Quantos às vagas para os outros técnicos especializados, competirá às escolas decidir, em função das necessidades do estabelecimento de ensino em causa, quais os profissionais a recrutar.
Category: Rui Cardoso
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Abr 03 2026
Acabou a falta de Professores! – Paula Dias
Não sou eu quem o diz. Quem o disse, implicitamente, foi o próprio Ministro Fernando Alexandre, a propósito do debate sectorial, ocorrido na Assembleia da República no passado dia 1 de Abril:
– “O ministro afirmou que os números anteriormente divulgados estavam “profundamente errados” e garantiu que, após revisão dos dados, o número de horários por preencher é residual. Segundo explicou, existem ainda 488 horários por ocupar, dos quais cerca de 260 correspondem a horários completos, representando entre 0,2% e 0,4% do total.”(Notícias SAPO, em 1 de Abril de 2026).
– “Fernando Alexandre sublinhou também que há escolas com professores em excesso, defendendo uma melhor redistribuição de recursos humanos. “Quando há escolas com professores a mais, estes professores fazem falta noutras escolas”, afirmou.” (Notícias SAPO, em 1 de Abril de 2026).
Note-se que o Ministro que anda há, pelo menos um ano, a empatar e a adiar a divulgação do número oficial de alunos sem aulas, é o mesmo que veio agora assegurar que, afinal, os números anteriormente divulgados estavam profundamente errados, que os horários por preencher são meramenteresiduais e que até há escolas com docentes em excesso.
Depois das declarações anteriormente citadas, não restará ao Ministro outra alternativa que não seja a de comprovar, factualmente, os dados apresentados por si, mostrando a todos as evidências que sustentam a sua alegada razão. A responsabilidade inerente ao facto de ser Titular da Pasta da Educação assim o impõe.
Em particular, aguarda-se pela fundamentação que permitiu afirmar que “os números anteriormente divulgados estavam profundamente errados” e pelo elenco das escolas onde existirá excesso de Professores.
Urge, igualmente, outro esclarecimento da parte do Ministro e que se prende com a atribuição de horas extraordinárias aos Professores.
Em 22 de Dezembro de 2025, numa entrevista concedida ao Jornal ECO, Fernando Alexandre reconheceu a importância da atribuição de horas extraordinárias, para colmatar o problema dos alunos sem aulas:
– “Por ano, estamos a gastar mais de 20 milhões de euros em horas extraordinárias. Isto é um esforço grande dos professores, obviamente, mas também há uma distribuição grande. Ou seja, a maior parte dos professores está a dar três, quatro horas a mais. É isso que está a dar.”
Tomando em consideração o anterior, pergunta-se:
– A contabilidade agora apresentada por Fernando Alexandre considerou ou não a atribuição de horas extraordinárias, a praticamente todos os Professores? Essa atribuição de horas extraordinárias é ou não vista por si como um “novo normal”e, assim sendo, passará a ser algo recorrente e corriqueiro?
Já se perdeu o conto ao número de pessoas que trabalham naÁrea da Educação, mas não só, que nos últimos tempos temvindo a terreiro considerar que a falta de Professores deixou de ser um problema pontual, para passar a ser iminentemente estrutural.
Por um lado, custa acreditar que tantas pessoas possam estar equivocadas; por outro, quem, no dia-a-dia, conhece a realidade das escolas, não poderá deixar de ficar, no mínimo, perplexo, perante os dados agora apresentados pelo Ministro Fernando Alexandre.
Ainda assim, neste momento, parece que existem dois cenários, em termos teóricos:
– Se o Ministro Fernando Alexandre conseguir comprovar cabalmente os dados apresentados por si no dia 1 de Abril passado, isso significará que acabou a falta de Professores ou,até, que a mesma, afinal, nunca existiu. Quem a considerou como uma realidade, estava equivocado.
– Se o Ministro Fernando Alexandre não conseguir comprovar cabalmente os dados apresentados no dia 1 de Abril passado,dará, obviamente azo, a que se questionem a honestidade intelectual, a ética e a transparência da sua acção governativa.
A palavra de um Ministro é muito importante, mas tem que ser coerente com os dados que a realidade providencia.
No caso presente, e dada toda a controvérsia que tem sido suscitada pelas inúmeras discussões à volta da falta de Professores, a palavra do Ministro Fernando Alexandre não poderá deixar de se fazer acompanhar por provas concretasque sustentem as suas mais recentes alegações. A credibilidade da sua acção governativa também dependerádisso.
Espera-se naturalmente que não tenha havido a intenção de, em troca da recuperação do tempo de serviço, pretender queos Professores se mostrem disponíveis para aceitar e suportartudo o que lhes queiram impor, como horas extraordinárias até à exaustão e a continuidade de catadupas de tarefas burocráticas.
A única certeza que neste momento existe é que alguém estará equivocado:
– Ou os que advogam a falta de Professores como um problema estrutural, entre os quais me incluo; ou o Ministro Fernando Alexandre, cujos dados apresentados recentemente alegam o contrário.
