Late Night Fafe

I

A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou

A vinda tem a regressão errada.

Já não sei de onde vim nem onde estou.

De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar

Um alto monte, de onde possa enfim

O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,

E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar

Em mim um pouco de quando era assim.

II

Dia a dia mudamos para quem

Amanhã não veremos. Hora a hora

Nosso diverso e sucessivo alguém

Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem

Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.

Ah, que horrorosa semelhança têm!

São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.

E a multidão engrossa, alheia a ver-me,

Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,

E, inúmero, prolixo, vou descendo

Até passar por todos e perder-me.

III

Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço

O que sinto que sou? Quem quero ser

Mora, distante, onde meu ser esqueço,

Parte, remoto, para me não ter.

[fp]

 

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12 comentários

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    • Fafe on 5 de Novembro de 2015 at 23:13
    • Responder

    Há por quem nenhuma escadaria passa: http://economico.sapo.pt/noticias/costa-mete-ferias-em-semana-decisiva_233718.html

      • Pois on 5 de Novembro de 2015 at 23:51
      • Responder

      Que Guilda bacoco, ao menos não esconde a filosofia a laissez-faire e partidocracia da coalizão dos fascistas, tipica usança fne!

        • Fafe on 6 de Novembro de 2015 at 0:47
        • Responder

        típica

          • Pois on 6 de Novembro de 2015 at 16:24

          e isso é que importa, claro!

          • Fafe on 9 de Novembro de 2015 at 20:30

          Importa, fiquei traumatizado na infância com os “koniec’s”.

    • Pois on 5 de Novembro de 2015 at 23:45
    • Responder

    Parece-me mesmo uma coisa em rococó em palavras ocas sem nexo, fartei-me de rir com o pretensiosismo de tentar passar de pseudo poeta.

    É curiosa a escolha do intelectual d’outros.

    • Fafe on 6 de Novembro de 2015 at 0:16
    • Responder

    Curiosa a intelectualidade sobranceira e luminosamente ofuscante do pretexto feito argumento – recuso-me construir muros democraticamente imperialistas para os pretextais. Ou purgas.

    • Fafe on 6 de Novembro de 2015 at 0:26
    • Responder

    Suponho que tal me distinga do padrão soviético requentado e que impeça que se queime qualquer livro.

    • Fafe on 6 de Novembro de 2015 at 0:31
    • Responder

    Seja como for: a minha poesia não te pertence, era só o que faltava se eu tivesse que responder perante comissários de estética, muito menos de senso.

    • Fafe on 6 de Novembro de 2015 at 0:37
    • Responder

    já agora – que ficaste preso pelo assunto
    direi que não me encontrarei
    contigo
    na tua particular prisão
    e estarei indisponível para rezas e ladainhas
    previamente apagadas

      • Pois on 6 de Novembro de 2015 at 16:26
      • Responder

      Amen…

        • Fafe on 9 de Novembro de 2015 at 20:33
        • Responder

        Mais um acordo?

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