I
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.
II
Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.
E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.
Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.
Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.
III
Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.
[fp]
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12 comentários
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Há por quem nenhuma escadaria passa: http://economico.sapo.pt/noticias/costa-mete-ferias-em-semana-decisiva_233718.html
Que Guilda bacoco, ao menos não esconde a filosofia a laissez-faire e partidocracia da coalizão dos fascistas, tipica usança fne!
típica
e isso é que importa, claro!
Importa, fiquei traumatizado na infância com os “koniec’s”.
Parece-me mesmo uma coisa em rococó em palavras ocas sem nexo, fartei-me de rir com o pretensiosismo de tentar passar de pseudo poeta.
É curiosa a escolha do intelectual d’outros.
Curiosa a intelectualidade sobranceira e luminosamente ofuscante do pretexto feito argumento – recuso-me construir muros democraticamente imperialistas para os pretextais. Ou purgas.
Suponho que tal me distinga do padrão soviético requentado e que impeça que se queime qualquer livro.
Seja como for: a minha poesia não te pertence, era só o que faltava se eu tivesse que responder perante comissários de estética, muito menos de senso.
já agora – que ficaste preso pelo assunto
direi que não me encontrarei
contigo
na tua particular prisão
e estarei indisponível para rezas e ladainhas
previamente apagadas
Amen…
Mais um acordo?