Opinião – Mário Silva

Um visão cínica da educação pública – 2013

Muitos semblantes carregados, olhos marejados de lágrimas, alguns choros, suspiros e desabafos, muita resignação, muito conformismo, muita angústia reprimida: eis o estado de espírito dos professores após a distribuição de serviço. A hecatombe esperada pelos realistas (atenuada pela manutenção do artº 79º e da componente letiva da DT), onde vários QUADROS DE ESCOLA se apresentam com horário incompleto ou sem horário.
O modelo de escola que se configura inexoravelmente, preconiza que num agrupamento com 1000 e poucos alunos, em várias áreas disciplinares, apenas sejam necessários 5 a 7 professores para assegurar os níveis de ensino desde os 5º ao 12º anos. E quando 1- for extinto o artº 79º 2- for extinta a componente letiva da DT e 3- ocorrer a agregação dos mega-agrupamentos em giga-agrupamentos, no máximo 5 professores dessas áreas disciplinares asseguram a componente letiva desses níveis todos…!
Em tempos idos, nesse mesmo agrupamento, o serviço (com inclusão de ensino profissional) era assegurado por 14 a 16 professores!…
Tempos de uma sociedade humanizada, onde se valorizavam a união conjugal, a família e a educação dos filhos, se respeitava o envelhecimento, se reconhecia o beneficio do lazer, se aceitava naturalmente a limitação biológica, se promoviam os afetos…
Uma educação pública mínima, copiada do modelo anglo-saxónico, reservada a um punhado de funcionários, sobrecarregados com centenas de alunos cada um e demais tarefas não letivas, onde a qualidade é critério a ignorar. Vai existir algum ensino público, para garantir a existência de estruturas ministeriais que supervisionam esse sistema, criando lugares para os boys do partido e dos que apoiam o partido; é isso que acontece nos EUA e na Inglaterra, onde se estabelece a educação mínima do saber ler, escrever e contar, suficiente para a mão-de-obra não qualificada que ainda é necessária no setor dos serviços e alguma indústria. A educação de qualidade e avançada, é reservada a uma elite que a pode pagar, e que será aquela que ocupará os lugares hierárquicos superiores dos vários setores económicos. Para conter e suster a miríade de pobres não qualificados que têm de recorrer a métodos ilícitos para sustentar as suas necessidades de consumo, as elites cultas e letradas, contratam os pobres com educação mínima para a prestação dos serviços de segurança interna e defesa nacional (e por isso é que os EUA são o país com o maior número de presos em relação à população total…).
Portanto, a médio prazo, Portugal terá a educação de índole anglo-saxónica, criada num caldo explosivo de aumento da população e infiltração tecnológica em todos os setores económicos com a consequente diminuição da quantidade de mão-de-obra humana. O destino dos milhares de professores inseridos numa faixa etária económica e socialmente indesejada, será dramático, não muito diferente dos restantes da faixa etária ainda económica e socialmente desejada, que ainda terão ter lugar no porão da escravatura…
O pessimismo e otimismo são previsões emanadas de um estado de espírito, enquanto o realismo fundamenta-se nos fatos que aconteceram e acontecem. Infelizmente, o meu pessimismo concretiza-se em realismo…
Mário SIlva

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1 comentário

    • Pois... on 24 de Julho de 2013 at 6:01
    • Responder

    Nas fases de crise a solução é encontrar respostas e não fechar-se e contentar-se com pessimismos, associados a realismos. Não é por aí. Mas como se isso não bastasse, ainda condenamos o futuro, como se uma boa parte dele não estivesse nas nossas mãos. Entendo que quem, e um dia para o outro, veja a sua vida alterada ou preveja ficar sem emprego, não tenha uma reação positiva mas a solução é, todos juntos, andarmos para a frente. Tem que ser. E nesta (re)descoberta todos somos precisos

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