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A falta de professores pode colocar em crise o atual sistema educativo

Os alertas vêm de vários lados. Dos 89 925 professores que a 1 de setembro de 2019 tinham 45 anos ou mais, 51 983, que representam 57,8%, podem aposentar-se num prazo de 11 anos, ou seja, até 2030. A previsão anual de aposentações indica um crescimento progressivo de aposentações até 2028: 17 830 nos primeiros cinco anos, 24 343 nos cinco anos seguintes, 9810 entre 2029 e 2030. Estes números estão no relatório “Regime de seleção e recrutamento do pessoal docente da Educação Pré-Escolar e Ensinos Básico e Secundário” do Conselho Nacional de Educação (CNE). E dão que pensar.

A previsão anual de aposentações por grupo de recrutamento evidencia a possibilidade de a maioria perder mais de 50% dos docentes no prazo de 11 anos. O impacto não é igual em todas as áreas. Estima-se que os grupos de recrutamento mais afetados até 2030 sejam a Educação Pré-Escolar (73%), Português e Estudos Sociais/História (80%), Português e Francês (67%), Matemática e Ciências Naturais (62%). No 3.º Ciclo e Ensino Secundário, destacam-se os de Educação Tecnológica (96%), Economia e Contabilidade (86%), Filosofia (71%), História (68%) e Geografia (66%). Como será o futuro?

Há cerca de 10 anos, falava-se no excedente de professores. Agora comenta-se precisamente o inverso. Segundo cálculos da Federação Nacional dos Professores (FENPROF), entre 12 a 15 mil professores abandonaram a profissão na última década. A situação é complexa, mais do que parece à primeira vista. Para José Eduardo Lemos, presidente do Conselho das Escolas (CE), a falta de professores é um assunto que deve preocupar a sociedade e o Ministério da Educação. “Trata-se, penso eu, do maior problema a enfrentar pelas escolas no curto e médio prazo. Sem bons professores, não há boa educação, sem professores menos ainda”, refere ao EDUCARE.PT. E vai mais longe. “A falta de professores pode colocar em crise o atual sistema educativo”.

A falta de professores é um problema estrutural que exige políticas de fundo, segundo o presidente do CE que fala em medidas em torno de dois eixos, ou seja, do envelhecimento do corpo docente e da escassez de professores. “Por um lado, são necessárias políticas que reforcem a segurança dos professores no exercício da profissão, que valorizem social e economicamente a carreira docente, de forma a que os professores se mantenham ativos e empenhados até à aposentação, mesmo que tal implique maior exigência profissional e maior responsabilidade individual no exercício da profissão”.

Por outro lado, defende, “são necessárias políticas de fundo que tornem a carreira docente mais atrativa aos jovens, como por exemplo melhores remunerações no início da carreira e melhores condições materiais para o exercício da profissão (alojamento, apoios nas deslocações, maior segurança no exercício profissional), mesmo que tal implique, necessariamente, maior exigência para se aceder à profissão”.

Se nada for feito, a Educação, um dos maiores pilares do desenvolvimento de um país, vai sofrer. “A Educação ficará sempre comprometida se os professores não forem devidamente qualificados e não poderemos falar de Educação se, pura e simplesmente, não houver professores para todos os alunos em todo o território nacional”, sublinha José Eduardo Lemos.

A qualidade da preparação, a formação em exercício

O cenário é complexo. Neste momento, grande parte do corpo docente tem 50 ou mais anos, apenas 1,1% dos professores têm menos de 35. Além disso, os mestrados em ensino, que formam docentes para lecionarem no 3.º Ciclo e Ensino Secundário, têm cada vez menos candidatos, e há até cursos que fecharam por falta de alunos. Há, portanto, problemas na oferta e procura de professores.

A escassez de professores e o envelhecimento da população docente são dois dos maiores desafios do sistema de ensino. A falta de professores em algumas disciplinas tem sido, aliás, mencionada como um dos problemas mais comuns em mais de metade dos sistemas educativos europeus. O CNE tem estado atento a essas questões e tem lançado vários alertas. “A falta/escassez, assim como o excedente de professores, torna evidente uma distribuição desigual de docentes entre disciplinas e áreas geográficas, colocando-se a questão da utilização eficaz dos recursos”, refere no relatório.

Nuno Crato, ex-ministro da Educação, numa conferência online promovida pela Federação Nacional da Educação (FNE), abordou o assunto. “A formação de professores é o problema mais grave na primeira metade do século XXI, metade dos professores no ativo vai reformar-se no final desta década, se não se reformarem antes”, referiu. “E será que os professores que vêm aí terão a mesma preparação?”, questionou. É uma incógnita. Garantir a qualidade da formação dos professores, não desvalorizar a formação em exercício, tornar a profissão atrativa, são questões essenciais que não podem ser descuradas, segundo o ex-ministro.

