O currículo dos sexos em Educação Física – João André Costa

 

O currículo dos sexos em Educação Física

Este é o tema de uma pesquisa de mestrado para as Universidades do Porto e São Paulo, publicada no Verão de 2018 e disponível no Google para quem quiser saber mais.
Nesta pesquisa, os autores debruçaram-se sobre a educação física e os papéis de género, logo à partida citando frases de alunos de uma escola do ensino básico e sublinhando a ideia que os alunos fazem do papel das raparigas e rapazes no desporto: “Eles jogam melhor!”, “Os rapazes têm muita força para chutar!”, “As raparigas ficam a brincar nas aulas de Educação Física!”.
Por aqui se começa a perceber como o que se diz influência o comportamento de um género, moldando expectativas sociais desde uma tenra idade em relação ao papel de raparigas e rapazes e, futuramente, de homens e mulheres.
Quem sai destes papéis é rapidamente ridicularizado, seja porque a rapariga quer jogar à bola e é Maria-rapaz, seja por o rapaz querer dançar e de menina para baixo ser chamado de tudo.
Assim sendo, é essencial que a escola não veicule modelos de comportamento em função do género mas de cada aluno, individualizando o ensino sem olhar a diferenças biológicas.
Aliás, basta abrir um qualquer manual escolar onde se verse as diferenças entre homem e mulher para, de imediato, encontrar um chorrilho de asneiras, asneiras essas responsáveis por encaixar homens e mulheres, raparigas e rapazes, meninos e meninas, em modelos de comportamento discriminatórios, para não dizer caducos, desajustados e insultuosos. Assim, os homens são em geral mais musculosos que as mulheres, com um metabolismo mais rápido alimentado a testosterona enquanto as mulheres tendem a transformar os alimentos em gordura para sustentar a gravidez.
Ou seja, e dependendo dos manuais escolares e das escolas que os veiculam, os homens têm a função de combater e as mulheres de conceber. A mulher trata da família, o homem providencia o sustento, de pouco interessando se estamos no século XXI ou XXXI quando a conversa é sempre a mesma de há 5 mil anos para cá. Ou mais.
Voltando à nossa pesquisa de mestrado, o discurso biológico influencia o comportamento do género, concluindo-se no fim ainda haver muito por fazer num mundo onde as poucas excepções continuam a confirmar a regra.
Mude-se o discurso, por favor, não é pedir muito, quando eu vou na estrada de bicicleta vejo-me sempre à rasca para ultrapassar uma qualquer ciclista, normalmente altas, magras e aerodinâmicas nas suas bicicletas de carbono e hoje em dia qualquer homem leva uma coça de uma mulher na pista ou na estrada, na piscina ou no ringue.
Assim, para quando a igualdade salarial para ambos os géneros em todas as modalidades, a começar pelo futebol?
Para quando a não resignação das raparigas quando é a própria professora, professora, sim, no feminino, a dar a dois rapazes a escolha das equipas de futebol, equipas essas onde as raparigas ficarão sempre para último? Para quando o ensino para a cidadania desde o infantário mas também para adultos? Agora a sério para adultos?
Para quando o desporto misto e a obrigatoriedade da igualdade de géneros? Para quando o fim da segregação de género no desporto? Porque não às equipas de futebol, andebol, rugby, só para citar alguns exemplos, onde metade dos elementos são de um género, a outra metade de outro e no fim que vença o melhor?
Convençamo-nos, enquanto se impedir às mulheres o acesso às equipas masculinas, os homens continuarão convencidos da sua superioridade física, muscular, atlética. Por não terem nenhuma mulher que lhes faça frente.
Terão medo? Terão miúfa? Saberão, no seu âmago, ser essa a verdade, assim explicando o seu silêncio, a sua reticência?
Para quando uma mulher presidente de um clube de futebol? Para quando uma mulher à frente do Benfica?
Tudo é uma construção social, por isso a importância do desporto. Fica aqui o pedido, não, o desejo, não, a vontade de viver num mundo onde as mulheres correm a par e par com os homens, nos Jogos Olímpicos, mas também naquela futebolada na praia. Porque somos todos iguais. Quando esse dia chegar, não haverá mais vítimas de violência doméstica e as mulheres também têm pêlo na venta.

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