Maria, a tua aluna do peito.

 

Quando Maria nasceu, era uma criança fofinha numa família de gente fofinha e jovem, muito jovem.

Maria cresceu com a tia, seus pais deixaram-na lá um dia para irem a uma festa no bairro alto e… nunca mais voltaram.

Maria cresceu no meio dos seus 7 primos, correndo e saltando, pelas ruas sem asfalto ou empedrado do seu bairro na periferia da capital. Cedo se deu conta que não podia aspirar muito mais do que arroz com feijão duas vezes por dia, as prendas que recebia na escola por altura do Natal e um chocolate a 1 de junho. Maria degenerou.

Na procura por mais alguma coisa na vida, Maria começou por meter a mão na carteira da tia e tirar uns trocos para pastilhas. Na escola foi enfiando uma mão ou outra nesta e naquela mochila à procura de uns lápis de cor mais coloridos ou, de um lanche mais adocicado que o seu. Vai não vai, começou a procurar uns trocos, ou qualquer coisa que pudesse vender lá no bairro. Maria nunca foi apanhada, tinha a esperteza do desenrasque (não fui eu, foi o do lado).

Na escola Maria tinha o esquema perfeito, tinha uma ”mula”.

José, ou Zezito para todos, era uma criança nascida num ambiente de álcool. A mãe acompanhava o pai num e noutro copo quando estavam juntos, quando não estavam bebiam sozinhos. José nasceu com síndrome alcoólico permanecendo inocente nos atos e parco nas palavras. Zezito era a “mula” perfeita.

Maria metia a mão em mochila alheia e descarregava na mochila do Zezito, que carregava o produto até ao bairro. Zezito gostava de dar uns chutos na bola antes de ir para casa depois das aulas. Era nessa altura que Maria recuperava o produto, se fosse dia de chuva pedia-lhe boleia no guarda-chuva e pelo caminho, entre uma conversa e outra, conseguia o que queria. Maria era uma rapariga de recursos, nunca deixava fugir o que julgava ser seu.

Maria foi crescendo e as suas necessidades também. Já não se contentava comuns trocos, já não lidava com crianças, a inocência das suas vítimas foi substituída pelo medo. Aos 10 anos arrancava telemóveis das mãos das donas com o brandir de um canivete. Aos 11 anos, esgueirava-se pelas janelas mais baixas dos prédios “sacando” e vendendo tudo o que conseguia. Maria tinha necessidade de mais e mais dinheiro, Maria sofria de necessidade.

Aos 12 anos, Maria era uma necessitada. Nunca tinha tido nada de seu, mas agora tinha aquela necessidade que a fazia feliz.

Na escola já todos sabiam quem era Maria, mas por mais que tentassem, quisessem, castigassem não conseguiram mudar Maria, era tarde demais, perdoaram vezes a mais e Maria perdeu o respeito. Batia, insultava, agredia, destruía… Em casa não estava ninguém que se interessasse.

Um dia ao sair da escola, Maria sentiu uma incontrolável vontade de comer uma bola de berlim com creme e de satisfazer a necessidade. Maria entrou na pastelaria de canivete em riste, ameaçou o empregado de balcão e exigiu-lhe uma bola de Berlim para comer no momento, duas para levar e comer mais tarde, e, está claro, o dinheiro da caixa. Naquele momento, Maria sentiu-se no auge, momento breve. Maria foi agarrada, manietada e, até há quem diga que foi vítima de agressão, por dois clientes que, na mesa imediatamente atrás de Maria, bebiam uma “mine” e comiam uma nata. Maria foi levada para a esquadra de onde seguiu para casa onde a tia já não a queria. Maria foi institucionalizada. Maria teria, agora, tempo e calma, para poder aprender a ser aquilo que queria ser, a líder.

Que futuro teve Maria? Não sei. Maria tem 12 anos, cadastro, fama, “respeito” de quem não respeita, tem um futuro risonho à sua frente. A Maria só mudará quando quiser mudar, não quando a quiserem mudar.

Quantas Marias está a sociedade a produzir e a despejar nas escolas?

