15 de Fevereiro de 2026 archive

Enquanto as escolas permanecerem abertas, está tudo bem…

Na sequência dos efeitos das tempestades que fustigaram o país, surgiram, nos últimos dias, várias denúncias e protestosrelativos a escolas que, à vista de todos, ficaram sem as condições mínimas de funcionamento

Mas não se pense que muitos dos problemas agora reportados de forma pública, não existiriam antes dos últimos temporaisE também não se pense que as restantes escolasapresentarão boas condições físicas e materiais, apenas porque agora não sinalizaram publicamente qualquer problema

É certo que as intempéries agravaram muitas das deficiênciasao nível dos edifícios escolares, mas sobretudo porque a maior parte dessas falhas já existia previamente…

– Paupérrimas condições físicas e degradação de edifícios escolares não são problemas recentes ou que tenham sido, exclusivamente, provocados pelas mais recentes intempéries;

– Paupérrimas condições físicas e degradação de edifícios escolares são realidades que já existem há muitos anos, mas que os sucessivos titulares da Pasta da Educação têm feito por ignorar, esconder ou “atirar para baixo do tapete”

Como já escrevi, noutras ocasiões, o conforto proporcionado pelos gabinetes ministeriais tem sido um péssimo conselheiroe um sério entrave à resolução dos problemas anteriores:

Há muitos anos que se mendiga por edifícios escolares devidamente apetrechados e com condições dignas de trabalho e de aprendizagem, mas o que existe, maioritariamente, são construções decrépitas, visivelmente degradadas, sem as exigíveis condições físicas e materiais de funcionamento;

Do quimérico apetrechamento tecnológico será melhor nem sequer falar, que esse continua, afinal, na “era da pedra lascada”…

Nos últimos anos, em termos materiais, uma parte assinalável das Escolas Públicas tem sobrevivido, sobretudo, à custa do inefável “elevado espírito de missão”, muitas vezes traduzido pelo típico “desenrascanço à portuguesa”…

O “elevado espírito de missão” e o “desenrascanço à portuguesa” são, aliás, o que tem permitido manter abertas muitas escolas de Norte a Sul do país, muitas vezes com condições miseráveis de funcionamento

E enquanto as escolas permanecerem abertas, dando para o exterior a indicação de que, afinal, tudo decorrerá dentro da normalidade esperada, nada farão os Governantes para resolver problemas gritantes que afectam, diariamente, todos os que permanecem horas e horas numa escola, sejam profissionais de Educação, sejam Alunos

Enquanto as escolas permanecerem abertas, muito dificilmente se olhará para a degradação dos edifícios escolares; pouco importará se quem lá está dentro é obrigado a suportar mais de 35ºC no Verão e/ou -2ºC no Inverno; sechove dentro das salas de aula; se as casas de banho têm condições sanitárias adequadas; se as janelas e os estores funcionam; ou se os quadros eléctricos apresentam condições de segurança

Enquanto as escolas permanecerem abertas, nada dissointeressa

Nada disso interessa, pelo menos até à próxima tragédia…

Por cá, só se costuma discutir e escalpelizar um problema quando se está na iminência de uma tragédia ou quando já se está perante uma tragédia consumada… Evitar ou prevenir tragédias, não parece ser coisa relevante, para sucessivos Governos…

Quando as tragédias acontecem, é ver um corrupio de Governantes a visitarem os principais locais de calamidade, quase sempre envergando um colete da Protecção Civil…

Chega a ser ridícula a imagem dos Governantes fazendo uso dessa indumentária, parecendo até que a mesma exerce sobre eles um certo fascínio, como se isso bastasse para resolver os problemas que previamente não souberam antecipar…

O mais básico e elementar, mas imprescindível para o bem-estar de todos os que pisam numa escola diariamente, tem ficado sempre por fazer…

No que à Educação respeita, gastam-se milhões de euros, por exemplo, em Plataformas Digitais inoperacionais; ou na realização de Provas de muito duvidosa pertinência; ou numa pretensa reforma administrativa do MECI, cuja eficácia se apresenta como muitíssimo questionável, mas não há dinheiro para o mais básico e elementar…

No que à Educação respeita, “a casa é sempre começada pelo telhado” e esquecem-se os alicerces porque, afinal, o mais importante é a ostentação de “folclores e de floreados”, sem benefícios visíveis para a melhoria do funcionamento das Escolas Públicas…

A implementação de medidas simples e pragmáticas, livre de floreados, adornos ou aparatos, como a requalificação de todos os edifícios escolares degradados, fica sempre “na gaveta”, preferindo-se a opção por prioridades dominadas por umshow off”, meramente exibicionista e ilusório…

Gastam-se milhões de euros em “folclores” que não resolvem qualquer problema das Escolas Públicas…

Gastam-se milhões de euros em “folclores” que, muitas vezes, até agravam os problemas já existentes…

Enquanto as escolas permanecerem abertas, pode chover dentro das salas de aula…

Enquanto as escolas continuarem a cumprir a função de “guardar” crianças e jovens, pode chover dentro das salas de aula…

A “opinião pública” e os Governantes só se interessarão, realmente, pelos problemas dos estabelecimentos de ensino, em particular, pela degradação dos edifícios escolares, quando as famílias se virem privadas de levar as crianças e os jovens à escola…

Enquanto as escolas permanecerem abertas, está tudo bem…

Enquanto as escolas permanecerem abertas, pode-se continuar a esconder os podres, os bolores e a insegurança…

Pode-se continuar a esconder a realidade e a fazer de conta que ela não existe…

A pobreza de pensamento dos Governantes portugueses dos últimos anos, incluindo os actuais, é assaz notória e confrangedora…

Sobretudo em alturas de calamidade, dispensam-se osdiscursos “para a fotografia”, pseudo-motivacionais,pateticamente delicodoces, alicerçados na positividade tóxicaque, além de não resolverem qualquer problema, soam sempre a falsidade e a hipocrisia

E soam a falsidade e a hipocrisia porque não são consonantes com a prática efectivamente observada nos restantes dias do ano

Em vez de serem recebidos nas escolas, em visitas oficiais com toda a pompa e circunstância, o 1º Ministro e o Ministro da Educação deveriam passar algumas semanas em várias escolas do país, sobretudo naquelas que não são alvo de qualquer melhoramento há muitos anos…

Mas sem “batota”… Ou seja, sem qualquer “cosmética” prévia à sua chegada e sem condições especiais, postas ao seu serviço, durante o tempo em que permanecessem numa escola… As condições da sua estadia seriam semelhantes às dos que trabalham nessa escola, todos os dias, ao longo do ano…

Sempre queria ver quanto tempo aguentariam…

 Paula Dias

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