A Vida do Professor Filipe

O professor Filipe pertence aos quadros do Ministério desde novembro. Mas pode ficar sem trabalho já no fim do mês

 

Filipe Branco vinculou no último Concurso Externo Extraordinário. Desde 15 de novembro que faz parte dos quadros do Ministério da Educação, Ciência e Inovação. O mesmo Ministério que vem agora dizer que não tem habilitações suficientes para o grupo de recrutamento pelo qual vinculou e quer anular a contratação

 

A vida do professor Filipe já deu muitas voltas. Foi militar, músico na banda da Armada, até 2022, altura em que resolveu ser professor a tempo inteiro. Já dava aulas em acumulação com a vida militar desde 2012. Depois de um ano letivo com a casa às costas, Filipe Branco foi contratado por uma escola privada no centro de Lisboa, onde passou a dar aulas de música a tempo inteiro. Residente em Arruda dos Vinhos, viu no ensino privado a única forma de ficar relativamente perto da família e fazer um acompanhamento mínimo aos dois filhos.

No início deste ano letivo, resolveu concorrer no Concurso Externo Extraordinário (CEE) 2024/2025 para colocação de professores, cujos resultados foram conhecidos em outubro. Os resultados não podiam ser mais animadores. Ficou colocado no Quadro de Zona Pedagógica 42, que engloba Arruda dos Vinhos, Mafra, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras. Filipe Branco viu-se finalmente perante as certezas de ficar a dar aulas em escolas perto de casa para o resto da vida.

“Estava muito bem empregado, no ensino privado. Ainda era longe de casa, porque moro em Arruda dos Vinhos e trabalhava no centro de Lisboa, mas estava muito bem empregado. Saí para aceitar a vinculação. Como não consegui dar o aviso prévio, pois fui informado a uma sexta-feira que tinha de me apresentar numa segunda, tive de pagar uma indemnização à escola onde estava a trabalhar”, conta Filipe Branco, à CNN Portugal.

Filipe diz que se sente “traído”: “Quando saí do colégio para aceitar esta vinculação no público, estava a ganhar bastante mais do que ganho atualmente, tendo em conta que o colégio tinha aulas de piano para quem quisesse e havia muitas. Tinha zero qualidade de vida, mas muito mais dinheiro ao final do mês. Como queria mesmo efetivar no público e queria aproveitar a infância dos meus filhos e estar com eles mais tempo, tomei esta decisão de aceitar o vínculo no público e reduzir substancialmente o vencimento. Foi uma opção minha, mas agora sinto-me quase traído com esta ‘intimação’”.

Presente envenenado

Filipe Branco pertence aos quadros do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) desde novembro, mas corre o risco de ficar sem trabalho já no fim do mês. Três meses depois de vincular no CEE 2024/2025 pelo Grupo de Recrutamento (GR) 610 (Música no 3º ciclo do Ensino Básico e no Secundário), Filipe Branco foi confrontado com um ofício da Direção-Geral da Administração Escolar (DGAE) a indicar que a sua vinculação iria ser anulada e que tinha 10 dias para contestar. Uma notícia que lhe chega nas vésperas do 43º aniversário e que veio colocar-lhe a vida em alvoroço.

“Apresentei-me na escola do Sobral de Monte Agraço. Mas não tinham horário para mim no agrupamento e fiquei com horário zero. Tenho andado a fazer uns apoios e trabalho administrativo. Vou agora começar a fazer uma substituição no Grupo de Recrutamento 250. Vou substituir uma colega que está de baixa. Estive sem horário até agora. Agora que vou começar efetivamente a dar aulas, recebo esta notícia”, lamenta.

A DGAE alega que Filipe não tem habilitações para dar aulas no GR 610, pelo qual vinculou. E que, por isso, a vinculação irá ser anulada. Filipe candidatou-se ao CEE 2024/2025 com as habilitações académicas que possuía na altura, um mestrado em Ensino de Educação Musical no Ensino Básico, da Escola Superior de Educação de Lisboa, que, alega Filipe, à altura da conclusão, conferia habilitações para os três graus de ensino do Ensino Básico. “Fiz a prática pedagógica do mestrado, o estágio, nos três graus de ensino do Ensino Básico. Enquanto professor contratado, fui colocado por diversas vezes a dar aulas em horários do grupo de recrutamento 610, quando concorri à vinculação, validaram as minhas habilitações e agora vem esta notícia”, sublinha.