Veremos o que a realidade terá a dizer…
E que provas serão apresentadas pelo Ministro…
Paula Dias
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Abr 02 2026
O desgaste espalhou-se por todo o sistema. – Alfredo Leite
Francamente, custa-me aceitar que se legisle tanto sobre o que não se conhece por dentro. Parece-lhe descabido dizer que qualquer responsável máximo pela educação devia passar um ano inteiro no ensino público, a sério, e em vários níveis de ensino, antes de decidir o destino de quem lá trabalha?
Pela experiência que tenho acumulado como formador e licenciado em Psicologia, e por andar constantemente de escola em escola, há uma ideia que se confirma vezes sem conta: o problema da educação não está apenas no 1.º ciclo e no pré-escolar, embora nesses níveis seja mais fácil vê-lo a olho nu.
O desgaste espalhou-se por todo o sistema.
Do que vou ouvindo no terreno, o professor de hoje já não é apenas alguém que ensina. Organiza turmas, trata de matrículas, responde a exigências administrativas, elabora relatórios, sobretudo quando é diretor de turma, gere conflitos, tenta articular com famílias e ainda segura emocionalmente contextos cada vez mais complexos. Há dias, um professor dizia-me que sente que passa o dia inteiro a apagar fogos e a tentar, no meio deles, dar uma boa aula. E isso resume muita coisa.
Aquilo que me chega, de norte a sul do país, é uma sensação de saturação profunda. Turmas grandes, contextos inclusivos exigentes, alunos com necessidades muito distintas, ritmos diferentes, fragilidades emocionais, dificuldades cognitivas e, demasiadas vezes, pouco apoio concreto. Defendo isto com convicção: há uma enorme diferença entre decretar inclusão e criar condições reais para ela existir. Sem recursos humanos, sem formação verdadeiramente prática e sem tempo, a inclusão corre o risco de se transformar numa palavra bonita a pousar em cima de uma realidade exausta.
Dito isto, também considero importante afirmar algo que nem sempre é cómodo: os professores não são os culpados deste sistema, mas continuam a ter margem para crescer em aspetos decisivos. Podem fortalecer a forma como comunicam sob pressão. Podem trabalhar melhor a firmeza sem agressividade. Podem afinar a gestão emocional para não deixarem que o cansaço lhes roube a clareza. Podem ser mais consistentes nos limites e mais intencionais na cooperação entre colegas. Nem tudo depende deles, evidentemente. Mas há uma parte que ainda depende. E essa parte, quando é cuidada, protege a autoridade, a saúde mental e a qualidade da presença em sala.
Daquilo que observo, as respostas sérias têm de ser muito menos cosméticas. É preciso cortar burocracia de forma corajosa. É preciso reduzir o número de alunos nas turmas mais exigentes. É preciso garantir apoio especializado visível e útil nas salas inclusivas. É preciso dar formação aplicável no dia seguinte, não sessões simpáticas para cumprir calendário. E é preciso aproximar violentamente os decisores da realidade concreta da escola pública.
Recentemente, ouvi um professor dizer-me uma frase dura e honesta: “nós ainda queremos fazer bem, mas estamos cansados de fingir que isto é normal”. E talvez seja esse o ponto central. Isto não é normal. Não devia ser tratado como normal. E um país que habitua os seus professores ao excesso acaba, mais cedo ou mais tarde, por ensinar às crianças/jovens uma lição perigosa: a de que cuidar do essencial pode sempre esperar.
A minha leitura é simples: muitos professores estão a carregar peso a mais há tempo demais…quando um sistema exige resistência sobre-humana para cumprir o básico, o problema agiganta-se.
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Abr 01 2026
Ministro da Educação garante que horários sem aulas nas escolas são 448, menos de metade do que em janeiro
O ministro da Educação afirmou esta quarta-feira (1) no Parlamento que o número de horários por preencher nas escolas é de448, um valor atualizado a 26 de março e que, segundo Fernando Alexandre, representa uma descida significativa face aos 1.208 registados dois meses antes, a 26 de janeiro de 2026. A redução, explicou, resulta não apenas das colocações entretanto realizadas, mas também da correção de erros administrativos que inflacionavam os números iniciais.
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Abr 01 2026
Concurso Nacional Interno e Externo 2026/2027 – Candidatura
Encontra-se disponível até às 23h59 horas de 13 de abril de 2026 (hora de Portugal continental), a aplicação eletrónica da Candidatura para o Concurso Nacional Interno e Externo, destinado a Educadores de Infância e a Professores dos Ensinos Básico e Secundário.
SIGRHE – Candidatura 2026/2027
Nota de Anexos
Legislação
Outros
- Códigos dos AE/ENA
- Lista de instituições públicas não superiores que relevam para efeitos de contagem do tempo de serviço para o concurso externo/concurso de contratação inicial/reserva de recrutamento (2.ª prioridade)
- Colégios financiados pelo Ministério da Educação ao abrigo dos Contratos de Associação, desde 2006/2007 até 2025/2026
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Abr 01 2026
AVISO DE ABERTURA – 𝐂𝐨𝐧𝐜𝐮𝐫𝐬𝐨 𝐝𝐞 𝐞𝐝𝐮𝐜𝐚𝐝𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐝𝐞 𝐢𝐧𝐟𝐚̂𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐞 𝐝𝐞 𝐩𝐫𝐨𝐟𝐞𝐬𝐬𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐝𝐨𝐬 𝐞𝐧𝐬𝐢𝐧𝐨𝐬 𝐛𝐚́𝐬𝐢𝐜𝐨 𝐞 𝐬𝐞𝐜𝐮𝐧𝐝𝐚́𝐫𝐢𝐨 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐨 𝐚𝐧𝐨 𝐞𝐬𝐜𝐨𝐥𝐚𝐫 𝐝𝐞 𝟐𝟎𝟐𝟔/𝟐𝟎𝟐𝟕
O prazo para apresentação da candidatura decorre entre 1 abril e as 23:59 horas (Portugal continental) de 13 de abril de 2026 (correspondendo a 8 dias úteis).
