Grande balda – João Atanásio

Grande balda

Num mundo cada vez mais exigente, onde os cidadãos têm que lutar diariamente por um lugar ao sol, os nossos jovens são desde muito novos incentivados pelos poderes públicos a fazerem o mínimo possível, criando-lhes a ideia de que tudo são facilidades, não tendo que ser avaliados pelo seu mérito escolar e sendo tratados como se estivessem imunes a uma pressão que lhes irá mais tarde tornar a vida num inferno.

Aquilo que há uns anos fazia com que os alunos se empenhassem desde cedo, a meritocracia, é hoje em dia demonizada pelos partidos da esquerda, que tentam a todo o transe evitar que as “criancinhas” tenham que conhecer, ainda em tenra idade, o sabor do insucesso, tenham que lidar com a pressão da avaliação, tenham que se confrontar com a possibilidade de reprovação.

O chumbo, esse, foi sendo progressivamente substituído pela reprovação, depois pelo não aproveitamento e, mais recentemente, pela retenção, palavra que procura suavizar a frustração de quem conheceu o insucesso escolar.

Mas, independentemente do jogo que se fizer com as palavras, o fracasso parece assustar aqueles que de há uns anos a esta parte assumiram os destinos do nosso país, não querendo sujeitar a juventude à pressão das avaliações, preferindo que estas adquiram competências e não conhecimentos, que estas não tenham que se confrontar com o drama da retenção, que, outrora, ainda há não muito tempo, se chamava “chumbo”.

É por isso que, sucessivamente, se foram eliminando do léxico escolar alguns termos hoje considerados perniciosos para os jovens, preferindo utilizar termos cada vez mais neutros, como aferição, em vez de exame ou avaliação, como retenção, em vez de reprovação, como competências, em vez de conhecimentos.

A batalha vai-se acentuando cada vez mais e agora no olho do furacão estão a abolição dos exames do 9.º ano e o fim dos exames nacionais de acesso ao ensino superior. A medida, de cariz economicista, pois permite poupar aos cofres públicos algumas centenas de milhões de euros, terá, ao contrário do que se poderia pensar, um impacto muito negativo na economia do país, pois significará, uma vez mais, a facilitação da vida dos alunos, que são levados a pensar que vivem no paraíso, que o empenho e a abnegação são defeitos e não virtudes, que nunca terão que lutar para alcançarem o futuro com que almejam.

A avaliação, esse papão, a retenção, essa maldição, passarão a fazer parte da história, não mais perseguindo os alunos, que poderão, independentemente dos conhecimentos (pelo desculpa, das competências), transitar de ano, um após o outro, fazendo lembrar a célebre frase “de vitória em vitória até à derrota final”.

Esta grande balda em que os alunos vão vivendo no nosso país, com a abolição, ano após ano, de provas, exames, avaliações, retenções, farão de Portugal, no futuro, um país ainda menos produtivo, ainda menos competitivo, atirando sucessivas gerações de jovens para a cauda da Europa, de uma forma cada vez mais consolidada.

O elevador social que o ensino representava, permitindo a famílias mais pobres verem os seus filhos alcançar, a custo, com muito mérito e sacrifício, posições que outrora estavam vedadas aos seus pais, estará definitivamente condenado, passando Portugal a viver uniformemente num rés-do-chão, onde todos passarão por provações, pois serão licenciados, mestres ou doutores, mas não conseguirão obter um emprego bem remunerado que lhes permita alcançar o bem-estar que perseguem. Nesta amálgama social, o mérito estará definitivamente atirado para um contentor, não sendo sequer passível de reciclagem.

 

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7 comentários

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    • Mic on 2 de Dezembro de 2019 at 13:28
    • Responder

    Plenamente de acordo!

    • Rib on 2 de Dezembro de 2019 at 13:34
    • Responder

    Subscrevo totalmente!

    • Dias on 2 de Dezembro de 2019 at 13:46
    • Responder

    Só disparates…

    • Fernando on 2 de Dezembro de 2019 at 14:00
    • Responder

    Concordando com quase tudo, defendo o que implicitamente ataca: Acabar com os “chumbos”!

