O Governo apresentou com alguma pompa o muito anunciado Plano de Recuperação das Aprendizagens, que ficará justamente conhecido apenas como “Plano 21
23 Escola+”, porque a questão da “recuperação das aprendizagens” não passa de um pretexto para justificar um empurrão financeiro às medidas em implementação desde o final de 2015.
Tudo se apresenta com a legitimação das consequências da pandemia, mas nada de novo está em causa. O discurso é praticamente o mesmo ao longo desta meia dúzia de anos e só alguém muito distraído poderá acreditar que é por aqui que passa alguma reforma da Educação que vá além da tentativa de dar novo ímpeto a medidas que se viu serem incapazes de funcionar em tempos de emergência.
Claro que o que foi atirado para os títulos da comunicação foram os números: 900 milhões de euros e mais 3300 professores nas escolas, sem contextualizar nada para parecer que é muita coisa. E houve quem fosse a correr dizer e escrever que é muito dinheiro para a Educação e que o “Estado” vai engordar com tanta contratação de novos professores. Até porque atrás daqueles números vieram outros de auto-elogio: 9000 professores vinculados nos últimos cinco anos, mais de 4000 assistentes operacionais e outro pessoal técnico e/ou especializado contratado. E mais 8000 a caminho.
O que fica por explicar e poucos parecem interessados em desmontar?
Em segundo lugar há que ter em conta que desde 2015 se aposentaram mais de 6000 professores e que se prevê um número a rondar os 8500 para os anos de 2021 a 2023. O que significa que as escolas, em menos de uma década, perderão quase 15.000 docentes. Se foram vinculados 9000 e se pensam vincular mais 2400 e contratar 3300 é fazer as contas, como dizia outro primeiro-ministro. Quem tiver uma calculadora por perto, perceberá que o saldo não é positivo.
Para além disso, os tais 3300 professores de que se fala, se forem mesmo contratados, terão um encargo de cerca de 65 milhões de euros por ano (salários brutos, pré-colecta fiscal). O que significa uma enorme poupança real, mesmo se nada nos garante que estes “novos” professores não irão ocupar vagas que já existem e têm sido ocupadas em substituições precárias.
Por fim, há que esclarecer que a retórica usada é a de sempre. Parágrafos como “o conjunto de medidas do Plano 21
23 Escola+ tem por base as políticas educativas com eficácia demonstrada ao nível do reforço da autonomia das escolas e das estratégias educativas diferenciadas dirigidas à promoção do sucesso escolar e, sobretudo, ao combate às desigualdades”, nada trazem de novo e apenas repetem fórmulas gastas.
Poderia transcrever a parte nuclear dos “três eixos de atuação, que agregam diferentes domínios de atuação, desenvolvendo-se em ações específicas” e dizer que era um documento de Junho de 2016 e ninguém se espantaria. Medidas como o “Incremento da gestão flexível de turmas; Produção de instrumentos práticos com sugestões de funcionamento das turmas, garantindo a sua heterogeneidade inerente” são um acumular de chavões do neo-eduquês em que vivemos.
É pena que a detecção de vacuidades não pareça ser estimulante para alguma comunicação social presa à exibição de números e reagindo de forma pavloviana e pouco crítica sempre que se apresentam promessas de milhões. Mais valia que explicassem à opinião pública o que significam passagens como “Recuperar com Artes e Humanidades – Desenvolvimento de um repertório de iniciativas, sob coordenação do Plano Nacional das Artes, integrando recursos específicos para recuperação e integração curricular” ou “Recuperar Incluindo – Plano integrado de formação para as escolas, com vista a apoiar a ação e construção de instrumentos de atuação na escola inclusiva”.




11 comentários
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Grande texto! Parabéns ao autor.
E então o ultimo parágrafo coloca tudo bem desmascarado.
E o famoso Atento, o verdadeiro Pensador, o Pintelko, sempre o mesmo, não vem postar sobre o assunto?
Ainda não acabou o habitual avianço do sábado? Hoje, deve estar a ser à fartazana, tal é a demora do bicho!
Em relação ao neo-eduquês, só é novo para quem anda desatento, pois o Projeto Curricular de Turma já existe há mais de 20 anos e só não passa de um mero dossier para a maioria dos colegas, porque há muitos Guinots que abundam por aí e que não sabem ou não querem contribuir para a interdisciplinaridade e para a transversalidade..
Quanto ao futuro….
Só espero que passem de 10 escalões para 3.
Ando nisto há mais de vinte anos e nem à carreira pertenço .
E olhem que levo muita limalha e rebarba para casa todos os dias, acreditem!
Não sabes o que dizes relativamente à interdisciplinariedade e ao Guinote. E o PCT é a chave do sucesso e da interdisciplinariedade?
Cueirito da ESE, ou do Piaget?
Isso é uma ironia, certo?
Pois eu só digo é que precisavamos de um ministro de educação educado e que saiba mesmo de educação.
O Guinote seria excelente, mas muito honesto para se sujar na politiquice portuguesa.
Ainda existem tontitos que acreditam que os ministros é que mandam nisto!!! Santa ingenuidade!!!
Mas ajuda, ou não?
O que não ajuda é ter mirtos à espera da reforma para levar para a sua terra e viver na latina América como rei à custa de um país tão pobrinho como este! O melhor era ficar cá a poluir o ar mais um pouquinho e abrir uma cooperativa com a choruda retret.
Há muitos que vêm até cá espreitar as benesses e as fragilidades do sistema para se aproveitarem delas ao máximo desdenhando e subtraindo aqueles que lhe dão a sopa. Depois de feita a rapina dão de frosques. Podias ter escolhido a Suécia!
´Tenho a certeza que este comentário não vem de um stõr… como se pode ter este comentário de tão baixíssimo nível??? Quando as ideias falham, parte-se para o ataque pessoal… Um professor nunca faria este comentário/ataque!!! Shame on you!!!
Como sempre, o nosdo Paulo Guinote que muito prezo, tem sempre muita razão e que tao bem a representa nesta sua “pequena” observacao. Teria muito mais que dizer….com toda a certeza!
Até tenho vergonha de ser portuguesa!
Somos muito pobres de espirito e ricos em estupidez!.
Muito obrigada Paulo por verbalizares e escreveres o que muitos de nós pensamos…
Obrigada Paulo Guinote.
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