Aviso de Abertura
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Mar 31 2026
A tempestade perfeita na educação. – Maurício Brito
Não são raros os fenómenos sociais que se formam lentamente, acumulando sinais que durante muito tempo parecem dispersos, até que um dia se tornam impossíveis de ignorar. Raramente têm uma causa única; quase sempre resultam da convergência de vários fatores.
O que hoje observamos nas nossas escolas – o não reconhecimento da autoridade dos professores e assistentes, a falta de docentes, episódios crescentes de indisciplina, de preocupante violência, bullying e ciberbullying, sofrimento psicológico e uma cada vez mais intrusiva ingerência parental -, parece ser o resultado de várias transformações profundas, de fissuras que se tornaram quase simultâneas na última década e meia. Quatro dessas fissuras ajudam a compreender o momento que hoje atravessamos.
Comecemos pela primeira. Desde a Lei n.º 85/2009, plenamente aplicada a partir do ano letivo de 2012/2013, a escolaridade obrigatória passou a estender-se até aos 18 anos ou ao 12.º ano. A intenção era, e continua a ser, inteiramente legítima: prolongar a permanência na escola e reduzir desigualdades, favorecendo a equidade social e a mobilidade educativa.
Mas o problema não esteve no princípio em si, esteve na forma como o sistema foi chamado a absorver essa mudança. Prolongar a escolaridade obrigatória significou trazer para dentro da escola mais adolescência, diversidade social, expectativas contraditórias e, em muitos contextos, manter dentro da instituição alunos profundamente desligados do sentido escolar. Alargou-se a missão da escola, mas sem lhe dar o correspondente reforço da autoridade, de alternativas e de recursos. Surge, então, a primeira fissura.
A segunda abriu-se quase ao mesmo tempo. No início da década de 2010, o digital deixou de ser apenas um instrumento e passou a ser um verdadeiro ambiente social. Redes como Facebook, Instagram ou TikTok transformaram-se em estruturas permanentes de socialização. A partir de 2012, com a rápida massificação dos smartphones, a influência dessas redes passou a ocupar uma parte crescente da vida de jovens e adultos.
Diversos investigadores e organizações internacionais têm vindo a alertar para o impacto deste ecossistema digital na saúde mental dos adolescentes. Estudos amplamente discutidos, como os de Jonathan Haidt, associam o uso intensivo de smartphones e redes sociais a níveis mais elevados de ansiedade entre jovens. A escola, por natureza uma instituição que exige tempo, reflexão e enquadramento pedagógico, vê-se hoje confrontada com um universo digital que se move a uma velocidade muito superior à sua capacidade de regulação.
A terceira fissura, talvez a mais profunda, diz respeito à lenta erosão do estatuto do adulto e do papel da família. Durante anos confundiu-se autoridade com autoritarismo e exigência com opressão. Em muitos discursos pedagógicos e culturais consolidou-se a ideia de que o adulto deve evitar o confronto e negociar permanentemente, como se fosse um mediador constante entre todas as sensibilidades.
Esta mudança foi sendo apresentada como um progresso civilizacional, mas o que se perdeu pelo caminho foi algo essencial: a legitimidade cultural da autoridade parental. A fronteira entre compreender e ceder começou a desaparecer e, pouco a pouco, o exercício da autoridade dentro da própria família foi-se tornando mais hesitante. E se a palavra do adulto perde firmeza em casa, é a escola que acaba por sentir as consequências dessa fragilidade, sobretudo nos anos mais turbulentos da adolescência.
Importa, ainda sobre este tema, lembrar um dado demográfico relevante. Muitos dos pais dos adolescentes de hoje tiveram os seus filhos já dentro da cultura digital e cresceram, eles próprios, num contexto de erosão progressiva do papel do adulto. A mesma geração que cresceu com o smartphone nas mãos tornou-se também a geração que introduziu esses dispositivos, desde muito cedo, na vida dos seus filhos. O ecrã passou a ocupar um espaço crescente nas rotinas familiares, substituindo muitas vezes as conversas, as brincadeiras espontâneas e o tempo livre em que as crianças exploravam o mundo através do corpo e da relação direta com os outros.
Que fique claro que não se pretende aqui cair no frequente erro da generalização, pois a ação da maioria dos encarregados de educação não está refletida neste preocupante quadro. O que se pretende é alertar para um fenómeno real, preocupantemente crescente e cujos efeitos são devastadores, tanto para a formação dos nossos jovens como para o regular funcionamento das escolas.