Contactado pela CNN Portugal, o MECI esclarece que quem faz a validação das habilitações dos docentes que se apresentam aos concursos são as escolas. “O candidato foi opositor [concorreu] ao Concurso Externo Extraordinário 2024/2025, nos grupos de recrutamento 250 – Educação Musical e 610 – Música, sendo detentor de qualificação profissional apenas para o primeiro desses dois grupos de recrutamento. A validação das habilitações dos candidatos é da responsabilidade dos Agrupamentos de Escolas e das Escolas não Agrupadas, onde os docentes entregam a documentação comprovativa”, sublinha o MECI, numa resposta enviada por email.

“A habilitação específica para lecionar no nível de ensino do 2.º ciclo do Ensino Básico é distinta da habilitação exigida para lecionar no 3.º ciclo do Ensino Básico, que, por sua vez, é comum ao Ensino Secundário. Assim, as habilitações profissionais para o grupo de recrutamento 250 – Educação Musical são as que conferem qualificação profissional para lecionar Educação Musical do 2.º ciclo do Ensino Básico, com prática pedagógica no respetivo grupo, e as habilitações profissionais para o grupo de recrutamento 610 – Música são as que conferem qualificação profissional para Música do 3.º ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário”, acrescenta ainda o MECI na mesma resposta escrita à CNN Portugal.

As mudanças do mestrado

O curso de mestrado de Filipe sofreu várias alterações, desde que o professor o concluiu. Quando foi criado, em 2008, efetivamente, o plano de estudos contemplava várias unidades curriculares específicas para o ensino no 3º ciclo do Ensino Básico. Entre elas Didática da Educação Musical nos 2º e 3º Ciclos e Prática Profissional Supervisionada nos 2º e 3º Ciclos. Em 2010 e 2013, o plano de estudos do mestrado sofreu alterações, o curso mudou de nome e passou a chamar-se apenas “Educação Musical”, mas manteve as referidas unidades curriculares. Em 2017, o curso foi descontinuado.

“Mas eu terminei o curso em 2012. Não posso ser penalizado pela descontinuação do curso”, reforça Filipe.

“Aliás, tive a curiosidade de ir ver as vinculações nos últimos anos e há ali alguns colegas vinculados neste grupo de recrutamento, com a mesmas habilitações do que eu. Alguns até conheço pessoalmente, que o mundo da Música é pequeno e a gente conhece-se uns aos outros”, argumenta.

Filipe apresentou precisamente este argumento à DGAE, nas diversas trocas de emails que tem feito com as instituições do Ministério desde 3 de fevereiro, dia em que foi confrontado com a possibilidade da nulidade da sua vinculação. A resposta foi surpreendente: “(…) Informamos que as situações reportadas vão ser analisadas pelos nossos Serviços, para que se possa agir em conformidade com o resultado da respetiva análise”.

“Portanto, não só não vão resolver a minha situação, como vão agora estragar a vida dos meus colegas”, resume Filipe Branco.

“Zona cinzenta na lei”

O GR 610 sofre de uma espécie de omissão na legislação e parece estar numa “zona cinzenta”. Os diferentes decretos-lei que estabelecem as habilitações profissionais para os professores darem aulas, inclusive o que foi publicado esta sexta-feira em Diário da República, são pouco claros e até omissos em relação aos cursos que conferem competências para lecionar no Grupo 610 – Música.

“O diploma continua sem referência ao GR610, voltando a falar apenas em ‘Ensino de Música’ e remete para a mesma portaria 693/98, de 3 de setembro, ou seja, os cursos de ensino artístico, para os quais a minha licenciatura me habilita. Mas há uma novidade. Uma alínea que diz: ‘Podem ainda ser admitidos candidatos com outra formação superior que possuam os requisitos de créditos mínimos a fixar pelos estabelecimentos do ensino superior nas componentes de formação nas áreas de formação destes cursos, salvaguardando-se que o número mínimo não é inferior a 90 créditos’. O certificado de habilitações da minha licenciatura em Música tem 184 créditos aliás, mais quatro até que grande parte das licenciaturas pós Bolonha. No CEE, foram abertas vagas para o GR610, que não conta do Decreto-lei”, sublinha Filipe Branco.

