A grande fixação do momento – Santana Castilho

A grande fixação do momento é quantificar as perdas educativas provocadas pelos confinamentos e desenhar programas para as recuperar. Como se objectivos irrealistas de ocasião removessem erros de décadas, simplesmente agora ampliados. Tanto alarme catastrofista (houve quem clamasse por um “Plano Marshall” para a Educação) pode terminar no que já vimos: um aproveitamento para impor enxertos que, de outro modo, não passariam.

Mais do que programas de recuperação de aprendizagens, precisamos de clarividência para preparar o futuro da Educação, instrumento vital para promover o acesso a melhores condições de saúde, empregabilidade e desenvolvimento económico e social. Todos os programas servidos por lindos enquadramentos teóricos, de quem vive afastado do dia-a-dia das pessoas, resultarão abaixo de zero, se o desemprego galopar e as famílias prosseguirem na rota do empobrecimento provocado pela interdição do direito ao trabalho. Mais do que economistas prescientes, necessitamos de pedagogos e políticos conscientes, que não nos amarrem a generalizações e nos libertem dos aspirantes a tirano

O impacto nas aprendizagens, pela pluralidade de situações contextuais, é extremamente diferenciado de aluno para aluno, de nível de ensino para nível de ensino e de escola para escola, pelo que deviam ser as escolas e os seus professores a identificar as necessidades e definir as metodologias de actuação, cabendo ao ministério, apenas, garantir os recursos (mais técnicos e tutores que apoiem os alunos mais vulneráveis, um regime de incentivos a professores deslocados, liberdade para diminuir a dimensão de algumas turmas, mais psicólogos e mais meios e materiais de ensino).

Ir por aqui seria optar pelo que comprovadamente funciona, em detrimento de experimentalismos duvidosos. Ir por aqui seria optar pela rentabilização do tempo de ensino, em detrimento de mais tempo de ensino. O programa de recuperação de que o país carece é um programa de reforço da confiança nos professores e de estabilização das competências emocionais de todos. Sim, porque deveríamos estar antes centrados em encontrar meios para recuperar alguma felicidade e optimismo perdidos ou compreender como, neste período, a propaganda cavalgou o medo e prejudicou a adopção de políticas públicas norteadas pela racionalidade e pelo debate sério e desapaixonado.

Não foi a pandemia que destruiu o Ensino de Português no Estrangeiro (hoje com 45% da expressão que tinha em 2010), assente na contratação precária de professores e onde os filhos dos emigrantes, ao arrepio do que a Constituição estabelece, pagam para aprender Português, ensinado não como língua de origem mas como língua estrangeira, enquanto os alunos estrangeiros nada pagam.

Foi na peugada do miserável Acordo Ortográfico, que não na peugada da pandemia, que assistimos à gradual desfiguração da nossa língua. Os padrões de exigência relativamente ao uso do português, escrito e falado, foram diminuindo. Aumentou o número dos que escrevem mal e cometem erros ortográficos e gramaticais inaceitáveis. Sinal dos tempos, e à semelhança do Reino Unido, não tardarão a aparecer recomendações para, em nome da inclusão e da igualdade de acesso, não penalizar essa ignorância. Numa palavra, uma verdadeira ideologia de falsa inclusão tem vindo, subliminarmente, afirmando a exigência e o rigor como elitistas e a lassidão e a mediocridade como igualitários.

A degradação das políticas de Educação na vigência dos governos de António Costa é um facto. A Educação perdeu relevância social e vai perdendo os seus melhores quadros, desmotivados, desiludidos, descrentes, cansados. A manifesta falta de vontade de António Costa para reverter políticas anteriores, melhor dizendo, o seu atávico apego ao banditismo administrativo com que Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues começaram a destruir a vida dos professores, levará o país a confrontar-se, a breve trecho, com a falta de docentes para garantir a escolaridade obrigatória universal. Um país com a sua Educação em declínio compromete o futuro e não se regenera repetindo os mesmos rituais, por mais digitalizados que sejam, sob os mesmos comandos incapazes. Em tempos de higienizações constantes, o Ministério da Educação carecia de uma, radical, que varresse políticas perniciosas e chefias sem préstimo.

Público

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9 comentários

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    • Phill on 28 de Abril de 2021 at 8:28
    • Responder

    Texto conservador e ultrapassado. Educar não é apontar e punir alunos por supostos erros ortográficos (ou de outra ordem), mas promover o pensamento, a reflexão e a criação.

    Punir não educa nem ensina ninguém, paralisa. No caso do uso da língua portuguesa, há diversos registos, adequados a diversas situações. A escola deve refletir sobre esses usos e contextos, possibilitando a descoberta.

      • Alecrom on 28 de Abril de 2021 at 13:58
      • Responder

      Tens de ler o texto mais umas vezes.
      Vais ver que acabas por conseguir entender o que está lá escrito.

      • Rui Manuel Fernandes Ferreira on 28 de Abril de 2021 at 21:03
      • Responder

      Promover o pensamento, a reflexão e a criação em indivíduos que não conseguem sequer interpretar?
      Punir não educa nem ensina ninguém, paralisa? Faz um filho, educa-o nesses termos e diz-me o que encontras no seu décimo oitavo aniversário.

      • EUZINHO on 28 de Abril de 2021 at 23:04
      • Responder

      Parece que o caríssimo amigo ou não entendeu o texto, ou não quis entender?! Se calhar tem algum amargo de boca com o Dr. Castilho? Algumas verdades não lhe calham? É um saudoso da Drª Lurdes Rodrigues? Quanto à sua concepção de educação ”bué ” de progressista fique lá com ela, porque com as ideias do Sr. Secretário de Estado, Costa, vão destruindo do que de digno restava da educação em Poertugal!

      • Não me lixes on 28 de Abril de 2021 at 23:09
      • Responder

      e os passarinhos chilreiam , e a água bota pura das fontes… e a Humanidade é intrinsecamene boa e a sociedade e o Lobo Mau corrompem-na… Para acabar com essa ideia apatetada do mundo sugiro-lhe uma comissão em África , ou no Médio Oriente, com uma força militar de élite… para ver o que é o Mundo! Já agora mande para lá os meninos ensinados com a sua pegagogia …

      • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 29 de Abril de 2021 at 2:35
      • Responder

      Pois, Phill, as tuas dificuldades são enormes. Não consegues interpretar um texto. Só lá lês o que queres ler não o que o autor lá escreveu.
      Contudo, é sabido que Santana sempre foi uma rês manhosa e sem crédito. Estais um para o outro.

    • Alecrom on 28 de Abril de 2021 at 13:56
    • Responder

    “Numa palavra, uma verdadeira ideologia de falsa inclusão tem vindo, subliminarmente, afirmando a exigência e o rigor como elitistas e a lassidão e a mediocridade como igualitários”.
    👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏

    • Luluzinha! on 28 de Abril de 2021 at 14:09
    • Responder

    Numa palavra: Excelente!
    Parabéns perla lucidez e pela objetividade.

    • João Santos on 28 de Abril de 2021 at 23:57
    • Responder

    Parabéns Doutor Castilho. É de alguém com a visão e a lucidez do Senhor que este País necessita. Obrigado. Se me é permitido gostaria de partilhar este seu pensamento.

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