Uma quarta fissura pode e deve ser apontada: o impacto de determinadas políticas educativas adotadas no final da década de 2000 e consolidadas no início da década seguinte. Reformas que alteraram o Estatuto da Carreira Docente, acompanhadas por um conjunto de políticas educativas apresentadas como inovadoras e inclusivas, mas frequentemente percecionadas nas escolas como excessivamente burocráticas e afastadas da realidade pedagógica, a par de um discurso político e mediático não poucas vezes desvalorizador da profissão docente, acabaram por fragilizar o estatuto social e profissional dos professores. Num período em que a escola enfrentava já profundas transformações sociais e tecnológicas, estas políticas contribuíram para um clima de desgaste institucional e para uma perceção pública menos valorizada da função docente.
As consequências dessa quarta fissura tornaram-se visíveis ao longo dos anos. Durante mais de uma década e meia o sistema educativo viveu sem renovação significativa do corpo docente, sendo hoje um dos mais envelhecidos da Europa. A isto soma-se o desgaste acumulado de quem permanece no sistema, confrontado com a eterna burocracia e contextos sociais cada vez mais complexos. Sem renovação geracional, a escola torna-se menos ágil para responder às transformações do seu tempo.
Ao juntarmos estas quatro forças – mais adolescência dentro da escola, mais ruído digital no quotidiano, menos autoridade adulta na vida dos jovens e um conjunto de políticas educativas que acabaram por fragilizar o estatuto da profissão docente – percebemos como se formou a tempestade perfeita. A escola tornou-se o ponto onde tudo converge: a ansiedade dos jovens, a insegurança de muitos pais, a pressão cultural das redes sociais e o desgaste crescente de professores que sentem, muitas vezes, que tudo lhes é exigido e quase nada reconhecido. E convém não esquecer algo essencial: há muito que se reconhece à escola o papel de elevador social, mas nenhum elevador funciona quando as políticas sociais falham do lado de fora dos seus portões.
A crise que hoje atravessa a educação não nasceu dentro da escola. Porque nenhuma escola consegue reparar sozinha aquilo que uma sociedade deixou degradar.
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Mar 29 2026
Como sempre se disse, a solução é um concurso centralizado de professores – Paulo Prudêncio
Como sempre se disse, a solução é um concurso centralizado de professores
Não me lembro de ter começado o título de um artigo com o clichê “como sempre se disse”. Não aprecio o registo, nem o semelhante “avisei que ia acontecer”. Mas como os concursos de professores fazem a síntese da queda da escola pública, não resisti. Portanto, a espécie de “como há muito venho dizendo” foi escolhida com mágoa e a pensar nos excessos partidários, ou ideológicos, que na bolha político-mediática se associavam à impreparação dos governantes.
E recorde-se, antes do mais, mirabolantes opiniões sobre os concursos centralizados de professores por lista graduada: interesses corporativos; controlo das escolas pelos sindicatos mais à esquerda; os mais retrógrados do mundo civilizado; devem ser entregues às escolas e aos municípios para que escolham os melhores e acabem com o flagelo da “casa às costas”.
Pois bem: os actuais governantes, que subscreveram a generalidade do coro político-mediático e têm dois anos de exercício, propõem agora a consolidação dos concursos centralizados de professores sempre por lista graduada. Prometem um concurso anual para os quadros das escolas, colocações diárias para as restantes necessidades e eliminação de contratações pelos directores escolares.
Perante tão surpreendente exercício de lucidez, esta viragem de 180 graus exige, para que se clarifiquem os detalhes do que está em causa – e já se sabe a importância dos detalhes -, um resumo do argumentário no registo de “como sempre se disse” e que se termine com um curto elenco de mais soluções inadiáveis.
Como sempre se disse, há muito que existem meios técnicos e humanos para que os concursos centralizados por lista graduada sejam um não-assunto de exemplares eficácia e transparência.
Como sempre se disse, os concursos centralizados eliminam de vez a peregrinação dos professores em busca de vagas em centenas de portais escolares, com a entrega de currículos em cada um como em 2013 ou nas décadas de 1970 e 1980.
Como sempre se disse, conceber os concursos exige conhecimentos sólidos que cruzem os sistemas de informação com a organização escolar e que assumam as palavras-chave da sociedade da informação e do conhecimento: confiança, transparência e simplificação.
Como sempre se disse, os concursos de professores devem seguir as notáveis automatizações do Multibanco e do “Banco Online” e também requerem que a inteligência natural analise e programe o essencial das bases de dados.
Como sempre se disse, foi trágica a alteração para quadrienal da periodicidade dos concursos internos (quadros das escolas). Muitos governantes desconheciam que todos os anos abrem vagas nesses quadros e que estes concursos são cruciais para as aproximações à residência. Têm que ser anuais e por lista graduada, como se efectivou em 2023, e os restantes concursos têm todas as condições para se resumirem apenas num e diário.
Como sempre se disse, a lista graduada (que combina as classificações académica e profissional com o tempo de serviço) é como a democracia: o pior dos modelos, à excepção de todos os outros.
Como sempre se disse, mudar os concursos para os municípios agravaria o clientelismo vigente no caudilhismo escolar e proletarizaria ainda mais os professores.