PS: qualquer semelhança com a realidade será sempre por defeito e nunca por excesso.

 

 

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10 comentários

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    • João Pedro on 29 de Dezembro de 2019 at 12:45
    • Responder

    Conheço muitas Marias e Zés que cresceram sem pais. Que nunca foram amados/as. Que nunca tiveram um beijo de boa-noite. E a sociedade nunca se preocupou com eles/as. E Escola não faz parte da sociedade? Que responsabilidade tem a Escola para com estas crianças e jovens? E quantos a Escola ajudou a estigmatizar?
    Todos temos de olhar para o nosso umbigo.

    • Falcão on 29 de Dezembro de 2019 at 14:24
    • Responder

    Quando a tua mulher, ou a tua filha, ou a tua irmã, professoras, forem barbaramente agredidas por uma dessas Marias, experimenta voltar a escrever esse comentário. Até lá, pensa duas vezes antes de escreveres o que as Marias deste país mais querem ouvir! É que o problema está muito bem explicado no texto: a Maria foi sempre perdoada (pela escola, pela sociedade), vezes demais, até ser tarde demais… a Maria devia ter sido ajudada na hora certa a reconhecer o seu erro e levada a corrigir a sua atitude, com o castigo adequado, sempre que errasse. A fome e o desamor não podem ser desculpas para o roubo e a agressão. Até porque ninguém morre de fome neste país. Em nenhuma escola se nega alimento a uma criança… e se a Maria foi institucionalizada, tem responsáveis que respondem por ela e devem cuidar dela, começando por lhe dar educação, valores e princípios. Sim, o Estado falha, falha com estes jovens, com a escola, com os professores, com as famílias, mas isso não pode ser sempre a desculpa para tudo! Um crime é sempre um crime e deve ser punido como tal! Na hora certa e do modo mais adequado! Para evitar que as pequenas Marias problemáticas se transformem em monstros cruéis e insensíveis!

    • João Pedro on 29 de Dezembro de 2019 at 17:09
    • Responder

    Falcão lamento ter metido a familia na discussão. Tu fazes parte da sociedade! Apenas afirmei que a Escola faz parte da sociedade. E sim, sou professor e sei do que falo.

      • Falcão on 30 de Dezembro de 2019 at 2:12
      • Responder

      João Pedro,

      Lamentas o quê? Que eu envolva a família? Pois claro que lamentas!!! E sabes porquê? Porque não foi a tua mulher, ou alguém da tua família a ser barbaramente agredido, quando dava uma aula, em plena escola pública. Se tivesse sido (como aconteceu com uma familiar minha – e sim, eu também sou professor) gostaria de te ver a escrever exatamente o mesmo que escreveste no primeiro comentário. E casos destes acontecem com muito mais frequência, nas escolas portuguesas, do que se sabe, se conta ou se admite! É realmente muito fácil vir pregar moralidade e culpar a sociedade e dizer que a sociedade sou eu e és tu, e bla bla bla, desculpando sempre o mau comportamento dos alunos que acontece, em grande medida, porque os regulamentos internos das escolas e o Estatuto do Aluno não passam de letra morta. Na maioria dos casos, os alunos vão à direção e nem tremem, saem de lá com um sermãozito de 2 minutos, um “peçam lá desculpa e sejam amiguinhos” e, de quando em vez, com uma vassoura na mão para irem varrer uma sala de aula ou algo semelhante. Não brinquem comigo! Bem diz o povo: de pequenino é que se torce o pepino!!! Mas o João Pedro acha que é tudo falta de amor! Vai lá tu dar-lhes amor no dia em que te agredirem violentamente! A ti ou a alguém da tua família! Anda, força nisso! E aproveita e tira uma selfie com a besta, com um emoji de coração a enlaçar-vos! Depois envia para o professor Marcelo que ainda te condecora com uma comenda qualquer! Quem sabe ganhas o título de professor do ano! Não, isto não é sarcasmo, é mesmo asco.

