvo ou num atira culpas aos outros.
-Os governos/tutela, porque sempre viram a Educação como uma despesa e os professores como um inimigo a combater…
-Os sindicatos, porque não nos souberam defender, nem aproveitar a força que os professores lhes deram…
-Os professores que sempre tiveram dificuldades em se unirem…
-A formação demasiado diversificada dos professores que dificulta a construção de uma ideia de classe…
-O trabalho em excesso que nos tem esmagado e não nos dá tempo de reagir…
-Os pais que, em lugar de nos verem como parceiros na educação dos filhos, embarcaram facilmente na batalha campal que os governos montaram contra os professores, vendo-nos como uns preguiçosos privilegiados e a escola mais como um armazém onde podem depositar os seus filhos durante o dia…
-A criação por parte da tutela de favorecimentos a uns e penalizações para outros, cirurgicamente aplicados no ensino, para criar a desunião e a discórdia, desde medidas avulsas sectoriais, até cotas, avaliações, regras e prioridades nos concursos… (isco que os professores, estupidamente, morderam)…
Porém, a fria realidade que todos evitamos encarar é que, cada vez mais, somos incapazes de nos colocarmos na pele do outro e transformámo-nos num mar de umbigos. Bem diferente do que acontece noutras classes profissionais, a incapacidade de nos vermos como uma classe una, tornou-nos terreno fértil para todo o género de ataques que acabámos por sofrer.
É desanimador vermos os colegas que não se tratam como iguais por serem de disciplinas diferentes, formação académica dissemelhante ou de níveis de ensino distintos. Outros chegaram às direções das escolas e, repentinamente, esqueceram-se que eram professores, tratando os colegas com desrespeito. Muitos falavam mal da classe em público ou apregoavam aos sete ventos que iam de férias nas interrupções letivas e que tinham bons horários com dias e manhãs/tardes livres. Outros ainda, embarcaram na diferenciação que se tentou fazer em 2008 dentro da classe distinguindo professores e, mesmo logrado esse intento, não se importam nada de avaliar e humilhar colegas.
Levando em consideração o fato de que ninguém é perfeito, parece-me que, nos sindicatos, nas escolas, na rua, em conversas ou ações, cometeram-se erros e fomos responsáveis pelo que tem acontecido aos nossos colegas de profissão, a nós próprios e à educação. Enquanto estávamos distraídos a lançar farpas uns contra os outros ou a ignorar colegas “caídos em combate”, o lobo entrou no galinheiro e fez de nós o que quis. Os pais e alunos, também aproveitaram a nossa fraqueza coletiva e não nos respeitam, insultam, ameaçam e agridem.
De certo modo, todos, em algum momento, acabámos por virar a cara para o lado quando o mal era dos outros, até ao dia em que o mal nos caiu em cima e os outros nos fizeram o mesmo. Este foi o nosso pior erro e o preço alto estamos agora a pagar numa carreira cada vez mais longa, mais desgastante, menos estável, mais mal paga, com menos direitos, menos reconhecida e valorizada e menos atrativa. Este é o resultado de demasiados erros cometidos.
É possível que haja quem ache que isto é prosa para encher chouriços ou uma visão caricata da realidade, mas não é preciso ir muito longe para repararmos que, se calhar, haverá algo de verdade em tudo isto. Basta reparar no modo como muitos dos colegas se tratam neste espaço, para compreender que algo não vai bem numa classe que tem enorme dificuldade em assumir a educação mínima que se impõe e o respeito pela opinião dos outros, por muito diferente que seja da nossa.
Certamente que o declínio dos padrões educacionais chegou também à nossa classe. Urge modificar o modo como olhamos para os outros colegas de profissão como sendo a única forma de conseguirmos transformar este monte de cinzas (em que os sucessivos governos nos transformaram) numa classe.
Seguramente que muito mais haveria para dizer sobre a nossa responsabilidade em tudo aquilo que nos tem acontecido de mal.
Todavia, aprender com os erros e pôr a mão na consciência começava por ser um bom começo…
Carlos Santos

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17 comentários

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    • Berts on 24 de Junho de 2021 at 14:26
    • Responder

    Parabéns pela reflexão. Subscrevo. Sempre senti que os professores são os únicos responsáveis.

    • Luluzinha! on 24 de Junho de 2021 at 16:06
    • Responder

    “Fato”? Qual fato? Já não bastava a praga de “contatos”, agora ainda vem este com o “fato”. Enfim…

    • pequeninha on 24 de Junho de 2021 at 16:53
    • Responder

    Oh luluzinha,és mesmo zinha.

