Ensinar à distância: Crónica de uma vida real – CARMO MACHADO

Ensinar à distância: Crónica de uma vida real

epois de quase dois meses em contacto quase diário com todos os meus alunos – distribuídos pelos três anos letivos do ensino secundário – através de meios digitais e tecnológicos variados (na primeira fase, o correio eletrónico, o whatsapp, o instagram, o telefone, etc.; numa segunda, a aplicação Zoom.us seguida da famosa plataforma Teams de que, assumo, eu nunca tinha ouvido falar), fui informada de que regressarei à escola dia dezoito de maio para dar aulas de Português ao 12ºano.

Se repararam bem no que escrevi na primeira frase deste texto, tenho estado em contacto com todos os meus alunos, o que não significa forçosamente que eu tenha estado a ensinar seja o que for e, muito menos, que eles tenham estado a aprender. Não retirem já conclusões precipitadas. Deixem-me primeiro explicar. Das minhas quatro turmas, duas do décimo ano, uma do décimo primeiro e uma do décimo segundo (com um tempo semanal de cinquenta minutos síncronos, seguido de outros cinquenta minutos de sessão assíncrona), posso garantir que, a ter ocorrido ensino e/ou alguma aprendizagem real, eficaz e significativa ao longo deste tempo, tal aconteceu apenas na turma do ano de exame, o 12º ano. Poderia enumerar variadíssimas razões para este facto mas deixo-vos apenas com algumas: a maturidade dos alunos, o seu empenho demonstrado ao longo do ano, a sua preocupação perante os resultados a obter nos exames de acesso ao ensino superior, o desenvolvimento de métodos de trabalho autónomo, o à vontade no uso das novas tecnologias e, sem sombra de dúvida, o respeito pelo professor.

Sobre as duas turmas do décimo ano, posso afirmar que uma delas revela algum interesse nas atividades propostas, colaborando com a professora, reagindo, participando, rindo… Exatamente como acontecia nas aulas presenciais. No que às restantes turmas diz respeito (uma do décimo e outra do décimo primeiro), a experiência é quase traumática. As aulas síncronas podem ser descritas de forma simples: tentativa desesperada por parte do professor para ouvir uma palavra do outro lado da rede. Perante a chamada, mal respondem. Recusam-se a ligar a câmara. Recusam-se a ler. Não respondem às questões. Basicamente, não participam. Conto com dois a três alunos por turma e pouco mais. Paira um silêncio tal nestas sessões que já me apeteceu desligar o microfone e a câmara e fazer de conta que a ligação à internet caiu. Apeteceu-me, note-se. Obviamente não o fiz. Suportei a humilhação até ao fim, desejosa de que os malditos minutos passassem para acabar com o tormento daquele monólogo digital.

A verdade, se querem saber, é que este ensino à distância, como lhe andam a chamar, não é ensino à distância absolutamente nenhum. Confesso que com a turma do 12º ano, houve momentos em que fui professora. Quando lhes agucei a curiosidade para a pesquisa de novos conhecimentos e autores (a poesia de autores do séc. XX); quando promovi a reflexão sobre temas como a mudança, temática recorrente nos contos em estudo; quando estabeleci pontes com a disciplina de Sociologia e pedimos, eu a colega desta disciplina, um só trabalho comum; quando promovi a criatividade ao pedir-lhes trabalhos em registo áudio e vídeo onde mostrassem momentos de fruição do texto poético e que muito me surpreenderam… O resto foi nada. A maioria dos restantes alunos das outras turmas limitou-se a uma postura acrítica, passiva e apática, recusando qualquer tipo de atividade que implicasse debate ou análise ou leitura, enviando trabalhos de fraquíssima qualidade, repletos de erros de todo o tipo e, na generalidade, copiados da internet. Em suma, alunos desinteressados e desinteressantes… Como, aliás, já eram presencialmente.