        • João Pedro on 30 de Dezembro de 2019 at 17:25
        • Responder

        Falcão não te agredi verbalmente. Não percebo o discurso cheio de ódio. Escrevi a minha opinião. Ou será que haverá apenas um lado nesta questão? Não tenho direito a opinião? Não é isso que tentas ensinar aos teus alunos? A respeitar o outro? Sem agredir? O que afirmo é que a Escola faz parte da sociedade. E tu fazes parte do Ministério da Educação. Tu fazes parte do sistema e nós todos somos o Estado. É muito fácil apontar, criticar, mas muito difícil fazer parte da solução. E não estou a apontar-te nada. Quanto às agressões condeno-as todas. E todas deveriam de ser crime publico. O que reafirmo é que há crianças e jovens mal amados. E para terminar esta discussão, que não leva a lado nenhum, há uma frase de Nelson Mandela que diz o seguinte: “Ninguém nasce odiando o outro pela cor de sua pele, ou pela sua origem, ou sua religião. Para odiar as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar”.
        Um Bom Ano para ti.

          • Falcão on 30 de Dezembro de 2019 at 20:06

          João Pedro,
          Já não tenho idade para discursos redondinhos, para o politicamente correto, e para a desculpabilização sistemática dos autores materiais de crimes, sejam eles quais forem. A menos que haja uma patologia grave, o aluno que rouba e agride, tem plena consciência do que está a fazer. E isso tem de ser corrigido e punido da forma adequada, no tempo certo, sem dar qualquer hipótese a que o aluno possa pensar que fez e nada de especial aconteceu, pelo que pode continuar a fazer!!! Fui claro? Outro ponto da discussão (que não nego) são as responsabilidades do Estado e ME, dos pais, da Escola e dos Professores. Cada um deve assumir as suas! Infelizmente isso não acontece de todo!!! Basta ver o silêncio do ME perante as agressões de que vários colegas têm sido alvos. Nesse sentido tenho de te dizer que não… eu NÃO sou o ME. Pelo menos NÃO este ME. O ME pode ser patrão, mas não visto a sua camisola. Visto a minha que é muito mais digna e nunca me esqueço, quando a tenho visto (por longas horas do dia) dos meus deveres profissionais e responsabilidades sociais! E disso não recebo lições de ninguém! Até hoje tenho visto que os professores são claramente os que menos falham nisto tudo. E, simultaneamente, os que mais torpedeados são pelos outros atores. Repito: o teu discurso fofinho e completamente desresponsabilizador e despenalizador do criminoso causa-me nojo. Não és tu enquanto pessoa, enquanto ser humano, mas sim esse tipo de discurso que se insere numa escola de pensamento que considero miserável e responsável pelo estado de coisas a que chegámos hoje. E é óbvio que tens todo o direito a ter a tua opinião e visão do problema. Mas eu tenho todo o direito também de reagir e ter também a minha opinião. Não gostei nada mesmo do que escreveste e exprimi a minha opinião. Que mantenho e reitero. Só quando passamos realmente pelas situações. mais graves é que podemos entender bem aquilo que tentei explicar. Sinceramente desejo que nunca tenhas de passar por isso.
          Um Bom Ano Novo também para ti!

    • Matilde on 30 de Dezembro de 2019 at 1:18
    • Responder

    E que culpa temos nós????
    Marginais sempre houve e haverá!!!!

    Já agora aproveito para vos contar uma história:
    conheci uma menina que foi retirada da família pelo tribunal com 2 anos de idade.A família que a acolheu e adoptou é excelente em todos os aspectos,deu-lhe uma educação que não podia ser melhor,deu-lhe carinho,oportunidades.A menina não quis prosseguir os estudos,fez o 9ºano com muita dificuldade pois odiava estudar.Actualmente é uma adulta estúpida e malcriada,não é marginal mas gostaria de ser;odeia regras..etc..etc.etc..
    De quem é a culpa?
    Não nos esqueçamos da componente genética..que é muito importante também..todo o potencial está lá..