Apenas o Decreto-Lei n.º 27/2006, de 10 de fevereiro, faz referência a este grupo de recrutamento. “As habilitações profissionais para o grupo de recrutamento Música (código de recrutamento 610) são as que conferem qualificação profissional para o grupo de docência (Música) do 3.º ciclo do ensino básico e do ensino secundário, previsto no Decreto-Lei n.º 519-E2/79, de 29 de Dezembro, com a realização da prática pedagógica supervisionada nesse grupo de docência”, pode ler-se no artigo 7º do Decreto-Lei n.º 27/2006.

Ora, o Decreto-Lei n.º 519-E2/79, que tem 45 anos, “unifica os grupos, subgrupos, disciplinas e especialidades dos ensinos liceal e técnico-profissional e fixa as habilitações consideradas como próprias e suficientes para os ensinos preparatório e secundário” e não faz referência ao Grupo de Recrutamento 610-Música.

Na lista de cursos que conferem habilitação própria para a docência para o GR610 que consta na página da Direção-Geral da Administração Escolar, não consta o mestrado de Filipe Branco, tirado na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Lisboa. Uma breve pesquisa pelo nome do curso dá conta que, atualmente, dá habilitação profissional apenas para o 2.ºCiclo do Ensino Básico, ou seja, para o Grupo de Recrutamento 250.

Filipe Branco consultou o sindicato, que lhe disse que “pouco havia a fazer”: “Implicitamente disseram-me ‘Há aqui uma zona cinzenta na lei, não queremos levantar poeira, mexa-se você se quiser’”.

Numa das respostas que lhe foram enviadas pela DGAE, este organismo do MECI admite que a questão ultrapassa as suas competências.

Filipe Branco diz-se um otimista. Faz questão de, na fotografia que acompanha este artigo, aparecer a sorrir. Garante que ainda não perdeu a esperança de que as entidades competentes lhe deem razão e reconheçam que, à data em que concluiu o curso de mestrado, o plano de estudos do mesmo, conferia competências para dar aulas em todos os níveis de ensino do Ensino Básico.

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16 comentários

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    • sapinhoVerde on 18 de Fevereiro de 2025 at 16:14
    • Responder

    Mesmo que o MECI tenha razão, quem falhou foi a escola que fez a validação, sendo essa escola uma responsabilidade do Ministério.
    Portanto o Colega Filipe tem todo o direito de manter a colocação.
    Não foi o ministério que lançou as vagas?
    Não foi o ministério que diz que há falta de professores?
    Infelizmente ainda são poucos os que estão nos quadros….

    • Pedro António on 18 de Fevereiro de 2025 at 17:51
    • Responder

    As escolas deviam ter mais atenção. Esta falhou nas habilitações, outras no tempo de serviço, o facto é que os procedimentos têm de ser iguais para todos e deixar passar este caso abria -se um precedente e alguém podia alegar que queria ter a mesma oportunidade.

    • Helena on 18 de Fevereiro de 2025 at 18:52
    • Responder

    Ele deveria ficar. Não há casos de professores que entraram só com licenciatura e irão fazer o estágio?

    • Lucas Monteiro on 18 de Fevereiro de 2025 at 18:56
    • Responder

    É por isso que estes processos deveriam ser completamente centralizados. Nada deveria passar pelas escolas em relação aos concursos.
    E quando alguém concorresse, se saisse, é que as direções saberiam se tinham concorrido. Assim como assim, para a escola, seria indiferente. Para os candidatos não, porque não seriam perseguidos ou ostracizados se não saissem no concurso.
    Era mais saudável.

    • PF on 18 de Fevereiro de 2025 at 19:43
    • Responder

    Espero que o colega Filipe fique e que o caso seja resolvido a seu favor.

      • ECCT on 18 de Fevereiro de 2025 at 22:09
      • Responder

      Concordo, espero que se resolva a bem do Filipe esta situação, inacreditável. Força Filipe

    • Pedro on 18 de Fevereiro de 2025 at 19:59
    • Responder

    Isto daria muito que falar. Umas escolas validam tudo. Outras é só entraves. E responsáveis condenados com processo disciplinar e prisão? Nenhum.

