A Vânia disse: “vais a Arouca ter comigo e vamos juntas aos Passadiços”. E aquilo pareceu-me um bom plano de férias.
Espreitei imagens na net revelando um idílico e agradável passeio na natureza ao longo de uma robusta via de madeira. Aceitei o convite e não duvidei da minha opção ao conhecer a Vila e as pessoas.
Esqueci-me, apenas, que a Vânia é professora de Educação Física, o que significa que a perspetiva que ela tem da vida é distinta da minha.
Em primeiro lugar, porque a Vânia corre trinta minutos todos os dias. Antes de ir dar aulas às 8.30 da manhã. Não obstante tal facto, esqueci-me, igualmente, que foi dela a ideia de montar na escola uma parede de escalada.
Estes dois dados deveriam ter sido suficientes para refletir ponderadamente no amável convite. Basta dizer que sou de Literatura, não corro, nem ando que não me sente pouco depois, exausta, optando, preferencialmente, por observar o mundo enquanto permaneço tranquilamente inerte. Além disso, tenho vertigens.
E quando lemos a informação turística sobre os Passadiços não está escrito em lado nenhum que é um percurso de dificuldade acentuada para quem passa o dia com o cuzinho sentado e tem um medo de morte das alturas. Nada.
De modo que lá fui, convicta que oito quilómetros se fazem calidamente numa manhã de verão.
A coisa começou logo bem, porque o piso inicial, a subir, era de terra batida e eu comi o pó da Vânia que resolveu subir o monte em passo de corrida. Simpaticamente, esperou por mim e informou-me que agora é que começavam efetivamente os passadiços.
Para desgraça minha, pude perceber que subira no meio dos eucaliptos uma vasta área vertical, a suar as estopinhas, sendo que no topo havia a”mais bela vista possível da Serra”. Ora, se há coisa que abomino, é a vista que nos aproxima das nuvens, porque me assombra sempre o que ressurge “lá em baixo”. Os olhos bem tentam focar-se no que aparece logo à frente, mas o abismo sorve-nos num ápice.
De forma que a coisa começou a descambar lá do alto e eu percebi que aquilo ia ser mesmo duro. Mas, na verdade, ainda havia de piorar, porque os passadiços têm uma carrada de escadas. E isso também não li em lado nenhum.
Pelas minhas contas, mais de quinhentos degraus. A visão do inferno.
Julgamos que aquilo é só descer e, depois, duas coisas curiosas acontecem – o cérebro avisa que temos vertigens e as dobradiças dos joelhos começam a ceder com o esforço e a miúfa.
Portanto, o cenário de terror rapidamente se desenhou à minha frente e, em várias ocasiões, dei por mim a mandar a Vânia e os seus passadiços comer alho cru.
Por mais que desejasse apreciar a paisagem, a única coisa que vislumbrava era o abismo exposto perante as fendas dos degraus onde debilitadamente poisava cada pé e os intervalos das tábuas do corrimão a que me agarrava com unhas, dentes e furibundo desespero.
Isto enquanto tentava evitar que o coração aceleradamente exaltado, me saltasse da boca.
De modo que fui descendo com cautela, o suorzinho de miúfa a escorrer até ao longo, fundo e agreste vale, tão lá em baixo que podia jurar que só chega ao céu quem não sofre de vertigens.
Entretanto, passou por mim uma senhora escorreita e veloz, provavelmente percebendo o meu pânico interior gravado na minha contorcida face, e atirou, bem alto: “ai que estes turistas não sabem ao que vêm, julgam que os passadiços são canja…”
Eu não conseguia articular palavra, porque todo o esforço estava concentrado em agarrar heroicamente as tábuas descendentes e em não trocar os pés (e depois atravessam-nos, a nós que temos vertigens, estes pensamentos idiotas e desmotivadores – “se trocares os pezinhos estatelas-te na pedra lá de baixo e não é uma morte bonita de ter”). Mas, se conseguisse, tinha-lhe berrado com todos os pulmões que ninguém deixou aviso em lado algum sobre as contra indicações dos passadiços que amargamente descobri.
Logo a seguir, desceu todo pomposo o senhor músculos da “Herbalife – pergunte-me como”, uma freira e duas beatas significativamente céleres, um bando de emigrantes que intersecionam a língua materna e o francês a uma velocidade estonteante, mais um grupo extenso de adolescentes, dois ou três casais de namorados, um desgraçado de um cão.
E era vê-los passar por mim, suados, mas aliviados no final e com ânimo para prosseguirem.
Percebi, então, num clarão visionário, que os passadiços deviam servir para pagar promessas. Isso sim, devia ser a sua real função, de tão penosos que se revelam para pessoas fisicamente preguiçosas como eu.
Mas eis que, estando eu embrenhada nestas ruminações, misturadas com umas quantas imprecações pelo meio, cheguei, finalmente, perto do rio.
Benzi-me incontáveis vezes, os joelhos tremelicaram de exaustão, a Vânia veio ter comigo e animou-me logo, dizendo, com um sorriso: “Agora é mais fácil. Mas ainda temos duas horas de caminho pela frente. Convém acelerar o passo…”.
Minha Nossa Senhora, mais duas horas disto????
Eu posso jurar aqui e agora que não sou capaz, que não é possível, no meu íntimo, desejo ser evacuada por um qualquer veículo motorizado, nem que seja um helicóptero dos incêndios, tanto me dá.
Mas, então, um estranho processo ocorre dentro de mim. O rio abeira-se cada vez mais e, acho que, pela primeira vez, oiço a água a correr paralela à minha passagem, o piar dos andorinhões que rodopiam num bailado sereno sob a minha cabeça, sinto o odor inebriante dos castanheiros e dos eucaliptos, observo as escarpas que desbocam num leito plácido. E sei que o meu corpo está tão exausto, mas tão exausto que o meu cérebro até se esquece que tem vertigens e deixa-me prosseguir caminho.
Por mais que me doam os músculos (que eu mal sabia que possuía), que o suor me desvende a exaustão em que mergulhei, não posso parar agora. A beleza que me cerca é pungente demais.
Sigo ao meu ritmo, observando o espaço em volta, bebericando os sons dispersos. Sobrevivo a três ininterruptas horas de passadiços e oito quilómetros (mas eu juro que foram muitos mais, porque aquelas curvinhas todas de degraus, tenho a certeza, não foram contabilizadas nos guias turísticos).
Amanhã, amanhã não vou mexer nem um centímetro do meu corpo.
Mas posso afirmar em letras garrafais: SOBREVIVI AOS PASSADIÇOS.
E isso ainda há de dar uma divertida crónica no Arlindo.