Como sempre se disse, seria despesista ter 308 centros de concursos. O argumento da escolha do perfil dos professores por proximidade é exclusivo. A natureza inclusiva do ensino público requer a elevação das organizações com profissionais contratados em concursos públicos e confiáveis e com ajudas financeiras às deslocações.
Como sempre se disse, a teimosia em acabar com a ideia moderna de concurso centralizado accionou sucessivas explosões dos professores por desconfiança nos concursos realizados pelas escolas.
Como sempre se disse, foram as duas décadas de precarização, e apesar das ameaças da Comissão Europeia, que infernizaram os concursos.
Como sempre se disse e em suma, a origem da falta estrutural de professores resume-se em quatro eixos responsáveis pelo clima de injustiças e de parcialidades que levaram à queda da escola pública: proletarização da carreira, onde se incluíram os concursos; modelo autocrático de gestão das escolas; inferno da burocracia, agravado com a ilusão do controlo nos mega-agrupamentos; quotas e vagas na farsa avaliativa do desempenho. Ou seja, se a escola é decisiva na educação para a democracia, a reforma dos referidos eixos é crucial para transportar mobilização, inovação, previsão, aspiração e governo.
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Mar 28 2026
Onde estão a errar os pais na educação dos filhos?
Há uma ideia perigosamente romântica a infiltrar-se na educação contemporânea, a de que uma infância sem frustração é sinónimo de amor bem dado. Não é. É, muitas vezes, o primeiro passo para formar jovens emocionalmente frágeis, incapazes de lidar com o mundo real, esse lugar pouco dado a negociações, onde ninguém está particularmente interessado em saber se o “menino ficou triste”.
Frustrar uma criança não é maltratá-la. É, pelo contrário, um dos atos mais responsáveis e estruturantes que um pai ou mãe pode ter. Mas atenção, falamos de frustração com intenção, com medida e, acima de tudo, com afeto. Não se trata de negar por negar, mas de ensinar que o “não” existe e que não é o fim do mundo.
Hoje, muitos pais confundem proteção com permissividade. Evitam o conflito, antecipam desejos, removem obstáculos. Resultado? Crianças que crescem convencidas de que o mundo funciona à sua medida. Não funciona. E quando esse choque acontece, na escola, no primeiro “não” de um professor, na rejeição de um grupo, na exigência de um chefe, o impacto é brutal.
A frustração precoce é, na verdade, um treino para a vida. Ensina tolerância ao erro, resiliência, paciência, capacidade de adiar recompensas. Ensina, no fundo, a sobreviver. Porque ao contrário do que alguns parecem acreditar, nenhuma criança nasce equipada com estas competências. Elas constroem-se. E constroem-se, inevitavelmente, no desconforto.
A escola é o primeiro grande teste. Não é perfeita, longe disso, mas tem uma característica que a casa muitas vezes perdeu, regras que não são negociáveis. Uma criança que chega à escola sem nunca ter ouvido um “não” consistente, sem nunca ter esperado pela sua vez, sem nunca ter lidado com a frustração de não ser o centro do universo… está condenada a sofrer. E, pior, a falhar onde poderia ter sucesso.
E depois há o discurso, ingénuo ou conveniente, de que “cada criança tem o seu tempo” para tudo. Tem, claro. Mas não tem o direito de crescer à margem da realidade. O mundo não abranda para esperar que alguém desenvolva maturidade emocional aos 25 anos porque em casa nunca foi contrariado.
Pais que evitam frustrar os filhos não estão a poupá-los nem a protegê-los. Estão a adiar um embate que será mais duro, mais injusto e, muitas vezes, irreversível. A sociedade não educa com carinho. Não explica duas vezes. Não adapta regras porque alguém “não gostou”. E quando essa função passa dos pais para o mundo, o mundo ganha sempre.
Educar é preparar para a vida fora de casa, não criar uma bolha confortável onde tudo corre bem. É dizer “não” quando é mais fácil dizer “sim”. É permitir que a criança sinta desconforto, que falhe, que espere, que perca. Sempre com presença, sempre com afeto, mas sem ceder ao facilitismo.
Porque no fim, o objetivo não é criar crianças felizes a qualquer custo. É criar adultos capazes. E isso, goste-se ou não, começa com a arte, cada vez mais rara, de frustrar bem.
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Mar 28 2026
A filha da Isabel vai para o estrangeiro – João André Costa
A Isabel apareceu-me no ecrã como quem bate à porta sem avisar, um rectângulo luminoso a abrir-se ao fim do dia, e lá estava a fotografia: a filha, ainda com aquele ar de quem não decidiu se é criança ou já outra coisa qualquer, encostada a um balcão cheio de folhetos coloridos, bandeiras minúsculas espetadas em mapas a prometer mundos e fundos.
E a legenda: treze anos e já a aprender a partir.
Lembro-me da Isabel na escola secundária, o cabelo preso com uma caneta, os cadernos desarrumados, a rir-se de tudo como se o futuro fosse uma coisa vaga, um rumor demasiado distante para incomodar.
Se nenhum de nós pensava em cursos, escolhas, decisões, preocupações, universidades, responsabilidades, muito menos pensávamos em países cujos nomes nem sequer sabíamos pronunciar.
