Professores para quê? – Maria Helena Damião

Professores para quê?

Face à manifesta desvalorização da escola, que redunda numa séria tentativa de a dissolver com tudo o que lhe dá forma e sentido, justifica-se plenamente a pergunta que o filósofo Georges Gusdorf usou como título do seu livro de 1963.

Não é que nós queremos nos livrar dos professores, de maneira alguma. É criar uma relação diferente entre alunos e professores, uma espécie de parceria.” D. Albury, 2015.[1]

Aos professores-pessoas caberá um trabalho de bastidores como ajustar os equipamentos, gerir problemas de disciplina e dar apoio pontual a alunos.” A. Seldon, 2018.[2]

Um corpo docente reduzido, singular e bem treinado continua a projetar atividades de aprendizagem que podem ser implementadas e monitorizadas por robôs educacionais e outros funcionários (…) ou diretamente por software educacional.” OCDE, 2021.[3]

Nestas declarações – respetivamente, do diretor de uma empresa social que tem atividades educativas, de um académico das áreas da história e da educação, e de uma organização supranacional com enorme protagonismo na educação – percebe-se uma convergência em vários aspetos: para fazer funcionar os sistemas de ensino, que se querem em rápida mudança, continuam a ser precisos professores, mas em menor número; diversas funções destes profissionais são atribuídas a outros não credenciados e a aparelhos tecnológicos; aos professores cabem sobretudo tarefas de gestão das condições de aprendizagem, sendo  a sua relação com os alunos transformada.

Como compreender, então, as seguintes declarações, que se afiguram de interpretação contrária?

Os professores desempenham um papel central no acesso universal a uma educação de alta qualidade e equitativa para todos (…) são o fator que mais influencia o desempenho e a aprendizagem dos alunos.” UNESCO, 2020[4].

“Os professores são o fator mais importante na escola quando se trata de aprendizagem.” OCDE/UNESCO, 2021.[5]

As dúvidas adensam-se ao olhar para o “inevitável” projeto global de transição digital:

As máquinas ‘inteligentes’, escrupulosamente programadas, serão inspiradoras, não terão quaisquer falhas nos conteúdos a ensinar, usarão as abordagens pedagógicas eficazes, desafiarão os alunos, serão pacientes com eles e administrar-lhes-ão o reforço no momento certo. Também se adaptarão às suas particularidades e proporcionar-lhes-ão um progresso individualizado, seguindo o seu ritmo de aprendizagem. Serão elas que abrirão as portas do conhecimento às novas gerações”. A. Seldon, 2017 [6].

Todas estas citações são posteriores a 2015, ano em que a ONU publicou a “Agenda 2030”, documento que a OCDE diz ter tomado como base para construir o “Modelo Bússola de Aprendizagem”, que apresenta como “humanista” e a que tem dado redobrado impulso desde 2020.

Esta organização alega urgência em transformar a educação para se alcançar o há muito almejado “bem-estar” pessoal e social. Tendo declarado a pandemia da Covid-19 como a “grande oportunidade” para tanto, entendeu ser a “disrupção” o caminho a seguir e a “ubiquidade” a abordagem a privilegiar. Reafirma que, com as tecnologias digitais, a informação está ao alcance de todos, em todo o lado, a todo o momento, pelo que a aprendizagem de tipo escolar, antes confinada à escola, dispensa-a em numerosas situações, ficando, assim, dispensada a interação direta professor-alunos. Em concreto, colocando a tónica na aprendizagem, alia à vertente formal as vertentes informal e não formal, podendo o contexto ser escolar ou não escolar. Os alunos solicitarão apoio de qualquer agente – professor ou não – que se lhe afigure ser uma ajuda para alcançar as “competências” inscritas na sua “bússola” personalizada. Quais navegantes, terão nesta “metáfora” a ferramenta ideal para encontrar o seu caminho próprio num mundo cada vez mais complexo, incerto e volátil.

Face à manifesta desvalorização da escola, que redunda numa séria tentativa de a dissolver com tudo o que lhe dá forma e sentido, justifica-se plenamente a pergunta que o filósofo francês Georges Gusdorf (1912-2000) usou como título do seu livro de 1963: “professores para quê?”[7]. O essencial da sua resposta, tão extensa quão profunda, encontra-se no Capítulo 1: O ensino, o saber e o reconhecimento (páginas 13 a 46).

Contestando os desígnios de uma “pedagogia de trazer por casa”, cujo centro é a tecnocracia da eficácia, marca dos nossos tempos, relembra que toda a educação “prepara para a existência”. Este princípio tem de estar na escola, “lugar privilegiado de civilização”, que poderá levar cada aluno a “alargar e desenvolver o espaço mental”.

