Há uma crença moderna, muito vendável em redes sociais, de que amar um filho é poupá-lo a toda a frustração, uma espécie de Carnaval permanente onde a palavra de ordem é disfarçar a realidade até ela ficar irreconhecível. Se o menino se zanga, entra em cena a equipa de emergência com serpentinas e confetes para abafar o incêndio. Se a menina falha, troca-se a máscara e reescreve-se a história, porque neste desfile ninguém pode sair feio na fotografia. Se há um conflito, os pais desfilam como advogados de defesa, juízes e júri, em carro alegórico próprio, distribuindo absolvições gratuitas. O resultado é uma infância esterilizada, plastificada e cheia de purpurinas, onde o erro é tratado como uma anomalia carnavalesca e a frustração como uma falha grave na organização do cortejo.
A isto soma-se um fenómeno ainda mais pitoresco, a imaturidade crescente de muitos adultos, autênticos foliões emocionais a educar filhos enquanto tentam prolongar a própria adolescência. Nunca houve tantos pais mascarados de adultos responsáveis. Confunde-se proximidade com cumplicidade, autoridade com autoritarismo, e no meio da música alta instala-se uma parentalidade errática. As crianças são largadas à sua sorte no quotidiano, entregues a ecrãs, agendas caóticas e ausência de limites, como figurantes esquecidos depois do desfile. Até que a frustração aparece e interrompe a festa. Nesse instante dá-se o milagre carnavalesco, os pais regressam em modo super-herói, capa ao vento e pose dramática, para salvar o dia e restaurar a ordem no universo, como se a vida fosse um palco onde o enredo pode sempre ser corrigido à última hora.
Esse resgate vem quase sempre acompanhado de um espetáculo previsível, um autêntico corso de culpas atiradas em todas as direções. A responsabilidade nunca é da criança, seria um escândalo estragar a festa com factos. É o professor que implica, a escola que falha, os colegas que provocam, o sistema que não compreende. Tudo serve para explicar os erros dos filhos, exceto a hipótese indecorosa de que a criança tenha feito más escolhas. Ao varrer sistematicamente a responsabilidade para fora, os pais desresponsabilizam os filhos e oferecem-lhes a lição mais conveniente do Carnaval moderno, errar é aceitável, assumir o erro é opcional e, com um bom disfarce, quase invisível.
Só que a frustração não é um defeito do desenvolvimento, é a parte do espetáculo que ninguém quer ver mas que sustenta o palco. É no atrito com os limites, dos outros e dos próprios, que as crianças constroem tolerância, paciência e criatividade, sem música de fundo nem efeitos especiais. Quando os pais resolvem sistematicamente os problemas dos filhos, enviam uma mensagem subtil mas devastadora, tu não és capaz. A curto prazo a criança sorri e continua a dançar, a longo prazo fica dependente e aprende que a solução para qualquer incómodo é chamar um adulto em serviço permanente, de preferência com fantasia completa.
As consequências futuras não exigem grande imaginação. Crianças criadas em redomas emocionais tornam-se adultos com alergia ao desconforto, foliões perdidos quando a festa acaba. Perante um chefe exigente, uma relação complicada ou um simples não, o mundo parece-lhes uma conspiração pessoal contra a sua alegria. Sem treino em responsabilidade, tornam-se peritos em culpar tudo e todos pelas próprias falhas. A ansiedade cresce, a autoconfiança mingua e qualquer contratempo assume proporções épicas, como se o desfile tivesse sido cancelado para sempre.
E os pais também não escapam ilesos. Ao assumirem o cargo vitalício de solucionadores oficiais, condenam-se a uma parentalidade sem reforma, uma festa que nunca termina. Criam jovens adultos que telefonam para casa à primeira dificuldade séria e pais que continuam a atender como se fosse dever cívico. O resultado é uma dependência mútua pouco edificante, filhos inseguros, pais exaustos, todos presos numa dança interminável de resgates, justificações e frustrações mal digeridas, à espera de um Carnaval que já devia ter acabado.
Educar para a vida exige uma maturidade que não cabe em fantasias nem em publicações inspiracionais. Exige a coragem de assistir ao desconforto dos filhos sem correr a cobri-lo de confetes e a honestidade de lhes devolver a responsabilidade pelos próprios atos. Significa deixá-los discutir, falhar, zangar-se e tentar de novo, sem transformar cada tropeção num número de circo para distrair a plateia.
No fundo, amar um filho é prepará-lo para um mundo que não gira à sua volta, com ou sem desfile. É ensiná-lo que a frustração não é uma tragédia, é treino. Que os problemas não são monstros a evitar, são exercícios a resolver. E que a maior prova de confiança que um pai pode dar a um filho é acreditar que ele é capaz de encontrar o seu caminho e assumir as consequências dele, mesmo que isso implique tropeçar repetidamente pelo percurso, sem máscara e sem rede de segurança.
Deixem os vossos filhos cair. Eles vão arranjar forma de se levantar.