Serve tudo isto para vos dizer que o regresso à escola no dia dezoito de maio se revela, no meu caso concreto, totalmente desnecessário. Pelos riscos que implica e, sobretudo, porque os alunos que irão regressar são exatamente aqueles que conseguiram utilizar esta nova experiência como um excelente estágio para a vida que os espera no ensino superior. Quanto aos demais, até dia 26 de junho continuarão a fingir que aprendem e eu a fingir que ensino…

Sobre as reuniões de professores realizadas através das plataformas digitais, afirmo com deleite que estas se revelaram de uma espantosa eficácia tanto na poupança de tempo como de meios. Bendita plataforma! Quanto à documentação a preencher, esta não surpreendeu na medida em veio confirmar que os professores (ou quem os coordena) não conseguem sobreviver sem formulários, relatórios e afins. A grande questão com que termino este texto é se o leitor, desse lado, fará a mais pequena ideia do que é ser professor e simultaneamente diretor de turma, neste modelo de pseudoensino à distância, ainda por cima de uma turma com exames nacionais. Aí, confesso, a vida complicou-se deveras e, por vezes, não houve tempo para se ser professor.

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14 comentários

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    • Fátima on 14 de Maio de 2020 at 15:41
    • Responder

    Cara colega, EU REVEJO-ME EM TUDO O QUE DISSE! O SEU TEXTO DIZ TUDO!

    • Marco on 14 de Maio de 2020 at 16:16
    • Responder

    Cara colega,
    muito obrigado pelo seu texto.
    Boa sorte e saúde!

    • Alexandra Almeida on 14 de Maio de 2020 at 16:45
    • Responder

    Tudo verdade…
    Eu tenho duas turmas de 7º e uma de 8º e apesar dos alunos serem educados, o silêncio e a apatia são confrangedores: sinto o mesmo. É um “faz de conta”…
    O que me (nos) valeu foi que quando a pandemia veio , já tínhamos 6 meses de avaliações…
    O meu receio é “COMO VAI SER” no próximo ano letivo…

    • Rui Manuel Fernandes Ferreira on 14 de Maio de 2020 at 17:55
    • Responder

    Sobriedade e sem vaidades.

    • profINFOeMAT on 14 de Maio de 2020 at 17:57
    • Responder

    Pois eu é precisamente o oposto…
    Tenho sempre os alunos a querer participar… a querer partilhar a tela para mostrar o trabalho e a precisar de por vezes cortar o micro dos alunos para ter menos conversa.
    Está a ser uma experiência maravilhosa.
    Mas pronto…. certamente que a colega terá um Muito Bom ou Excelente na avaliação porque conhece pessoas.. e eu fico-me com o bom… mas portugal já é assim…
    Note-se… seja em informática ou em matemática… e o resto é conversa… quando não se é bom…. nem com a tecnologia e os standsvirtuais de educação são suficientes…

      • Jorge on 14 de Maio de 2020 at 18:27
      • Responder

      Que resposta tão deselegante! Felizmente, os professores de Informática da minha escola não seriam capazes de baixar a este nível! Devo dizer que eu sou professor de Português e compreendo as dificuldades da colega. E não use tanto as reticências. Há outros sinais de pontuação interessantes.

      • Rui Manuel Fernandes Ferreira on 14 de Maio de 2020 at 18:37
      • Responder

      profINFOeMAT, fiquei sem perceber, o problema está no que a colega declarou ou está em apenas ter sido “avaliado” com Bom? Pela conduta que demonstra creio que até foi demais.

      • Roberto Paulo on 14 de Maio de 2020 at 21:50
      • Responder

      Um tipo que escreve como tu é professor? Que vergonha! Os erros são aos montes e o discurso é paupérrimo.

      Tu estás é a mostra porno aos miúdos.

    • Maria on 14 de Maio de 2020 at 19:49
    • Responder

    Sinto o mesmo. Só verdade!