    Na realidade, há vários anos que andamos a acabar com os “chumbos” de forma artificial. Com prejuízo de TODOS, mas o mais incrível é que os principais prejudicados são precisamente os mais desfavorecidos, pois estão a ser iludidos com avaliações cor-de-rosa, vão passando com as suas dificuldades “às escondidas”, sem qualquer pressão de pais, e sociedade, para que olhem e respondam às suas reais dificuldades. Os outros, obviamente que também prejudicados (por muitas razões), vão encontrando (um bocadinho) na família suporte para não se deixarem iludir na mesma forma (…).
    E porque também não acredito que a simples retenção/reprovação/chumbo resolva o que quer que seja, penso que seria de longe preferível os alunos progredirem com as reais avaliações dos seus conhecimentos e diferentes competências.
    Mais, penso mesmo que se deveria separar totalmente a avaliação das competências técnicas e científicas das sociais e humanas, deixando ao mercado e à sociedade uma imagem mais clara (e exposta) dos diferentes tipos de competências que hoje estão numa avaliação única. Um jovem com dificuldades técnicas e científicas pode estar muito melhor preparado para vencer em diversas áreas do mercado e da vida, do que outro a quem faltam competências sociais e humanas. Mas saem da escola sem que ninguém possa saber que tipo de jovem é aquele, onde pode ele melhor vencer. E onde de facto precisamos de investir.
    O elevador social está avariado é certo, mas nós não nos conseguimos entender no conserto.

    • Alexandra Almeida on 2 de Dezembro de 2019 at 15:04
    • Responder

    Pelo que sei e tenho ouvido, o PS não pretende acabar com os exames (aliás, apenas de Português e Matemática) do 9º ano. E também não com os de 12º.
    O que se passa e está a confundir as pessoas, é a entrada “pela porta do cavalo” de alunos do profissional na faculdade. Enfim…
    Sairão licenciados em canalizadores e em outros ofícios mais.

    • cincocincobola on 2 de Dezembro de 2019 at 16:34
    • Responder

    No ensino profissional os alunos são tratados como imbecis e coitadinhos, por isso o 10 é garantido dê por onde der (para isso servem os ridículos critérios de avaliação aprovados em todo o lado, com 45% para as “atitudes”). Quando alguém lá aparece que não vai na cantiga, fazem-lhe a vida negra – os alunos incitados por umas medícores “chefias intermédias” que só existem para pôr todos a “cagar estatísticas” (pardon my french).

    Perfeito exemplo existe numa escola na margem Sul do Mondego, onde há uma diretora de curso fascizóide que manda nos cursos profissionais. Classificações nas suas disciplinas são de 14 para cima (só 4 e 5 no Básico) e não há indisciplina (santinha!), quando põe alunos na rua acompanha-os à Biblioteca mas oficialmente não marca falta disciplinar nem sequer de presença.

    Arrebanha 99% dos professores, funcionários, EE e alunos. Nem a diretora tem mão naquela fanática do poder, que recorre aos estratagemas mais rasteiros para enlamear o nome de certos “colegas” “impuros” que não têm medo de dizer o que pensam e que não lhe lambem as botas.

    Entre os atos desta sacripanta mafiosa encontram-se:
    – alteração de avaliações feitas pelos “impuros”
    – difamação dos “impuros” em reuniões e posterior expurgação das atas (para não ir a tribunal) em reuniões expressamente marcadas para esse efeito
    – convocação de reuniões ilegais para sobrepôr decisões de reuniões do CT
    – difamação dos “impuros” de “mansinho” (para não ir a tribunal) em cada oportunidade que encontra, junto de profs funcionários EE e alunos
    – quando ninguém está a ouvir refere-se aos “impuros” como “fdp”, “atrasados”, “cagalhotos” e etc. (mas isto só com os fiéis mais próximos que não piam)
    – desautorização dos “impuros” em frente a alunos, invadindo as suas aulas e fazendo comentários difamatórios e jocosos frente a alunos
    – promoção e coordenação de ações de grupos de EE e alunos, com o objetivo de afastar os “impuros”
    – influência na distribuição de serviço de exames junto do rebanho denominado secretariado de exames (que procede a distribuir serviço aos “impuros” em 99% dos dias)
    – promoção de comportamentos criminosos dos alunos tais como gravação de aulas dos “impuros” (das quais só dá conhecimento aos fiéis mais próximos mas não à diretora da escola)

    • maria on 2 de Dezembro de 2019 at 18:06
    • Responder

    Nenhum normativo legal obriga – explicitamente – que o mais retinto cábula ” transite” de ano.

    O que os normativos legais “obrigam” – im-pli-ci-ta-men-te – é que nem o mais retinto cábula … reprove!
    Cabecinhas pensadoras …

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