Por isso, “o ensino é sempre mais do que o ensino (…) em cada situação particular, ultrapassa em muito os limites dessa situação, para pôr em causa a existência pessoal no seu conjunto”. Longe de estar cientificamente explicado e de ser operacionalizado fora do humano, há tanto nele de conhecido como de desconhecido, de possibilidade como de impossibilidade: “o mistério pedagógico nimba o nascimento de um espírito, a vinda de um espírito ao mundo e a si próprio”; “se cada vida a si mesma se pertence, como transmitir algo de uma existência para outra?”.

Neste reconhecimento, o filósofo francês recusa a redução do professor a “uma espécie de figurante. Na melhor das hipóteses, um medianeiro”. Ele “sabe-se e quer-se diferente de todos os outros que perseguem interesses financeiros e vantagens pessoais”, pois cabe-lhe dar “forma humana” ao conhecimento, procurando “libertar em cada um o pleno exercício da inteligência. Na “odisseia de cada consciência”, o professor potencia o “diálogo aventuroso”: ensina alguma coisa para os alunos aprenderem alguma coisa. A “graça do encontro” escolar não acontece em mais lado nenhum nem em nenhuma outra relação, mas não é esta consciência que a torna segura:

“Pode substituir-se o professor por um livro, um posto radiofónico, um megafone, e não faltam tentativas nesse sentido. No limite, todas as crianças (…) podiam receber, em casa, o ensino de um só e único professor (…). Pode ver-se a enorme vantagem que este sistema ofereceria do ponto de vista financeiro: acabavam-se as escolas, as turmas, os milhares de funcionários [bastaria] uma pequena equipe de instrutores”.

Gusdorf discute nos restantes capítulos esta afirmação que, apesar das suas quase seis décadas, é próxima daquelas com que abri o texto. Então, responde à pergunta que formulou: precisamos de professores porque eles são “os guardiões da esperança humana”.

Face à sistemática e sofisticada sedução discursiva que faz desviar esta consciência, insistir nela é voltar à essência da profissão

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9 comentários

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    • Nero on 11 de Junho de 2021 at 20:09
    • Responder

    Na mouche!
    Mas os trauliteiros do digitalismo continuarão na sua senda como traidores da espécie humana e da classe profissional dos professores.
    É de facto nojento aquilo que estamos a deixar acontecer, ainda por cima com o grande patrocínio de muitos colegas que na tentativa de parecerem bons, modernos e cosmopolitas cavam o buraco para enterrar o resultados do genocídio docente que se avizinha sem terem qualquer noção, qualquer consciência que se estão a suicidar. Um autismo atroz!
    Tanto dá vontade de morrer a rir como morrer a chorar.

  1. Nero, tão certeiro e verdadeiro!
    É impressionante a forma como editoras, associações, centros de formação andam a dar para esse peditório. É escandaloso mesmo!
    E também há para aí uns garnizés benticos aparecidos na pandemia que sem nunca terem dado uma aula vem defender esse Graal. Nem barbas têm no rosto, mas sacam dos títulos das ciências da educação. Tão bem pagos que são! Em algumas editoras é flagrante esta colagem à custa de satisfação de desejos dos pais da flexibilização e inclusão.

  2. Bom dia, Professora Doutora Helena Damião
    Foi com muito gosto que li o seu texto, ainda que o assunto seja de uma gravidade extrema. Como sempre, o texto é extremamente assertivo e vai ao encontro do que, em nome de uma pandemia, se prepara: um caminho para a tecnologia, que , temo, não terá retorno…
    Um grande beijinho à professora que tanto me ensinou de forma presencial.
    Da sua 2aluna” de mestrado,
    Dina

    • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 12 de Junho de 2021 at 14:40
    • Responder

    Na prática este texto resume-se a paleio de nada.

    1. Explique / fundamente.

        • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 12 de Junho de 2021 at 23:49
        • Responder

        Quem é você para exigir explicação?
        Você cala a boca e mais nada!

          • CIF on 13 de Junho de 2021 at 19:26

          Que Anacleto quadrado!

  3. É professor?
    É uma pessoa?

    • Caos on 15 de Junho de 2021 at 13:04
    • Responder

    No dia em que a transmissão de valores que dão forma à humanidade for feita por máquinas, ou tendo as máquinas por veiculo destes valores é o dia em que morre a humanidade.
    É incrível como gente que reflete sobre este assunto não entenda isto.
    Nós não nascemos humanos, nascemos potencialmente humanos. A humanidade depende da educação e educação implica proximidade contacto, empatia…

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