    • Falcão on 30 de Dezembro de 2019 at 1:48
    • Responder

    Matilde,
    Concordo e subscrevo: também há Marias com pais equilibrados e que se preocuparam em dar educação e fizeram o melhor que puderam. Nalguns casos têm 2 filhos que acabam por ser pessoas completamente diferentes. É claro que há muito aqui de RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL nas escolhas e caminhos que se percorrem. Mas é muito mais fácil fazer como faz o João Pedro: desculpar as criancinhas porque nunca tiveram quem as amasse e culpar a sociedade. É o típico discurso de esquerda que, no fundo, defende que a culpa nunca é dos criminosos… há-de haver sempre uma razão ou um motivo extra indivíduo, o coitadinho, o pobrezinho injustiçado, aquele que todos estimagtizaram e por culpa da sociedade, se meteu por maus caminhos! Depois queixem-se que há muita violência na escola!

    • J.F. on 30 de Dezembro de 2019 at 2:39
    • Responder

    A 1ª responsabilidade é dos pais!!! A Constituição também lhes atribui deveres mas o seu absoluto e reiterado incumprimento NUNCA É PENALIZADO!!!

    A 2ª responsabilidade é da comunidade envolvente que conhecendo a situação, fingem não ver, não querem saber!

    A 3ª responsabilidade é das comissões de protecção de menores (que não tendo pessoal suficiente, calam-se e fingem trabalho…

    A 4ª responsabilidade pertence aos tribunais de menores que para além das péssimas decisões ( a “coisa do sangue” continua a ter um peso inenarrável) a própria legislação defende muito mais os pais e muito pouco as crianças…

    A 5ª e TRANSVERSAL a todas ( logo, talvez a 1ª) : ao ESTADO que não cria as condições suficientes e adequadas, ( em termos legislativos, institucionais e logísticos) com pessoal qualificado em diferentes áreas para que as crianças retiradas às famílias encontrem, de facto, um lugar seguro, de aprendizagem, de educação, de protecção e, se possível, de aconchego emocional!

    Já não há “PACHORRA” para a culpabilização da escola!!! Não sei como é na sua mas na “minha” mais é impossível! Não há recursos humanos, não há recursos especializados, não há meios, não há capacidade de resposta… Já agora , o ME está-se a “BORRIFAR”: em tempos e, de forma MUITO RESUMIDA, enquanto DT, com situações graves de delinquência, pré-delinquência e de uma cultura de bairro/ gang e incapacidade parental ( reconhecida pelos próprios) cheguei a reunir o CT com, parcelar e conjuntamente, com o ME, Comissão de Menores, Psicólogos, outros organismos do ME cheios de si sem nada de novo a dar à escola que já havia tentado de tudo, Direcção…
    Reuniões, reuniões, relatórios, mais relatórios…no final do ano a distinta lata de enviar tudo de novo… E, tendo sido enviado…NADA…, NADA…, NADA!!!!
    Creio que imaginarão, facilmente, o destino de muitos deles!!!

    Já agora, muitas denúncias partem das ESCOLAS!

    • Falcão on 30 de Dezembro de 2019 at 20:19
    • Responder

    J.F.
    Disseste tudo, e disseste tudo bem! Só acrescentaria, se me permites, uma 6ª responsabilidade: a dos ÓRGÃOS de GESTÃO das escolas, em particular Direções e Conselhos Gerais! Andam a fazer o quê? A dormir? Ou têm medo de ficar queimados junto do poder? Tenham a decência de se demitir se não são capazes de atacar a sério o problema! Mas como poderiam fazer mais, pode perguntar-se… e eu respondo: é muito fácil: é só entregar as chaves da escola ao ME com a demissão em bloco dos professores do CG e da Direção. A partir daí os professores recusam apresentar lista para o CG, o ME nomeia administrativamente e os professores voltam a demitir-se, apresentando publicamente as suas razões, nomeadamente o incumprimento das 5 outras responsabilidades elencadas pelo J.F. no seu texto! E acima de tudo não tenham MEDO! Para terminar e concluir quero só subscrever em absoluto esse “Já não há PACHORRA”!!!
    Mas o ME é cego, surdo e mudo! Para o pessoal do ME isto é um não assunto! Vergonha e vergonhoso são palavras demasiado suaves para o que me apetece dizer…
    Abraço e Bom Ano Novo

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