Para quê? Os pais estavam presentes, a família providenciaria e o futuro não era apenas risonho, era confortável e tranquilo.
E a vida, um descanso.
Um regalo.
Era bom viver.
E agora a filha, com treze anos apenas e já a percorrer corredores de luz branca, a aceitar panfletos de universidades com nomes em inglês, alemão, nomes para dizer com a boca cheia num trava-línguas.
Imagino-a a pegar nos papéis com cuidado, como quem recolhe provas de uma vida possível, dobrando-os depois na mochila ao lado do estojo e dos cadernos de matemática. Uma infância de panfletos, uma adolescência de mapas.
E a Isabel, do outro lado da fotografia, fora do enquadramento, a olhar para a filha como quem vê um comboio a partir devagar enquanto diz para si mesma ainda haver tempo.
Tempo para um último beijo.
Tempo para um último abraço.
O último abraço.
Quando voltares, já não serás a minha filha, dizes.
E nada disto está a acontecer, nada disto vai acontecer, isto é uma grande patranha, a última patranha.
Um país sem vergonha nenhuma de ver os filhos partir. Os nossos filhos, não os filhos dos outros, entenda-se.
Sempre os nossos filhos, os primeiros na linha da frente contra os canhões, marchar.
E os canhões ficam na mesma…
Uma mãe a ver a casa esvaziar-se por antecipação, e a distância já não é uma hipótese, mas uma disciplina.
Talvez haja um orgulho tímido, envergonhado até, a crescer no meio do peito, misturado com um medo incapaz de confessar nas redes.
Porque a minha filha vai para o estrangeiro, a minha filha vai ser alguém na vida e o sucesso é para partilhar.
Ao contrário do silêncio de um quarto intacto, incólume, parado no tempo, e o silêncio ninguém fotografa, a solidão ninguém partilha.
Penso na rapariga, na filha da Isabel, a atravessar stands como quem atravessa fronteiras invisíveis. Há ali uma curiosidade, claro, um fascínio quase turístico: as imagens de cidades limpas, bibliotecas infinitas, campus a parecerem jardins.
Mas também há uma aprendizagem discreta da ausência, uma preparação para não pertencer completamente a lado nenhum. Nem daqui, nem de lá.
A Isabel partilhou a publicação com um coração e um emoji sorridente no fim, como quem procura simplificar não apenas palavras, mas emoções.
A Isabel a reduzir o mundo a um par de símbolos enquanto se engana a si mesma e está tudo bem, mesmo quando não está completamente.
Porque o verdadeiro estrangeiro começa muito antes da viagem, começa ali, naquele instante no qual uma rapariga de treze anos aprende a imaginar-se longe.
E o difícil não é partir, até porque partir é inevitável. O difícil é o ensaio para a partida. O difícil é este primeiro panfleto guardado na mochila, seguido de tantos outros.
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Mar 27 2026
Fusão de ciclos acaba com professor único na primária
Estudo do Conselho Nacional de Educação que pode servir de base ao novo formato com um ciclo de seis anos defende que monodocência dê lugar a “equipas educativas estáveis”.
Fusão de ciclos acaba com professor único na primária
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Mar 27 2026
Ministério da Educação propõe novo modelo de concurso contínuo de docentes para resposta às necessidades das escolas
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Mar 26 2026
Fusão do 1.º e 2.º Ciclos, o Estudo do CNE
Deixo aqui o link para o Estudo e saliente algumas partes:
Para um currículo
dos primeiros seis anos de escolaridade
No que concerne às modalidades de docência, e independentemente da estruturação dos ciclos, a solução apontada para a fragmentação reside na alteração dos modos de trabalho docente. A ideia de monodocência pura foi matizada: o sucesso educativo não depende do isolamento de um professor único, mas da existência de equipas educativas estáveis. A proposta dominante para a reconfiguração curricular passa pela redução do número de interlocutores no 2.º ciclo (pluridocência cooperativa com quatro ou cinco docentes) e pela instituição da figura do professor tutor ou gestor do currículo, que garanta o acompanhamento integral dos alunos. Sublinha-se a necessidade de transitar de uma coadjuvação passiva para uma colaboração efetiva no planeamento e na sala de aula, permitindo uma gestão integrada do currículo, que dê sentido às aprendizagens e combata a dispersão.
…
A gestão de recursos humanos – A estrutura dos grupos de recrutamento e o atual modelo de concursos foram identificados, transversalmente, como o maior obstáculo técnico e organizacional à mudança. Embora exista enquadramento legal que permita à direção da escola atribuir disciplinas afins ao mesmo professor, desde que possua a devida habilitação, a rigidez administrativa do sistema de colocações e a elevada
mobilidade docente continuam a limitar a autonomia de gestão das escolas. Na prática, a dificuldade dos diretores em selecionar perfis docentes adequados ao projeto educativo das escolas inviabiliza a estabilidade necessária à constituição de equipas pedagógicas coesas e à consequente operacionalização sustentada de um currículo integrado.