“Distribuição desequilibrada e assimétrica”

“Aqui já temos a casa a arder, nos Açores, há muito tempo”. A constatação é de Ricardo Baptista, presidente do Sindicato Democrático dos Professores dos Açores, durante uma das conferências online da FNE. No Continente, afirma, a falta de professores começa a ser notada e falada, nos Açores, garante, já é um “problema enorme”. E porquê? “Porque temos uma carreira que não é valorizada, temos uma carreira que não é atrativa e, nos Açores, com a condicionante de que se queremos atrair um professor para a região temos, se calhar, de o fazer de uma forma mais atrativa do que ficar no Continente”.

O dirigente sindical concorda que a profissionalização dos professores deve ser feita em contexto de escola. Mas a falta de professores é um problema mais abrangente. “Temos aqui os dois lados da moeda. Aquilo que observamos, neste momento, é que, além de não existirem candidatos à profissão, os candidatos que escolhem a profissão são os que têm uma média inferior. Ou seja, não estamos a escolher os melhores para professores, o que é preocupante para uma visão de futuro”. Não se consegue atrair ninguém para a carreira sem se valorizar a profissão a todos os níveis, em termos salariais também.

Ricardo Baptista prevê que a escassez de docentes se venha a notar ainda mais depois da pandemia. Por isso, é preciso intervir o quanto antes com medidas pensadas e sustentadas. “Não vai haver uma fórmula mágica, mas aquilo que sentimos, e o que vai acontecer, é que os professores que estão nas escolas vão ser sobrecarregados para que os alunos não fiquem sem aulas”.

O futuro da Educação tem de ser pensado no presente e há várias questões para tratar. O CNE encaixa os vários desafios em três grupos. “Em primeiro lugar, os que se referem à escassez e, em contraponto, à oferta excedentária de professores, já que ambos são resultado de uma distribuição desequilibrada e assimétrica; em segundo lugar, o envelhecimento da população docente e a retenção de professores na profissão; e, por último, o défice de matrículas na formação inicial de professores e a permanência dos estudantes em cursos de formação de professores”.

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9 comentários

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  1. Gostava de perceber como, neste contexto, se fala em reformas antecipadas…

      • Pinto on 7 de Abril de 2021 at 13:44
      • Responder

      Porque contra factos não há argumentos: estão exauridos, a cair de podres de tanto que os transformaram em bonecos de vodoo.
      Tanta tortura e maldade que fizeram e continuam a fazer aos professores leva à ruptura total do corpo e da alma. O que não mata mói! Papéis a mais, turmas extensas, pressões de pais, diretores, munícipes, comunicação social, avaliações, chantagens, reuniões, excesso de legislação, indisciplina, miséria social, congelamento de carreiras, salários fracos, deslocações, instabilidade, experiências pedagógicas sistemáticas… Quem andou, já não tem para andar.

    1. Espero que daqui a 11 anos já só haja três escalões. Os 10 que existem, metem-me nojo!

    • Pintelho on 7 de Abril de 2021 at 16:20
    • Responder

    Atualmente, qualquer Bicho-Careta é um “Sitôr da Treta”, ou seja, um “Tangas” (eu traduzo, significa um intreteiner para intreter/enrolar meninos).

    Eu adoro ver a Kalidade dos Sitôres e as Sitôras das “Cidadanias”, das “Educações Sexuais”, das “Educações Ambientais”, das “Assembleias”, dos “Desportos Escolares/pega lá uma bola para dares uns toques”….enfim, de todas as Tangas para produzir gerações de Ignorantes, Analfabetos, Indigentes, Sem-abrigo….É este o grande designio daquilo a que chamam de “Escola Pública”.

    Nesta postagem afirma-se que faltam Sitôres e Sitôras da Treta, mas a Verdade é que existem em EXCESSO. Para os níveis de Exigência (que é NULO) dos referidos espaços designados de “Escola Pública” servem muito bem adultos com formação ao nível do atual 11º e 12º anos.
    Não são necessários Licenciados, Mestrados e Doutoramentos á Bolonhesa em EDUQUÊS (diga-se que alguns nada mais sabem que aqueles que possuem 11º e 12º anos de escolaridade).

    Hoje aquilo a que chamam “ESCOLA” não passa de um enorme “ARMAZEM” onde os progenitores colocam os seus rebentos para poderem desenvolver as suas atividades ludicas, profissionais ou outras…….

