Professor ou Escravo em tempo de Coronavírus?
Hoje, ao fim de vários dias em que estive sem tempo para a minha vida pessoal, decidi retirar ao trabalho o meu direito a ser pessoa, a ser cidadão, a deixar de estar virtualmente confinado. É que, para além de reuniões e mais reuniões online (para conseguirmos levar para diante a função docente), em que vemos (ou simplesmente, ouvimos a voz) alguns dos nossos colegas de trabalho, já nem virtualmente temos tempo, nem para a família, nem para as relações sociais ainda que virtuais. E, fechados nas nossas casas, ainda temos por esse país (de estúpidos) quem tenha a LATA de dizer e escrever nas redes sociais, que estamos em casa sem nada fazer e a receber.
Não… Os professores e professoras, em tempo de confinamento, é ser Escravo do Estado e das Tecnologias.
Escravo de um Estado que não equipou as escolas para poderem ter formado os alunos no uso destas ferramentas mas que exige agora aos docentes que, à distância e confinados, consigam o que é uma tarefa herculeana, ou mesmo babilónica: colocar e atender a todos os alunos, conseguindo que eles estejam conectados quando isso depende, na maioria dos casos, das famílias, da sua disponibilidade para atender aos filhos porque nem todos estão em casa sem trabalho. Há pais que, antes do novo coronavírus e deste confinamento, já trabalhavam em sistema de teletrabalho e que estão agora com sobrecarga de trabalho porque, à parte o seu trabalho (muitas vezes incrementado também) têm os filhos todo o dia em casa…
Será que não há limites para as exigências (quantas delas absurdas)?
Será que até o bom senso se perdeu? Será que se esqueceram que, também muitos professores têm em casa pessoas idosas (ou até, já são eles próprios idosos!) e crianças menores para cuidar, ou filhos a frequentarem a escola virtual e que, obviamente, necessitam também da atenção e apoio dos pais (professoras e professores) para os ajudarem a realizar os trabalhos no computador que, muitas vezes têm de partilhar…
Ou será que o Estado, com os impostos dos portugueses, andou anos e anos a injectar dinheiro para salvar “empresas” (bancos, como todos sabemos!) e não teve verbas para equipar as escolas com os necessários recursos e agora quer exigir que as famílias tenham recursos para os seus filhos poderem continuar a ter aulas, atribuindo aos professores mais essa tarefa de controlo da problemática das famílias que deveria ser das assistentes sociais e das autarquias?
Mas… afinal, que pensam? Que os professores são máquinas, são robôs? Ou pensam que os professores e professoras perderam o direito à condição humana para, magicamente, se transformaram em super-heróis? Não. Esses, só com muitos truques se conseguem no cinema. na realidade, já não há, há muito tempo, super-heróis.
Em que pensam transformar a profissão? Numa esponja que absorve, de uma só vez e numa só pessoa, a função que é da responsabilidade de uma multiplicidade de instituições?
Será que pensam que a panaceia das tecnologias pode fabricar, de um momento para o outro, super-homens e super-mulheres?
Não. Não o somos! E não se aguentará por muitos dias uma dedicação superior a 20 horas de trabalho diário (quando não mais!) para dar resposta a tudo o que se pensou que os super-heróis, agarrados a um teclado, diante de um ecrã de computador, produzindo recursos — como se aos médicos e enfermeiros lhes fosse exigido que produzissem medicamentos e utensílios que usam na sua função — horas e horas a fio, como se de loucos se tratasse.
A continuar assim, não tenho dúvida de que a sociedade terá não apenas a falta de professores mas antes, centenas e centenas dos que exercem a entrar em stress pós-traumático (porque, enquanto noutros países se relaxa pois vai fazer falta muita energia para retomar, por cá, pressiona-se, e pressiona-se, querendo que sejamos tudo: editores, produtores, criadores, programadores… enfim… sim está a provocar traumas) processo de descompensação cerebral… Em breve vai-se o vírus e teremos um grande problema de burnout nos cérebros dos professores que será bem mais difícil de vencer.
Que pensam? Que somos capazes de manter o mesmo número de alunos para atender de forma virtual como se estivéssemos nas salas de aula? Pensam que o professor de vai ser, ao mesmo tempo, produtor, realizador, criador e editor de conteúdos? Será que quererão dizer às editoras que podem fechar todas pois… estes super-homens e super-mulheres os vão substituir a todos? Será que vão querer que os professores desistam de ter vida para simplesmente se manterem vivos… Que vão aceitar ter uma vida sem direito a descanso, sem direito a família… sempre com os neurónios a funcionar… até ao desenlace final: a perda da vida.
