Foi apenas um fungar fininho que me chamou a atenção. Um murmúrio de tristeza, suave e cinzelado, que cruzou o chão do wc e me veio aterrar nos pés. Permaneci em silêncio mais um bocadinho, até confirmar que era um choro granulado e lânguido que eu ouvia. Aguardei pacientemente que abrisse a porta e me encarasse.
Era uma colega, com a cara inchada de vermelhidão absoluta, os olhos desfeitos em lágrimas, a fingir que não se passava nada, apanhada que foi no silêncio do cubículo onde se julgava só.
Na verdade, conheço-a muito, muito mal. Aterrou aqui há uns dias, vinda detrás dos montes, discreta e tímida, mal abre a boca ou expressa um sorriso.
O seu nome, tal como ela, é composto apenas por duas sílabas indiferentes.
Mas eu percebo agora que ela está perdida no meio do caos, como eu outrora estive. O caos que é a escola quando se chega a primeira vez, o caos em que se transformou a sua vida, de candidata a professora a contratada temporária. São títulos parvos, mas que marcam a fisionomia de uma alma como uma cicatriz marca um corpo.
Deixou dois filhos nos braços do pai, sucumbindo à necessidade de trabalhar para ter tempo de serviço, já que o dinheiro nem sobra.
E há um cansaço tão doloroso no seu rosto, um cansaço tão extenuado de ser cansaço quando desabafa que não tem alternativa. Bem vejo como é difícil, muito difícil, mas, dessa escolha tão devastadora, eu nada sei.
Apenas sei que a Paula decidiu, há 16 anos atrás, estudar literatura, tal como eu. E que, infelizmente, não se arranja emprego para quem ama palavras e nada mais sabe fazer.
Entretanto, a alma morre-lhe aos bocadinhos, esvai-se no fio da torneira que agora abre para enxugar o rosto e refazer a fisionomia da indiferença.
Dormir longe dos nossos filhos devia ser, simplesmente, uma impossibilidade.
Infelizmente, quem trabalha com o coração despedaçado, nunca trabalhará de corpo inteiro.
E é por isso, Paula, de duas sílabas apenas, dilaceradas e carcomidas de infelicidade, que a crónica de hoje é para ti.
Para ti e para todas as “Paulas” e “Paulos” que, por este país fora, dão as boas noites à sua família, suspensos num fio de telefone.
Obrigada por terem sobrevivido até aqui.




13 comentários
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Como a compreendo! Muita força e desabafar! Vivi e vivo isso há tantos anos! Os filhos dos professores ficam órfãos de pais vivos!
(…) “quem trabalha com o coração despedaçado, nunca trabalhará de corpo inteiro”. Está tudo dito.
Muita força, sei o que é isso mas do ponto de vista de filha. Vivi longe dos meus pais por estes me quererem dar uma vida melhor. O que me ficou dessa época foi ter aprendido que o esforço compensa e o orgulho pelo sacrifício que os meus pais fizeram, também por mim, principalmente por mim.
Esta “Paula ou Paulo”, infelizmente está a tornar-se o rosto de muitos professores 🙁
Não estou na mesma situação porque optei em trazer os meus filhos comigo mas… fica o pai/marido, avós tão longe… cria-se uma saudade que dá vontade de chorar diariamente. Espero que um dia os meus filhos e o meu marido me perdoem por eu ter escolhido ser professora. Gosto do que faço, dou-me a 100% mas é muito mais difícil com o coração magoado. Força a todas as “Paulas e Paulos”
A vida de um professor (neste caso) torna-se obrigatoriamente uma maquina sem poder manisfestar os seus sentimentos , fragiidades ( muito menos ao professor contratado , desterrado sabe-se la porque) . para muitos o professor nao tem familia , nada.
Este ano fiz uma opcao para acompanhar o bem mais querido que tenho na minha vida denunciei a minha colocacao de 8 horas e temporario .Sou contratada desde 1997, sei como somos confrontados com a intoleramcia de muitos outros colegas. Considerei que esta era a opcao mais logica muito embora esteja sem apoio monetario. E muito dificil.
“como eu outrora estive.”
Já não estando – ainda assim a retórica.
Isto não se passa só com os professores!
Eu sou contratada e neste momento todas as noites, eu e as minhas filhas despedimo-nos do marido e pai pelo skype!
Sim, porque a falta de emprego não atinge só os professores e não somos só nós a sofrer separações; há maridos e pais não professores que tiveram de sair para fora do país e quem fica cá sofre a valer (mas sofremos menos que eles, que estão sozinhos).
Vamos parar de nos fazermos de coitadinhos pois estas histórias acontecem em todas as profissões; o meu caso é para rir pois as lágrimas já foram todas: contratada, a fazer substituições após anos e anos e com um marido que teve de imigrar (e não era professor).
Sendo um blogue para professores, é normal que seja esse o foco da crónica. Mas parece-me que se trata, simplesmente, de sensibilizar os pares para a infelicidade alheia que tantas vezes passa ao lado de quem vive tranquilamente a sua vida. Não se trata de “fazer de coitadinhos”, mas de apoiar quem precisa, tal como a Bekas510 parece necessitar. Nunca ninguém se preocupa com os professores, às vezes nem mesmo os pps colegas…
Pessoalmente gostei muito do texto e fez-me olhar de outra forma para os colegas novos que estão na minha escola.
Não é uma questão de precisar ou não de apoio: é, simplesmente, aceitar a vida como ela é e darmos graças pelas pequenas coisas que vão acontecendo. Eu dou graças por estar a fazer uma substituição pois há muitos colegas ainda em casa (infelizmente); apenas quis alertar que histórias como estas estão afetar muitas e muitas famílias não sendo só os professores os protagonistas.
Este blog é lido por muita gente não professora que já começa a pensar que nós só nos queixamos (tendo ou não razão)!
Há pessoas diferentes, Beskas! Pense nisso!
Como eu também estive… Um retrato emocionante e, infelizmente, uma realidade de tantos professores.
“mas, dessa escolha tão devastadora, eu nada sei.”
Reescreva-se sem se saber.
Felizmente há os sindicatos com inúmeros ombros, é só escolher.