Estou de férias, ponto.
Sendo este o momento alto da minha vida, não quero saber de notícias educativas. Recuso quaisquer grelhas de Excel. Que se danem os concursos. Que o Ministério seja invadido por Argelinos em busca de refúgio. Que as pilhas de exames e testes ardam num torvelinho. Que os alunos ganhem uma viagem longínqua para Palma de Maiorca.
Estou de férias, ponto.
Por isso mesmo, limito-me a desligar todas as fichas da tomada e a usufruir do meu salário, deglutindo avidamente caipirinhas ao pôr do sol, mordiscando bolinhas de Berlim num areal extenso e, é claro, mergulhando, tal como faço neste preciso instante, numa piscina azul turquesa.
Ao meu redor uma volumosa família inglesa, dois ou três casais namoriscando e mais uns quantos diabretes chapinhando na água. Mas eu quero apenas sentir a líquida transparência cobrir-me a pele.
Flutuo com os olhos colados ao céu infinitamente azul, aspergindo as narinas com o odor dos pinheiros mansos que nos cercam. Ah, se isto é vida!! Quero lá saber dos tostõezinhos contados, da prestação da casa, do carro avariado no mecânico.
Estico os braços e flutuo como se fosse um nenúfar aspirando o sol.
Decido, contudo, dar um mergulho prolongado, sorvendo o céu projetado no fundo. Coloco os óculos, contenho a respiração e afundo-me na líquida dimensão. A plenitude deste momento é tão esmagadora, logo me transfigurando numa ágil sereiazinha que afugenta os seus maciços setenta quilos.
Neste instante sou, apenas, a nadadora profissional de um musical de Hollywood. Ergo-me na superfície para rodopiar um bailado intrincado, projeto esguichos artísticos que desenham o arco-íris na superfície e volto a mergulhar até ao outro extremo da piscina. Serpenteio, submersa na tranquila liquidez, acelero e desacelero como se tivesse barbatanas. Aqui sinto-me plena e de uma leveza subtil.
Entretanto, vislumbro algo, pelo cantinho do olho, no mosaico luminoso da piscina. Bem lá no fundo. Eu podia ser, neste preciso momento, um mergulhador no mar das Caraíbas, descobrindo um tesouro.
Bato os pés celeremente, aproximando-se mais e mais do objeto estático que jaz no fundo da piscina. Caramba, devia ter posto as lentes de contacto, a minha miopia limita-me o meu raio de visão na mesma proporção que espicaça o meu imaginário.
Contenho a respiração um pouco mais e acerco-me para desvendar o segredo. Uma inesperada revelação faz-me disparar para a superfície como se fosse impulsionada por um foguetão.
Minha Santa Bárbara de Arronche!!! São Dionísio da Arruela!! Nossa Senhora da Agonia!! Poderei ter visto bem? Não me enganei no que percepcionei com os meus olhos míopes? Minha nossa senhora, eu engoli, pelo menos, três pirolitos desta água enquanto nadava. Por favor, alguém me diga que não é possível, que vi mal…
Olho em redor completamente em pânico.
“Pára. Flutua. Respira. Tu respira e pondera com calma.” Recupero o fôlego e decido que só me posso ter equivocado. Foi isso.
Voltemos a descer e observemos com maior tranquilidade. Aproximo-me discretamente, posicionando-me exatamente por cima do objeto. Depois, inspirando uma golfada de ar e de coragem, nado a pique até à proximidade máxima que me é possível, de modo a proceder à mais hedionda averiguação de que tenho memória. É impossível assumir agora qualquer confusão. Um robusto cilindro pontiagudo, denso e cerrado, jaz prostrado ante os meus olhos. Pior, confirmo que não está sozinho, mas tem mais dois amigos, menores, é um facto, nas imediações. E, definitivamente, não se trata de três ou quatro calhaus, mas de magníficos exemplares de fezes humanas, fibrosas e maciças.
Ejeto-me a toda a brida, com uma vontade inusitada de vomitar na borda da piscina.
São Miguel da Acha, rezai por mim. Dai-me forças, ânimo e redobrado fôlego.
Fujo numa corridinha veloz para o chuveiro mais perto, esfregando-me como se não houvesse amanhã. Todo o nojo a escorrer-me corpo abaixo e só me ocorre que engoli uns quantos pirolitos durante a minha exibição natatória.
Sorvo a água toda do duche com fúria e vou observando os desgraçados que me rodeiam. Uma daquelas bestas é o criminoso que conspurcou o paraíso.
Em breves instantes as minhas passadas nervosas levam-me dali para fora. Está um calor de morte e a piscina irá ficar miseravelmente fechada.
Assim, subitamente, se estragam umas belas férias e perdura uma inusitada memória indesejada.
Ai vida dura esta em que tenho de me contentar com um reles ar condicionado…




1 comentário
Uma crónica do quotidiano de uma banhista, no mínimo hiper-realista…Acontece ao mais pintado!!!
A mim aconteceu-me algo semelhante, era eu, ainda, adolescente. Andava pelas dunas de Ofir recolhendo vestígios do mar. A certa altura vi uns montes de algo seco, como pequenos ouriços do mar, muito redondos, batidos pelas ondas. Peguei nos pequenos tesouros e, pelo odor, vi logo que eram poios dos cavalos do estaleiro. – Hi hi hi !!!! – Ora, ora!!!