Pergunta final? Onde anda o Ministro? Ora, meus caros, se a RTP, a SIC e a TVI, com o último grito da tecnologias comunicacional, quando faz “Em Directo” conferências online frequentemente apresenta problemas tecnológicos de que sistematicamente se desculpam (como todos já nos fartamos de assistir quando estão em directo) não conseguindo estabelecer uma comunicação eficaz entre os interlocutores (nenhum deles, de classes sociais desfavorecidas como os que estão nas escolas portuguesas onde milhares de famílias vivem no limiar de pobreza) imaginem só como podem os professores estabelecer uma comunicação eficaz para realizar aprendizagens online com 26 ou mais alunos. Enfim… E nenhum dos nossos alunos dispõe dos recursos dos ditos interlocutores…
Por último, gostaria que reflectisse sobre isto: se as tecnologias permitem a aprendizagem, porque não continuaram as sessões do parlamento a partir de suas casas, com os recursos pagos pelos próprios deputados, tal como exigiram aos professores, tendo muitos deles pago com os seus salários os meios de produção que devem ser, sempre, da responsabilidade da entidade patronal. Depois de tanta paulada na carreira e de estarmos ainda hoje com salários equivalentes aos de há mais de 10 anos, Por que pagamos para trabalhar? Alguém me explica outro motivo que não seja “porque somos parvos”?
Por último, pergunta-se: Por que só uma pequena percentagem de deputados está a exercer funções? Por que não fazem reuniões online todos os deputados? Por que não continuam a trabalhar e a produzir




20 comentários
Passar directamente para o formulário dos comentários,
Concordo, depois de tanta paulada, virem com afagos e elogios para disfarçar a insuficiência do sistema educacional sobretudo na vertente tecnológica.
Será que a Malvina Sousa concordará?
Como se diz em Trás os Montes, bem burro foste!
Eu continuo a não perceber. Só por não ter de aturar os grunhos e mal educados, e o seus pais incultos, invejosos e também os verdadeiros grunhos, nunca houve melhor do que este Ensino à Distancia. Oxalá não acabe tao depressa e o Costa mantenha isto muito tempo.
Eu não iria tão longe. Não estará na hora de rever a sua vocação profissional?
Não estará na hora da colega começar a dar umas aulas nos vocacionais, profissionais e CEF?
Porquê? Aturar a grunhice alheia faz parte das atribuições de um professor?
Não, Luluzinha. Desculpe, mas agora já não vou rever a profissão, não!
Falta-me 1 ano para a aposentação. Por isso, já não vai valer a pena.
Mas foi uma pena nao ter nascido muito mais tarde, porque com o E@D isto vai ser mais fácil no futuro e não se aturam os seus amigos grunhos!
Oh, Luluzinha (acho que o nome lhe assenta mesmo bem, é mesmo uma Luluzinha, que apenas conhece a Floribela :))
Talvez não fosse pior, no seu caso, investir um bocadinho mais na profissão, não acha?! Os alunos merecem professores com vistas largas, o que não parece ser o seu caso…
“porque somos parvos”
Ainda pensei que estivesse a enlouquecer. Até que enfim, alguém que pense exactamente aquilo que eu sinto.
Parabéns pelo texto.
Não liguem à Luluzinha, o papel dela é mesmo esse, defender o sistema. É apenas uma personagem.
Nota-se que é um prof velho…
sou prof… mas sou novo… e tenho filhos pequenos em casa…
quanto ao trabalho… é a vida… trabalho as horas que me pagam… e mais nada… não há cá noitadas nem coisas do género.
Não percebo nas escolas… inventam tarefas… e os colegas fazem.. não sei com que qualidade… mas já dizia a minha mãezinha… depressa e bem…. ninguém…
Por isso… faço o que posso e com um ordenado de mmmmmmmm……
Não sei se sabe mas TODOS os prof’s começaram com um ordenado de mmmmmm….. como diz. E andaram por esse país fora anos a fio ( a maioria). Tiveram filhos pequenos. Comeram o pão que o diabo amassou. É preciso uma grande dose de amor à profissão para aguentar. Não parece ser o seu caso. Mude de profissão enquanto pode. É que se é um professor novo vai ganhar mal durante muitos anos, vai ter muitas tarefas inventadas para fazer e vai desiludir-se muitas vezes. É a vida…
Às vezes penso que este blog foi tomado de assalto por imbecis que se fazem passar por professores. É miserável aquilo que alguns aqui carpem. Enquanto pai de dois alunos, tenho-lhe a dizer que grunho, mal educado, inculto e invejoso devem ser os seus filhos e netos. Tenha decoro, dê-se ao respeito se quer ser respeitado!