    • Inês on 18 de Fevereiro de 2025 at 20:26
    • Responder

    Parece que a DGAE anda em contra-corrente com as necessidades de professores que existem no país. Por isto, é que se passa para os média e para a população em geral que se está a contratar professores sem habilitações. O que dá a este professor a capacidade de ensinar música é, em primeiro lugar, saber música. A formação em ensino habilita-o a ensinar. Parece-me fundamental que o ministério olhe bem para os mestrados existentes e perceba que não faz sentido haver uns que habilitam só para um ciclo e outros, só para outros ciclos. Manter o mesmo número de vagas no global e reduzir o número de mestrados, de acordo com a inutilidade desta divisão, permitiria que mais pessoas pudessem aceder. No caso deste professor e deste concurso extraordinário, é importante saber que se podia concorrer com habilitação própria e depois fazer a profissionalização. Daí que, se não consideram o mestrado dele como habilitação profissional, pelo menos, pode ser considerada habilitação própria e tem quatro anos para fazer (e pagar) um mestrado, ou seja, profissionalizar-se naquilo que me parece óbvio estar mais do que profissionalizado.

      • Mas é verdade on 18 de Fevereiro de 2025 at 21:11
      • Responder

      Cara Inês,
      Não será, porventura, o caso deste colega, mas a verdade é que o que se passa é que se estão a colocar a dar aulas pessoas sem o mínimo de verdadeiras e reais habilitações.
      Não é alguém que tem formação em Educação Visual ou em Educação Física, que, por ter feito um mestradozinho via ensino em Informática, que passa a ser professor de Informática.
      A maior parte destes não sabe NADA do que está a lecionar, nem sequer quer saber. Querem apenas andar a brincar aos professores de Informática.
      E quem diz de Informática (que me parece muito gritante), diz de outras áreas onde se passam coisas loucas.
      E não é só no público.

        • Ordenisto on 19 de Fevereiro de 2025 at 23:49
        • Responder

        Verdadeira ignorância este ultimo comentário!!!Então se estes professores de evt ou de outro grupo têm formacao que têm competências em TIC mesmo sem ser diploma não superior, qual é o problema em ensinar as bases a alunos do 2 ciclo? Queres ver que é preciso um doutoramento para dar TIC aos alunos de 2Ciclo??? Tá tudo parvo ou quê??

    • Zé Tone on 18 de Fevereiro de 2025 at 22:05
    • Responder

    A vinculação não deve ser anulada. O MEC deve encontrar outra solução. Ou então se não tem passa a ter.

    • José on 19 de Fevereiro de 2025 at 0:23
    • Responder

    A situação é fácil de resolver despedir o diretor da escola ou agrupamento que aprovou tal situação. Mas como este existem milhares de docentes que vincularam, só no 510 e 520 a maioria não tem os créditos exigidos por lei… Nas listas até havia enólogos a vincular para dar físico química.
    Assim vai a marcha

    • Cervejeiro on 19 de Fevereiro de 2025 at 0:45
    • Responder

    Na minha escola também uma recém vinculada foi exonerada, neste caso, porque afinal o seu certificado estrangeiro não seria válido para Portugal. É de lamentar vincular e depois ser exonerado. Se bem que no caso concreto, a colega em questão já tinha dado nas vistas por não fazer a mínima ideia do que era lecionar …

    Os serviços administrativos das escolas têm enormes dificuldades em fazer a validação dos certificados. Em particular de diplomados estrangeiros. .. e todos eles altamente qualificados … não chega nenhum com nota inferior a 18. Só génios … a atirar o barro à parede …

    • Rosinha on 19 de Fevereiro de 2025 at 15:14
    • Responder

    NÃO CONCORRESSE COM HABILITAÇÕES FALSAS!!!!!
    ACHO MUITO BEM A EXONERAÇÃO.

    • Ordenisto on 20 de Fevereiro de 2025 at 0:04
    • Responder

    Todos sabemos que existem docentes que só tinham o liceu e muitos depois de uma carreira longa até já estão aposentados. Como este docente há muitos efetivos e por não haver candidatos, ensinam determinadas disciplinas e não têm formação para tal !! A culpa é de quem complica os procedimentos para a profissionalização!! E um mestrado em ensino de musica deveria ser reconhecido para ensinar nos 3 ciclos! Anda tudo parvo!

    • Ordenisto on 20 de Fevereiro de 2025 at 0:06
    • Responder

    Todos sabemos que existem docentes que só tinham o liceu e muitos depois de uma carreira longa até já estão aposentados. Como este docente há muitos efetivos e por não haver candidatos, ensinam determinadas disciplinas e não têm formação para tal !! A culpa é de quem complica os procedimentos para a profissionalização!! E um mestrado em ensino de musica deveria ser reconhecido para ensinar nos 3 ciclos! Anda tudo parvo!!

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