O Plano de Negócios para a Educação – Paulo Guinote

O Governo apresentou com alguma pompa o muito anunciado Plano de Recuperação das Aprendizagens, que ficará justamente conhecido apenas como “Plano 21

23 Escola+”, porque a questão da “recuperação das aprendizagens” não passa de um pretexto para justificar um empurrão financeiro às medidas em implementação desde o final de 2015.

Tudo se apresenta com a legitimação das consequências da pandemia, mas nada de novo está em causa. O discurso é praticamente o mesmo ao longo desta meia dúzia de anos e só alguém muito distraído poderá acreditar que é por aqui que passa alguma reforma da Educação que vá além da tentativa de dar novo ímpeto a medidas que se viu serem incapazes de funcionar em tempos de emergência.

Claro que o que foi atirado para os títulos da comunicação foram os números: 900 milhões de euros e mais 3300 professores nas escolas, sem contextualizar nada para parecer que é muita coisa. E houve quem fosse a correr dizer e escrever que é muito dinheiro para a Educação e que o “Estado” vai engordar com tanta contratação de novos professores. Até porque atrás daqueles números vieram outros de auto-elogio: 9000 professores vinculados nos últimos cinco anos, mais de 4000 assistentes operacionais e outro pessoal técnico e/ou especializado contratado. E mais 8000 a caminho.

O que fica por explicar e poucos parecem interessados em desmontar?

Em segundo lugar há que ter em conta que desde 2015 se aposentaram mais de 6000 professores e que se prevê um número a rondar os 8500 para os anos de 2021 a 2023. O que significa que as escolas, em menos de uma década, perderão quase 15.000 docentes. Se foram vinculados 9000 e se pensam vincular mais 2400 e contratar 3300 é fazer as contas, como dizia outro primeiro-ministro. Quem tiver uma calculadora por perto, perceberá que o saldo não é positivo.

Para além disso, os tais 3300 professores de que se fala, se forem mesmo contratados, terão um encargo de cerca de 65 milhões de euros por ano (salários brutos, pré-colecta fiscal). O que significa uma enorme poupança real, mesmo se nada nos garante que estes “novos” professores não irão ocupar vagas que já existem e têm sido ocupadas em substituições precárias.

Por fim, há que esclarecer que a retórica usada é a de sempre. Parágrafos como “o conjunto de medidas do Plano 21

23 Escola+ tem por base as políticas educativas com eficácia demonstrada ao nível do reforço da autonomia das escolas e das estratégias educativas diferenciadas dirigidas à promoção do sucesso escolar e, sobretudo, ao combate às desigualdades”, nada trazem de novo e apenas repetem fórmulas gastas.

Poderia transcrever a parte nuclear dos “três eixos de atuação, que agregam diferentes domínios de atuação, desenvolvendo-se em ações específicas” e dizer que era um documento de Junho de 2016 e ninguém se espantaria. Medidas como o “Incremento da gestão flexível de turmas; Produção de instrumentos práticos com sugestões de funcionamento das turmas, garantindo a sua heterogeneidade inerente” são um acumular de chavões do neo-eduquês em que vivemos.

É pena que a detecção de vacuidades não pareça ser estimulante para alguma comunicação social presa à exibição de números e reagindo de forma pavloviana e pouco crítica sempre que se apresentam promessas de milhões. Mais valia que explicassem à opinião pública o que significam passagens como “Recuperar com Artes e Humanidades – Desenvolvimento de um repertório de iniciativas, sob coordenação do Plano Nacional das Artes, integrando recursos específicos para recuperação e integração curricular” ou “Recuperar Incluindo – Plano integrado de formação para as escolas, com vista a apoiar a ação e construção de instrumentos de atuação na escola inclusiva”.

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11 comentários

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    • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 5 de Junho de 2021 at 14:03
    • Responder

    Grande texto! Parabéns ao autor.
    E então o ultimo parágrafo coloca tudo bem desmascarado.
    E o famoso Atento, o verdadeiro Pensador, o Pintelko, sempre o mesmo, não vem postar sobre o assunto?
    Ainda não acabou o habitual avianço do sábado? Hoje, deve estar a ser à fartazana, tal é a demora do bicho!

    1. Em relação ao neo-eduquês, só é novo para quem anda desatento, pois o Projeto Curricular de Turma já existe há mais de 20 anos e só não passa de um mero dossier para a maioria dos colegas, porque há muitos Guinots que abundam por aí e que não sabem ou não querem contribuir para a interdisciplinaridade e para a transversalidade..
      Quanto ao futuro….
      Só espero que passem de 10 escalões para 3.
      Ando nisto há mais de vinte anos e nem à carreira pertenço .
      E olhem que levo muita limalha e rebarba para casa todos os dias, acreditem!

        • Sem Gás Sarin on 6 de Junho de 2021 at 7:09
        • Responder

        Não sabes o que dizes relativamente à interdisciplinariedade e ao Guinote. E o PCT é a chave do sucesso e da interdisciplinariedade?
        Cueirito da ESE, ou do Piaget?

        • Francesc Ferrer Y Guárdia Um Bocadinho Manco on 6 de Junho de 2021 at 10:39
        • Responder

        Isso é uma ironia, certo?

    • E o Míope é ele? on 5 de Junho de 2021 at 16:18
    • Responder

    Pois eu só digo é que precisavamos de um ministro de educação educado e que saiba mesmo de educação.
    O Guinote seria excelente, mas muito honesto para se sujar na politiquice portuguesa.

    • Mirtha on 5 de Junho de 2021 at 17:58
    • Responder

    Ainda existem tontitos que acreditam que os ministros é que mandam nisto!!! Santa ingenuidade!!!

    • Pralistão on 5 de Junho de 2021 at 21:09
    • Responder

    Mas ajuda, ou não?
    O que não ajuda é ter mirtos à espera da reforma para levar para a sua terra e viver na latina América como rei à custa de um país tão pobrinho como este! O melhor era ficar cá a poluir o ar mais um pouquinho e abrir uma cooperativa com a choruda retret.
    Há muitos que vêm até cá espreitar as benesses e as fragilidades do sistema para se aproveitarem delas ao máximo desdenhando e subtraindo aqueles que lhe dão a sopa. Depois de feita a rapina dão de frosques. Podias ter escolhido a Suécia!

      • Mirtha on 6 de Junho de 2021 at 9:13
      • Responder

      ´Tenho a certeza que este comentário não vem de um stõr… como se pode ter este comentário de tão baixíssimo nível??? Quando as ideias falham, parte-se para o ataque pessoal… Um professor nunca faria este comentário/ataque!!! Shame on you!!!

    • Maria on 5 de Junho de 2021 at 23:17
    • Responder

    Como sempre, o nosdo Paulo Guinote que muito prezo, tem sempre muita razão e que tao bem a representa nesta sua “pequena” observacao. Teria muito mais que dizer….com toda a certeza!
    Até tenho vergonha de ser portuguesa!
    Somos muito pobres de espirito e ricos em estupidez!.
    Muito obrigada Paulo por verbalizares e escreveres o que muitos de nós pensamos…

  1. Obrigada Paulo Guinote.

    • Bobby Therson on 29 de Julho de 2025 at 14:40
    • Responder

    Para minha empresa e meu plano de negócios, utilizo o software de gerenciamento de crises deste site – https://www.flowlu.com/pt/blog/crm/crm-examples/ . Aqui, pude aprender muitas informações úteis sobre como usar o gerenciamento de crises para fins comerciais, a fim de melhorar os negócios. Esse serviço realmente me ajudou a entender como funciona o gerenciamento de crises.

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