Pronto, Manuel, ganhaste! Podes levar a taça. Nao quero mais complicação, nem com grunhos nem sem grunhos.
Dou-me por vencido, humildemende vencido! Parabéns, campeão@
Concordo e aplaudo o discurso! Nunca gizaram tanto com uma classe como a nossa!! Temos, de facto, uma enorme capacidade de adaptação, pois somos a única profissão q aceita as alterações às leis, as experiências e nada diz ou faz!!! Somos mal pagos, mal tratados e estanos hiper, super esgitados! Respondemos com prontidão a esta nova situação, mas, tal como o colega frisou, ninguém nos questionou ou pensou q, se o ensino à distância existe, é pq nós o permitimos. Permitimos q entrem em nossa casa, já não temos privacidade, somos solicitados a toda a hora, trabalhamos horas a fio, num stress avassalador. Sim, deixamos de ter vida, não temos tempo paea nós e para os nossos. Já fui parar às urgências e, passado 3 dias, ao médico com uma infecção urinária! O meu corpo já está a crashar. E qd o nosso material (telemóvel, computador, etc) crashar, quem pagará?
Oh! Concorda com tudo? Que bom!
E aplaude?
Mas aplaude porquê? Por perceber que o seu corpo está nas últimas, a ‘crashar’, como diz?
E quem a irá valer? Já pensou nisso?
A colega referiu uma série de argumentos válidos para mudar de atitude!
Se quer que lhe diga, não tenho pena de si, nem de pessoas que se limitam a lamentos e por aí se ficam…
Será uma característica da Condição Feminina portuguesa, que ainda não se emancipou?
Olhe que nem fui eu que disse isto, mas uma Inspectora-chefe, formadora de inspectores, que me disse sem rodeios que a classe docente em Portugal é um reduto maioritariamente feminino e, por isso mesmo, está refém da condição feminina vigente. Mulheres mansas, resignadas, sofredoras, muito trabalhadoras, com espírito missionário, mas, no reverso, intriguistas, despeitadas, invejosas, tagarelas, superficiais, e que tentam auto-afirmar-se pelo trabalho, enganando-se a si próprias e destruindo a própria vida pessoal e por vezes a dos outros.
Os sindicatos aproveitam-se disso.
O Ministério da Educação aproveita-se disso para impor mais e mais trabalho até ao grau da insanidade.
Na adversidade, e se a situação não tiver remédio nem solução por falta de aliados, que nos contenhamos de expor de forma incontida o sofrimento por que passamos.
Fazer isso é evidenciar respeito por si próprio e dignidade pessoal.
Foram os próprios professores que permitiram serem tratados como escravos. Aceitam tudo, não têm capacidade critica e são mais papistas que o papa!
No texto está tudo dito, nestas simples palavras: “porque somos parvos”.
Os professores gostam de levar e calar. Como é possível terem uma memória tão curta.
Quando há professores mais velhos que dizem: “ah e tal eu já sofri imenso nesta profissão, fiz imensos kms, vivi na precariedade…” significa que os mais novos também tenham de passar pelo mesmo? Mentes pequenas, realmente.
Não, na verdade não precisam de passar pelo mesmo. Cabe-lhes pois lutar e abandonar o lamento. A vida infelizmente não é feita de facilidades. Em nenhuma profissão.
Isso não é um exclusivo dos professores, Maria. Parece-me mais um retrato de Portugal.
Já não tenho paciência para condescender com lamentos de colegas que dizem ter muito trabalho (mas fazem tudo diligentemente porque sim), e outras sofridas que se se sentiam em ansiedade por tanta burocracia mas que se acobardam e resignam quando tiveram oportunidades de protestar na altura certa.
Não será certamente o sindicato que as irá valer, pois esse tema não está na agenda dessas instituições.
O texto publicado é tão-somente um mero artigo de opinião, posto a publicar num jornal de pequena tiragem, e que, daqui a uma semana, ninguém o irá lembrar.
Não são estes pequenos textos que irão fazer uma revolução.
Estes são meros rabiscos feitos por escravos do Sistema, incapazes de mais do que… meros lamentos.
Desculpem o peu cinismo, mas já não tenho pachorra para choradinhos de vão de escada.