…
A profissionalidade docente – Reconhece-se a premência de realinhar a formação inicial e a contínua com as exigências de um currículo que se pretende integrado. As audições evidenciaram que a atual matriz formativa, frequentemente ancorada numa lógica monodisciplinar e no ensino segmentado de didáticas, não prepara adequadamente os docentes para o desenvolvimento de projetos interdisciplinares. A constituição de equipas pedagógicas coesas exige não apenas especial atenção na elaboração de horários, mas
sobretudo uma formação que capacite os docentes para o trabalho colaborativo e para a gestão flexível do currículo, superando a cultura de isolamento e o tradicional modelo de instrução. Para tal, sublinha-se a necessidade de investir em dinâmicas estruturadas de indução profissional e numa forte formação contínua em contexto de trabalho, que assuma a escola como uma verdadeira comunidade de prática. Através desta formação entre pares será possível dotar os docentes da segurança e das competências necessárias
para a coadjuvação, a diferenciação pedagógica e a gestão flexível reclamada para os primeiros anos de escolaridade.
…
Em suma, a reconfiguração curricular dos 6 aos 12 anos assume-se não apenas como uma necessidade de harmonização internacional, mas como um compromisso inadiável com a qualidade e a equidade no desenvolvimento integral das crianças.
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Mar 26 2026
FNE participou em reunião de trabalho com o MECI sobre a revisão da carreira docente e legislação subsidiária
Foi ainda destacada a importância de garantir um melhor planeamento das necessidades das escolas e de assegurar uma colocação atempada dos professores, idealmente até ao final do mês de maio, contribuindo para uma resposta mais eficaz às exigências do sistema educativo e para a organização da vida pessoal e profissional dos docentes.
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Mar 26 2026
Colocação de professores continuará a respeitar a lista graduada nacional
Segundo o governante, do modelo atual mantém-se apenas o concurso interno, de mobilidade para professores dos quadros que queiram mudar de escola, que será antecipado para que os docentes já saibam, antes do final do ano letivo, onde estarão colocados em setembro.
Colocação de professores continuará a respeitar a lista graduada nacional
Fernando Alexandre garantiu ainda que a colocação de professores continuará a respeitar a lista graduada nacional – com base no tempo de serviço e classificação no curso de habilitação para a docência – e adiantou que não deverão realizar-se novos concursos externos extraordinários, uma vez que os professores com habilitação própria (sem formação pedagógica) também poderão candidatar-se ao novo concurso externo contínuo.
O MECI reconhece que há ainda muitos detalhes por definir, mas espera concluir a discussão até junho, para que as novas regras possam ser implementadas na contratação de professores para o ano letivo 2027/2028.
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Mar 26 2026
Ministro propõe acabar com contratações de escola
Fernando Alexandre acaba com contratação direta pelos diretores e lança modelo centralizado de colocações diárias de docentes. Fenprof diz que graduação profissional acaba mas ministro desmente.
Ministro propõe acabar com contratações de escola
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Mar 25 2026
Uma escola viva não é uma escola perfeita.
O que são as escolas?
Às vezes perguntam-me assim:
“Mas uma escola diferente é o quê, ao certo?”
E eu penso… diferente de quê?
Diferente daquela escola onde toda a gente anda a correr, mas quase ninguém sente que está verdadeiramente a aprender?
Diferente daquela escola onde se cumpre tudo… e, no fim, falta quase tudo?
Na minha opinião, quando uma escola tenta fazer diferente, não está a armar-se em moderna! Está, muitas vezes, só a tentar ser mais honesta com a realidade.
“Então inovar é acabar com tudo o que existia?”
Não.
É ter coragem para olhar para o que já não resulta e dizer: “assim não chega”.
É perceber que há alunos que precisam de mais espaço para pensar, mais tempo para fazer, mais autonomia para crescer e mais adultos a trabalhar uns com os outros, em vez de cada um fechado na sua sala, como se educar fosse uma coleção de ilhas.
E depois há escolas que arriscam. Que mexem no currículo. Que juntam professores. Que criam Projetos. Que apostam no trabalho autónomo. Que inventam roteiros de aprendizagem. Que dão aos alunos mais responsabilidade e aos adultos mais trabalho a sério.
Não é teatro!. É trabalho duro.
É tentativa, erro, escuta, afinação…
Num contextos escolar público que conheço, em Lisboa, isso tem passado por reorganizar alunos e docentes, usar projetos interdisciplinares, trabalho autónomo, roteiros de aprendizagem e apoio tutorial, repensando até tempos e espaços escolares.
“Mas isso funciona?”
Funciona sempre? Não.
Melhora tudo? Também não.
Dá mais sentido a muita coisa? Muitas vezes, sim.
Vai correr bem? Sim. Definitivamente.
Há muitos lugares em Portugal onde uma criança não é só mais uma cadeira ocupada.
Há muitos professores que não desistiram de pensar!
Há equipas que discutem, ajustam, inventam e voltam a tentar.
A escola pode ser exigente sem ser desumana. E deve.
A escola pode ter estrutura sem esmagar.
Pode ter liberdade sem cair no caos.
Uma escola que tenta fazer diferente não é uma escola perfeita. É uma escola viva.
E uma escola viva faz barulho, faz perguntas, comete erros, corrige, aprende.
Tal como os alunos.
Tal como os adultos.
Tal como a vida.
“E qual é o segredo?”
Não há segredo nenhum.