  1. Concordo com tudo o que o Carlos escreveu. Não somos os únicos responsáveis. Quem está bem acima de nós em poder de decisão é que é responsável. Nós só não nos soubemos/sabemos defender como classe profissional!

    • professor karamba on 24 de Junho de 2021 at 17:47
    • Responder

    ……………
    ……………………………….

    Não existe uma classe docente, mas sim vários corpos profissionais.

    Com a dita “Carreira Unica” o que temos é uma AMALGAMA de gente.

    Uma coisa são aquilo que normalmente são designados por Monodocentes: – as Bábás e/ou Amas (agora educadoras das infancias), os professores primários (ex-regentes escolares) agora professores do primeiro ciclo (é um nome mais ponposo)……formados por ESEs., Tascas privadas com cursecos de 3 aninhos e uns trabalhos da tanga…..

    outra coisa, são os Professores do Ensino Secundário (docentes do 7º ao 12º anos)

    outra coisa ainda, são os Professores do Politecnico…..

    e outra ainda são os Professores Universitários

    CADA MACACO NO SEU GALHO
    .

      • Manuel on 24 de Junho de 2021 at 20:44
      • Responder

      Sou professor do 1ºciclo.
      Sou formado por uma ESE.
      O meu curso foi de 4 anos.
      Durante o tempo de curso trabalhei durante todos os anos sem conseguir tirar um dia sequer na época do Natal ou outra quadra de “férias” com trabalhos que tive de desenvolver.
      Pode ter alguns exemplos, que não refletem de modo nenhum todos os professores do 1ºciclo – nunca diga todos.
      Tenho pena que apenas mostre que o autor do artigo tem razão.
      Eu pessoalmente penso que existem mais causas do que as descritas. Penso que continua por fazer uma reflexão sobre o que é a escola e o que ela devia ser. Penso que até se deveria fazer uma reflexão sobre se os espaços escolares, no mundo em que nos estamos a transformar, deveriam continuar como o são neste momento – o espaço de sala de aula tradicional pouco mudou desde o séc. XIX. . . .

    • Sardão on 24 de Junho de 2021 at 19:14
    • Responder

    Assim mesmo, Seu Karamba Pintelko, cada macaco no seu ganho! E tu no teu habitual galho da macacada sardoária a que já te habituaste. Depois, sempre contente, vem aqui mandar as postas de pescada habituais, sempre, sempre, depois disso, eis as macacadas.

    • Leão de Estrela on 24 de Junho de 2021 at 22:18
    • Responder

    Artigo de opinião, simplesmente, arrebator e factual!

    • Leão da Estrela on 24 de Junho de 2021 at 22:25
    • Responder

    Errata
    Onde se lê “arrebator”, leia-se, “arrebatador”!
    As minhas escusas, pelo incómodo causado!
    Acontece!

    • Jorge on 24 de Junho de 2021 at 23:05
    • Responder

    Concordo com o que Carlos Santos afirma, quase de fio a pavio. No entanto, não posso subscrever que tenha sido tudo por culpa dos professores que, em muitos casos, não têm nem tempo nem vontade de refletir sobre o que quer que seja… Os decisores políticos, do que chamam arco da governação, há muito que cavalgam a narrativa do professor que recebe um ordenado muito alto e trabalha muito pouco, o que foi colhendo adeptos por todo o lado… Mal comparando, já que só o futebol parece interessar os nossos decisores e o nosso povo, é como se os docentes fossem uma equipa de futebol que perde sempre e que nunca se aplica, quer nos treinos quer nos jogos oficiais, merecendo tudo o que acontecer… Criaram também junto da população a ideia de que toda a gente sabe de educação, exceto os professores… Inclusivamente os representantes dos EE devem ser ouvidos em todos os assuntos e ser recebidos pelas altas autoridades da educação, todavia os professores nem por isso…
    Entretanto os anos passaram e recordo que no ano 2000, no fim do mês, recebia mais euros do que recebo agora, 21 anos depois. Pena que apenas me tenham aumentado o horário, as turmas que leciono, as responsabilidades… Se tivesse vinte e poucos anos fugia desta profissão a sete pés…
    A narrativa colou-se-nos… temos de conseguir sacudi-la… mas não é com o cheque do PRR que lá vamos… Agora a nova estória passa pelos computadores, estes hão-de resolver todos os problemas da educação… Pelo menos as empresas que vendem computadores e que facultam programas informáticos estão a agradecerr a modernidade das nossas escolas e as vistas curtissimas da nosssa educação. Enfim… já não há pachorra…

    • Armando Amaral on 25 de Junho de 2021 at 1:48
    • Responder

    Fato é escrito com c facto.

