A Dona Clarice não era apenas a nossa professora da Primária.
Não. A Dona Clarice era uma instituição na forma de uma pessoa só.
A Dona Clarice sempre perfumada num desafio claro a Cronos e ao peso dos anos.
A Dona Clarice não queria saber. E não se importava dentro do seu cabelo impossível, encaracolado até à teimosia, negro por natureza, ou talvez não, e a velhice é para ser enganada à custa de tanta tinta.
Quanto a nós, petizes sentados em carteiras demasiado pequenas para tamanha agitação dentro do corpo, pouco mais fazíamos para além de esperar por quem cometesse o primeiro erro, não para aprender, mas para medir toda a extensão da régua mais o peso da madeira.
Ou seja, a culpa é equivalente à distância entre a régua e a palma da mão.
E a culpa era sempre nossa. Indiscutível. Fatal. Certíssima. Justa. Merecida.
E um castigo não se discute se ninguém nos ensinou a discutir.
É de propósito.
E se chorávamos, lágrimas rápidas, também elas a querer fugir às farpas da madeira gasta à custa de tantos anos, tantas palmas, tantos alunos, tantas crianças.
E mesmo assim, no meio do choro, havia qualquer coisa parecida com respeito, ou medo, ou talvez as duas coisas embrulhadas uma na outra, como pão com manteiga a meio da manhã.
Porque falámos com o colega do lado.
É verdade.
Porque copiámos no teste.
É verdade.
Porque chegámos tarde.
É verdade.
Porque existimos, e existir, naquele tempo, já era uma forma de culpa.
A sala era um mundo inteiro, da primeira à quarta classe, idades misturadas como vozes numa igreja, os mais velhos a fingirem não ter medo, mas tinham, e os mais novos a aprenderem cedo a ordem natural das coisas a vir de cima e com força.
Sejamos claros: o exercício da violência e da agressão física não era apenas permitida, era socialmente aceite, era incentivada, e a culpa não era da Dona Clarice.
A Dona Clarice era a nossa professora.
E nós uma turma inteira ainda hoje com a síndrome de Estocolmo.
Só pode.
E em cada reguada a assinatura dos pais por baixo e não é preciso assinar a caderneta.
E nós, pequenos cidadãos desta distopia imensa dentro dos nossos lindos bibes verdes, a distopia dentro dos bibes e não nós, entenda-se, assinávamos igualmente por baixo.
Por não conhecermos outra língua senão esta, a da régua, o silêncio é para ser imposto e a obediência cega é a virtude máxima.
Porque a Dona Clarice era a ternura encarnada, era a dedicação de manhã à noite, a mãe de todos e de ninguém.
A Dona Clarice com as costas curvadas de tanto cansaço às cavalitas dos ombros diante das crianças a testar os limites mais a existência do mundo.
Um suspiro antes de abrir o livro, o mesmo suspiro antes de explicar, um suspiro antes de repetir e outro ao sabor da régua, porque é preciso bater e educar é endireitar à força.
Hoje, quando penso na Dona Clarice, não penso na dor da régua, penso nas mãos, nas mãos a escrever no quadro, as mãos a folhear cadernos, a corrigir erros numa paciência seca.
As mãos de uma professora pobre num país pobre, a fazer quanto sabia e quanto lhe tinham ensinado a fazer.
A Dona Clarice já não está entre nós. Há muitos anos. E, no entanto, não me esqueço. Não consigo.
E não guardo rancor. Guardo saudade. E trago comigo um perdão ainda hoje por dizer.
P.S.: O nosso 25 de Abril? Foi quando a Dona Clarice partiu a régua contra uma mesa. Ainda hoje vejo diante dos olhos aquela metade a voar pela sala fora para morrer junto à parede. Naquela noite, a liberdade. E nunca mais houve reguadas. Pelo menos com aquela régua.