    • Ana Duarte on 14 de Maio de 2020 at 20:00
    • Responder

    Todas as opiniões são válidas. Penso que ensino à distância, ou o pseudoensino , como a colega lhe chama, não foi o motivo desse diagnóstico. Provavelmente, no ensino presencial tinha o mesmo resultado. No meu caso, apesar da desconfiança inicial, a experiência está a ser muito gratificante. A única turma que não corresponde, como o pretendido, é uma turma de 11. º ano. Os alunos continuam iguais a si próprios. Já eram assim desde o primeiro período e,infelizmente, confesso que não consegui motivá-los, envolvê-los o suficiente, porque alguns desistiram, dado o insucesso académico a várias disciplinas. Só conto com a participação de metade da turma.
    Nas turmas de 10. º ano, até os alunos que eram mais tímidos estão a revelar-se e participam ativamente, à semelhança da sua turma de 12. º ano. Têm-me surpreendido, têm sido muito criativos, autónomos, curiosos e até me surpreendem por estas andanças na lírica camoniana, atualizam-na, pois Mudam-se os tempos, Mudam-se as circunstâncias, os meios, e, muitas vezes, nem damos pelo tempo passar. Não me vejo a contar os minutos para que tudo acabe. Termino a aula já com novas ideias, com vontade de no dia seguinte ter os meus alunos do outro lado… e sempre cumprindo o mesmo horário letivo (dois blocos de 90) por videoconferência… o desejo era mesmo tê-los todos juntos numa sala de aula. Sim, na outra, aquela que a tecnologia nunca substituirá!
    Concluindo, não se pode generalizar…é apenas uma crónica de uma vida real! Boas experiências para todos.

    • Bebiana Sequeira on 14 de Maio de 2020 at 21:06
    • Responder

    Concordo Co a colega. O meu filho tem aulas síncronas, onde tem de falar inglês, onde tem que ler textos e nas aulas de Mat tem que resolver exercícios. Tem terefas distribuídas durante as aulas e tem X horas para enviar as respostas por n ail. Tenho acompanhado o seu trabalho e digo lhe que é como se estivesse na escola. Ajudo quando sei e quando ele pede ajuda. Como este ano tinha funções de apoio, imagino os alunos que apoiava, desligados nas aulas presenciais e em off nas aulas à distância.
    O conhecimento é aproveitado por aqueles que querem aprender e cujas famílias, valorizam a És Olá.

    • André Krus Ramos Chaves on 15 de Maio de 2020 at 13:13
    • Responder

    É bom perceber que alguém nos compreende…
    Lecciono 5 turmas na disciplina de Educação Física, tenho 2 Direções de Turma de 12º ano e tenho 3 filhos em casa com o “Ensino” à distância.
    Fiz 50 anos em Abril… Rica prenda pelo meu meio século.
    Haja saúde…

    • Helena Gonçalves on 15 de Maio de 2020 at 22:00
    • Responder

    Subscrevo. Em quase tudo. Os alunos que trabalham no ensino presencial são os mesmos que trabalham no ensino à distância, com raríssimas exceções.

    • Paulo Pereira on 17 de Maio de 2020 at 4:37
    • Responder

    Colegas, é apenas uma questão de sorte.

    Os alunos estão para os professores tal como a farinha está para os padeiros.
    Podemos ter anos com alunos interessados, e outros anos com alunos desinteressados.
    Não vale a pena a auto-recriminação por maus resultados obtidos, quando fizémos tudo para que as coisas corressem bem.

    Eu poderia dizer que houve coisas que correram bem, e outras nem tanto.
    Há coisas que não estão podemos mudar, por não estarem ao nosso alcance. Há que contar com o feed-back de cada aluno e também dos pais.
    Se, do lado de lá, as coisas falham, constatamos maus resultados no nosso trabalho de professores.
    Cabe a nós aferir se houve genuíno empenho, se houve dificuldades de comunicação, se há problemas familiares atendíveis, do lado dos alunos e respectivas famílias. E se, apesar de tudo, houve resultados satisfatórios.

    Que mais poderemos fazer?

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