Opinião – Mário Silva

Estado Comatoso

 

Sendo legitimo e justo que a contratação de professores tenha sido o tema central nas últimas semanas, esta ofuscou a anestesia geral que se vive na classe docente. A enxurrada legislativa produzida nos últimos anos que piorou e degradou as condições profissionais, parece ter sido assimilada e integrada normalmente no quotidiano, sem réstia visivel de qualquer reação indignada.

Tanto a nivel do orçamento governamental, a curto e médio prazo, como na agenda sectorial do PS, não existe nenhuma referência positiva à carreira profissional do trabalhador público. Neste contexto, independentemente do partido do ‘arco do poder’ que governar nos próximos anos, pode inferir-se que:

  • a progressão na carreira continuará suspensa ad eternum
  • os salários serão cortados ad eternum ou definitivamente reduzidos

  • está ativado o mecanismo de utilizar a mobilidade especial na classe docente a partir de 2015

  • em muitas escolas continuará a colocar-se na componente não letiva trabalho letivo, recorrendo à ambiguidade da legislação que confere discricionariedade à direção, e compromentendo a contratação de novos professores nos anos vindouros

  • milhares de professores continuarão ‘congelados’ no mesmo escalão por mais tempo, situação que já se prolonga há 8 ou mais anos, com consequências nefastas a longo prazo, nomeadamente no cálculo do valor da pensão de reforma (caso hipoteticamente ainda exista…)

  • a degradação sócio-económica na classe docente tornou-se regular e incremental, com perspetivas de se agravar, caso a municipalização das escolas se faça nos moldes desejados pelo governo

  • as alterações legislativas de reformulação dos escalões remuneratórios resultaram em situações injustamente absurdas, de despromoção injustificada, ocorrendo casos de docentes que com 6 anos de diferença de idade, pode estar colocado o mais velho no 8º escalão e o ‘mais novo’ no 4º escalão…

  • a indiferença e a ‘sobrevivência do mais apto’ serão o modus vivendi que insidiosamente irá dominando o ambiente escolar, incentivado por politicas de gestão

  • respira-se mais frequentemente a hostilidade contra o serviço público, promovendo mais conflitualidade, mais desmotivação, mais desesperança…

  • reduzir a profissão ao objetivo principal de manter um salário, mesmo que reduzido, e com isso obter uma satisfação submissa a toda e qualquer indignidade hierárquica, parecerá ser o mote quotidiano dos mais novos com a adesão dos mais velhos…

  • não existe nenhuma proposta politica de melhoria do estatuto social docente

  •  a manipulação psico-emocional dos agentes educativos será mais frequente, sendo-se ‘preso por ter cão e preso por não ter’, levando a uma forma subrepticia de assédio moral para promover a desistência

 

Acrescentando aos aspetos profissionais as alterações sociais gravosas, o panorama é desanimador e algo desesperante. Contudo, em vez da indignação, revolta e ação terem sido germinadas nos individuos, no seu lugar instalou-se enraizadamente o coma induzido…

 

 

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4 comentários

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    • Coitratado on 8 de Novembro de 2014 at 12:38
    • Responder

    Ora aqui está uma óptima descrição da realidade atual da classe docente, dura e crua!

    • FF on 8 de Novembro de 2014 at 12:50
    • Responder

    O autor do texto conseguiu fotografar por palavras o presente e o futuro da profissão docente em Portugal.

    • Manela on 8 de Novembro de 2014 at 16:02
    • Responder

    Quem leccionou 7anos e 8 meses (16 anos lectivos) em horários incompletos nalguns anos teve a sorte de ter horários completos e neste momento não foi colocado nem tem a esperança de o ser vê-se sem horizonte. Desesperadamente procura trabalho em todo o lado . Está num estado de anestesia total (brutalidade). Faltam as forças de desbloqueio para motivar aqueles que já não tem mais nada a perder!!!

    • maria on 8 de Novembro de 2014 at 19:40
    • Responder

    Concordo plenamente com o Mário Silva.

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