    Hoje aquilo a que chamam “ESCOLA” não passa de uma enorme “CANTINA SOCIAL” onde se dá de comer aos FAMINTOS desta vida (Filhos de Desempregados; Filhos daqueles que vivem do Rendimento Social de Insersão (RSI); Filhos de Prostitutas; Filhos de Delinquentes; Filhos de Presidiários; Filhos daqueles que auferem o Salario Minimo Nacional no valor de 635 Euros e que levam para casa á volta de 500 euros…….

    Hoje aquilo a que chamam “ESCOLA” não passa de uma enorme INTRETEM onde os designados professores dão umas TRETAS de que são exemplo as “cidadanias”, “educação ambiental”, “educação sexual”, “desporto escolar/toma lá uma bola para dares uns chutos”………..

    Hoje aquilo a que chamam “ESCOLA PUBLICA” não passa de uma enorme FRAUDE onde os pobres são acolhidos…..Sim!….porque os filhos da classe média e alta são colocados em Escolas de Bandeira e em Colegios Privados onde possuem uma boa preparação para a Vida Futura.

    Ao que a ESCOLA PUBLICA chegou!…….Não!….isto não merece ser chamado de “ESCOLA”…………A ESCOLA é um local de ENSINO-APRENDIZAGEM e não um HOSPICIO para os Desgraçados da Vida.

    VERGONHA!……..NOJO!……………….

    É isto o trabalho do Partido Socialista e do seu Grande Lider António Bosta.

    Sinto Tristeza, Nojo e Repulsa por grande parte do professorado não ter discernimento para enchergar o que se passou no Ensino e, em particular, na ESCOLA PUBLICA, a qual foi transformada num CENTRO ASSISTENCIAL.

      • Ricardo Soares on 7 de Abril de 2021 at 21:24
      • Responder

      Caro Pintelho
      Á semelhança do que referiu Eduardo Catroga relativamente aos jornalistas eu também acho que, talvez devido á sua formação e Espírito Missão, os docentes só discutem PINTELHOS. Os Conselhos Pedagógicos são disso exemplo.
      A escola pública degradou-se, assumindo hoje um papel assistencial que, num outro contexto político, não teria cabimento. Perfeitamente de acordo com a sua perspetiva.
      Mas! Caro colega, pintelho, no atual contexto não existem grandes opções. A miséria endémica de um dos países mais pobres da europa ocidental obriga a ter uma rede assistencial em que as escolas são um dos pilares fundamentais de um estado social em decomposição. Estancar ou minimizar as situações de miséria é um imperativo civilizacional.
      Novos tempos virão em que o estado social de que, a escola publica, é um dos exemplos, sofrerá uma reformulação profunda porque o atual modelo é insustentável. Esse tempo avizinha-se a curto prazo – pós-pandemia – e será tão surpreendente para todos quanto o é o atual momento de peste.
      A crise económica e social é de tal forma profunda que o caminho é estreito. O atual discurso político governamental é apenas a espuma que encobre um mar revolto. O mar não se compadece perante os atuais banhistas.

      • 123oliveira4 on 8 de Abril de 2021 at 2:21
      • Responder

      Pardal, és tu?

      • Carlos on 8 de Abril de 2021 at 9:49
      • Responder

      Iniciei uma resposta para o Pintelho e, depois, vi que não merece resposta…
      As melhoras…

    • maria on 7 de Abril de 2021 at 19:00
    • Responder

    O ensino necessita de uma “reparação” de alto a baixo.

    Desde logo, o tempo destinado à formação dos professores.
    Até ao 2º ciclo, dois anos (2) de duração – bem aproveitados – chegariam ! Digo bem aproveitados se evitado tanto desperdício de tempo : “recepções ao caloiro”, queimas, férias (!) “semestrais” para testar em exame matérias elementares . E outras brincadeiras.
    Quanto à formação “científica”, pergunta-se : o que aprendem durante 12 anos até ao Secundário ( a Português, a Matemática, a Biologia, etc) – com mais uns ” retoques” ou adaptações durante esses 2 anos – não seria mais que suficiente para leccionar o 5 º e 6º anos, bem como o 1º ciclo ? E ainda sobraria tempo para umas incursões naquelas “ciências “, desejavelmente com abordagens capazes de terem uma efectiva aplicabilidade no exercício da profissão.

    • João on 7 de Abril de 2021 at 19:02
    • Responder

    Eu gostava de perceber como é que se fala em falta de professores quando há pessoas com 5 ou mais anos de serviço a contrato, com horários temporários, incompletos, e etc… …. Sinceramente, é preciso ter uma lata…

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