Ministro garante “boa-fé” nas negociações…

Eu não duvido da “boa- fé” do Tiago, tal como não duvido do sucesso de um  tratorista (profissão muito digna) ao tentar fazer uma rinoplastia.

A verdade é que o Tiago não decide nada, a Alexandra nada decide e o João está fora disto. Quem se deve sentar à mesa das negociações com os professores e qualquer outra classe profissional é o Centeno. No que diz respeito a carreiras, descongelamentos, reposicionamentos e recuperações, o Centeno é que decide, todos os outros seguem um guião previamente fornecido.

Não estando o Centeno diretamente envolvido, na negociação do tempo e da forma de recuperação do tempo de serviço docente, será como estar numa sala cheia de papagaios e araras.

No parlamento o tema já foi mote para umas”carícias” entre o Tiago e a dita oposição. Voltaram a prometer-lhe uma apreciação parlamentar, quando o que lhe deviam ter dito, era que quando a ILC fosse ao parlamento se uniriam e votariam a favor da mesma (já nem falo em apresentarem uma proposta, conjunta, semelhante à da Madeira ou à proposta dos sindicatos). Talvez assim ele baixasse a crista (por um ou outro momento) e tivesse vontade de voltar a investigar. Também conversaram sobre  a execução orçamental de 2018 para a Educação, ficamos a saber que se investiu mais no metropolitano de Lisboa que em educação em Portugal. A taxa de execução orçamental de 2018 na Educação foi de apenas 32,5%.

Ainda ontem foi anunciado num relatório da União Europeia que Portugal vai ter que cortar mais 236 milhões de euros nos gastos com a saúde e educação. A saúde está de rastos (não se convençam que a greve dos enfermeiros é a causa disso), quem tem o azar de ter necessidade de ir a umas urgências constata isso. A falta de material, de pessoal, de equipamentos atualizados entre muitas outras coisas, salta à vista. Na Educação, a falta de material atualizado é mais do que conhecida, as escolas mais antigas caem aos bocados, as novas aos bocados caem, os equipamentos são remendados vezes sem conta (há escolas do 1.º ciclo que ficam meses sem fotocopiadora, e tinteiros para impressora são um bem que passou a não ser necessário, porque ou não funciona a impressora ou deve estar prestes a ser “cativada”). Não vão ser as medidas anunciadas para a contratação de pessoal não docente que vão resolver o problema, nem aumentar o investimento (a medida em pouco ultrapassará os 9 milhões anuais, falando em vencimentos ilíquidos). Como se vai cortar na educação? Aí é que entra o João Costa, com os DL 54.º e o 55.º. As retenções vão ser diminutas e como sabemos a poupança dar-se-á naturalmente, entre 50 a 60 milhões de euros anuais (estas são as contas bem feitas, outras que por aí andaram são puros delírios). Podem também poupar nos manuais, no próximo ano “oferecem” os manuais digitais poupando milhões e sendo ecologistas. Caso isso não baste, podem sempre começar a cortar no pessoal docente ou “prometer-lhes” uma nova carreira de sonho e dando-lhes o inferno.

A verdade é que, no dia 25 de fevereiro, a única coisa que deverá acontecer será uma falsa demonstração de boa-fé e 120.000 professores a ver passar os “aviões”.

A mania das cativações do Centeno terão um peso elevado a pagar no futuro de toda uma função pública, os professores serão, apenas, mais uma parte do bolo.

Enquanto isto acontece, continua-se a resgatar bancos (já não lhes chamam resgate, mas não passa disso mesmo), mil milhões para este, 600 milhões para aquele, prejuízos no outro, crédito ruinoso naqueloutro. O Zé manda umas postas de pescada, mas não entende que o estão a prejudicar nos seus direitos básicos. Não percebe que, para ele, a austeridade ainda vigora, apenas mudou de cara e o discurso se tornou mais suave.

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4 comentários

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    • Duilio on 23 de Fevereiro de 2019 at 16:07
    • Responder

    Governo reforça núcleo dura para resistir a criticas.
    https://duilios.wordpress.com/2019/02/23/la-famiglia-luis-costa/

    • pretor on 23 de Fevereiro de 2019 at 16:22
    • Responder

    Aqui está a boa fé das negociações:
    https://expresso.pt/politica/2019-02-23-Mario-Centeno-Nao-ha-margem-para-mais-despesa-1

    • Ave Rara on 23 de Fevereiro de 2019 at 18:11
    • Responder

    .
    Não há margem para mais despesa pública.

    Esta é a realidade de um País altamente endividado com um setor bancário ainda com problemas por resolver.

    Aprovar mais despesa pública não é possível a nível Parlamentar porque existe uma norma que trava essas tentações e, como tal, logo a aprovação da ILC (iniciativa legislativa de cidadãos) para recuperação dos 9 Anos, 4 Meses e Dois dias é impossível, porque impraticável.

    A nível governamental não existe possibilidade nenhuma de cedência, porque a existir aumentaria a despesa e o Governo está vinculado a tratados europeus que não permitem tal desvario.

    Assim sendo, cabe aos Sindicatos serem criativos e. aí sim, existe alguma margem para melhorar e dignificar a Carreira Docente, quer a nível das condições de trabalho, bem como de aposentação dos docentes com mais de 60 anos.

    Esperemos que dia 25 de Fevereiro os Sindicatos saibam apreender a realidade e avançar com propostas que dignifiquem uma Carreira que se encontra cada vez mais desvalorizada.
    .

      • Alberto Miranda on 24 de Fevereiro de 2019 at 10:24
      • Responder

      Cara “Ave Rara”,
      É muito bonito o que escreveu mas falta um pormenor gigantesco: há dinheiro sim senhor…aonde? basta ler o seguinte artigo:
      (…) “Além de jorrar dinheiro a rodos no sector financeiro, além de canalizar fundos para empresas mal geridas, o erário público irá também alimentar, com recursos quase ilimitados, os concessionários das parcerias público-privadas (PPP), muito em particular as rodoviárias. No próximo ano serão mil e quinhentos milhões em rendas pelas ruinosas PPP rodoviárias. Esta verba é pornográfica, já que o valor justo seria de 340 milhões, o montante adequado da renda, em função de valor actualizado calculado pelo Eurostat-UE.”
      https://www.publico.pt/2018/10/23/economia/opiniao/pacto-silencio-orcamento-2019-1848379#gs.3p7I76tw

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