    • Leão de Estrela on 25 de Junho de 2021 at 7:12
    • Responder

    Ainda me recordo do tempo em que os professores eram imprescindíveis para a classe política e respeitados pela sociedade!
    Lembram-se?

    • P.daSilva on 25 de Junho de 2021 at 9:40
    • Responder

    Parabéns! O retrato limpo de tudo daquilo em que os professores se tornaram. Basta trabalhar numa qualquer escola para sentir, ver e olhar tudo o que foi descrito. Vê-se muita arrogância e pouca humildade, pouco trabalho colaborativo e muito individualismo.
    A experiência tem-me dito que os piores professores, os mais medíocres pedagogos, os mais “umbiguistas” têm sido, em parte, aqueles que mais procuram os lugares de chefia . Gostam de mandar nos colegas e pouco de ensinar aos alunos. Exactamente pela frustração pessoal e profissional – muitos são professores mas nunca o quiseram ser – e alguns por manifesta insensibilidade pedagógica para lidar com crianças e jovens e outros por falta de “jeito”, nas escolas os maus professores, por norma, dão sempre maus líderes.
    Se a escola pública está um caos e em decadência pedagógica, a culpa não é toda dos maus governos ou deste em especial, também é dos professores, da sua falta de união e de, muitas vezes, também não se respeitarem entre si.
    Começar por assumir as nossas responsabilidades já é um caminho para iniciar a mudança que todos desejamos!

  2. Considero que o diagnóstico da coisa está feito, mas temos que mudar o discurso. Já sabemos as razões de sermos maledicentes, desunidos, pouco empáticos, etc… MAS, QUAL A SOLUÇÂO QUE PROPÔE?
    A mentalidade portuguesa, de se queixar, de apontar o dedo, de se lastimar, sem apresentar soluções tem que mudar. Estamos no século XXI e os adolescentes e jovens exigem dos professores outra postura… há assuntos novos, há novas preocupações… Que soluções propõem? Que estratégias sugere, para sermos mais unidos e menos individualistas? Mais bem formados?

      • Ernestina Martim on 25 de Junho de 2021 at 11:32
      • Responder

      De facto – goste ou não – é a realidade! A escola é o que o colega descreve. Para mim, é um problema de formação. De formação de base e de formação contínua.
      Há muita gente que notoriamente precisa dela, pelo que diz, como se comporta perante os outros, pelo que faz e sobretudo pelo que não faz. A crítica aqui é inevitável. E só há uma solução: mais formação geral (de ética e deontologia) – notem o nivel dos comentários que aqui se fazem, a linguagem de ódio e o sistemático tom jocoso – e específica (avaliação, prática pedagógica, tecnologias, etc). Não é possível mudar o estado de coisas sem mais formação verdadeira e com resultados. A formação de um Professor deve ser ao longo da vida. Mas insisto na urgência de formação em ética e a criação de um código deontológico específico.
      O diagnóstico na realidade está feito há muito tempo, interessa arrepiar caminho e apontar soluções. Mas o mais certo é vir por aí um chorrilho de insultos e outras coisas…

      • P.daSilva on 25 de Junho de 2021 at 23:46
      • Responder

      Começar pelo RESPEITO já seria um bom princípio, não lhe parece?
      Nas escolas todos são professores, mas encontro sempre uns que se consideram de primeira e tratam os outros como se fossem de segunda, e não são. Poderia começar por falar na atribuição de horários e turmas . Os mais velhos, os do quadro de escola que se deixem de egoísmos e aprendam a partilhar os bons horários e as melhores turmas para os contratados, por exemplo. Este também já seria um bom princípio. Para não falarmos apenas da suja avaliação….

    • Ernestina Martim on 25 de Junho de 2021 at 11:21
    • Responder

    De facto – goste ou não – é a realidade! A escola é o que o colega descreve. Para mim, é um problema de formação. De formação de base e de formação contínua.
    Há muita gente que notoriamente precisa dela, pelo que diz, como se comporta perante os outros, pelo que faz e sobretudo pelo que não faz. A crítica aqui é inevitável. E só há uma solução: mais formação geral (de ética e deontologia) – notem o nivel dos comentários que aqui se fazem, a linguagem de ódio e o sistemático tom jocoso, a atenção que mostram no “erro” do colega, na gralha, sem deixarem qualquer contributo – e específica (avaliação, prática pedagógica, tecnologias, etc). Não é possível mudar o estado de coisas sem mais formação verdadeira e com resultados. A formação de um Professor deve ser ao longo da vida. Mas insisto na urgência de formação em ética e a criação de um código deontológico específico.
    O diagnóstico na realidade está feito há muito tempo, interessa arrepiar caminho e apontar soluções. Mas o mais certo é vir por aí um chorrilho de insultos e outras coisas…

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