Há compromisso.
Há visão.
Há gente que, apesar de tudo, continua a aparecer e a dizer: “vamos outra vez”.
No fim, é isto que eu sinto: as escolas nunca são só edifícios, horários, projetos ou metodologias…
As escolas são as pessoas, não é ?
E quando as pessoas certas se juntam com coragem para fazer melhor, até as paredes parecem aprender.
Alguns dirão: “lá vem mais uma conversa bonita sobre inovação…”
E eu percebo esse ceticismo.
Na escola, já houve palavras caras, projetos vistosos e mudanças com bom aspeto no papel… mas pouco efeito real na vida de quem ensina.
Por isso, uma escola que tenta fazer diferente não pode ser só moderna no discurso.
Tem de ser mais honesta com a realidade.
Tem de dar mais sentido ao que se aprende, mais espaço ao que se vive e mais condições a quem lá trabalha.
Inovar não é deitar fora tudo o que existia.
Não é trocar exigência por confusão.
Não é pôr nomes novos em problemas antigos.
É olhar para o que já não chega e ter coragem para ajustar.
Porque uma escola viva não é uma escola perfeita.
É uma escola onde há tentativa, erro, compromisso, pensamento e gente que continua a aparecer para fazer melhor.
A verdadeira inovação não está em inventar uma escola nova. Está em ter coragem para humanizar a que já existe.
Alfredo Leite
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Mar 24 2026
Detido um dos “mentores” do grupo de WhatsApp que combinava atentados em escola de Oeiras
O jovem de 17 anos foi visto a manusear uma arma no exterior da escola e as autoridades foram alertadas
Detido um dos “mentores” do grupo de WhatsApp que combinava atentados em escola de Oeiras
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Mar 24 2026
Os alunos que batem…
A violência em idades precoces, seja no 1.º ciclo do ensino básico ou mesmo na educação pré-escolar em Portugal, deixou de ser um episódio raro para passar a surgir com inquietante regularidade nas notícias. Professores agredidos, auxiliares desrespeitados, colegas vítimas de comportamentos descontrolados, sinais de um problema mais profundo que não nasce na escola, mas que nela se manifesta com toda a sua força.
Importa, antes de mais, fazer um exercício de memória coletiva. Houve um tempo, não necessariamente melhor, mas certamente diferente, em que a educação familiar assentava em princípios claros de autoridade e consequência. Quando uma criança, num acesso de frustração, levantava a mão para bater num adulto, a resposta era imediata, um gesto firme que travava o impulso, um tom de voz elevado que marcava o limite, por vezes uma palmada que funcionava como símbolo inequívoco de consequência. Não se tratava apenas de punição, tratava-se da construção de uma fronteira.
Hoje, essa fronteira tornou-se difusa.
A pedagogia contemporânea, influenciada por correntes psicológicas modernas, privilegia o diálogo, a empatia e a autorregulação emocional. Em teoria, trata-se de um avanço civilizacional. No entanto, na prática, muitos pais não possuem as ferramentas emocionais, o tempo ou a consistência necessários para aplicar esse modelo. O resultado é uma educação híbrida, onde o discurso é sofisticado, mas a ação é inconsistente.
Como já alertava Sigmund Freud, “a civilização constrói-se sobre a renúncia ao instinto”. A criança não nasce socializada, nasce impulsiva, centrada no prazer imediato. A função do adulto é, precisamente, ajudá-la a lidar com a frustração. Quando essa mediação falha, o instinto prevalece.
Carl Jung acrescentaria que “aquilo a que resistimos persiste, mas aquilo que ignoramos cresce na sombra”. Ignorar ou relativizar comportamentos agressivos em nome de uma falsa compreensão emocional não elimina o problema, apenas o adia e o amplifica.
Na filosofia clássica encontramos ecos desta preocupação. Sócrates, frequentemente citado, ainda que de forma discutível, por criticar a juventude do seu tempo, já falava da necessidade de disciplina na formação do caráter. Platão, na sua obra sobre a educação na cidade ideal, defendia que a formação moral deveria começar cedo e ser conduzida com firmeza, “a alma da criança é moldável, mas também vulnerável ao desregramento”.
O que vemos hoje nas escolas portuguesas parece confirmar estas intuições antigas. Crianças que, perante a frustração, não encontram limites claros, testam constantemente a autoridade e estão a ganhar. E fazem-no porque aprenderam, consciente ou inconscientemente, que essa autoridade é negociável e inconsistente.
Importa aqui fazer uma distinção fundamental, a firmeza não é violência, e diálogo não é permissividade. O problema não está na evolução dos modelos educativos, mas na sua má aplicação. O diálogo exige competência emocional, consistência e autoridade. Um adulto que dialoga sem impor limites não educa, abdica das suas funções como educador.
A escola, por sua vez, tornou-se o palco onde estas falhas se tornam visíveis. Professores, já sobrecarregados com exigências curriculares e burocráticas, veem-se confrontados com comportamentos para os quais não foram preparados e que deveriam ter sido trabalhados no contexto familiar. A consequência é um ambiente educativo fragilizado, onde ensinar se torna cada vez mais difícil e às vezes impossível.
A questão que se impõe não é se devemos regressar ao passado, mas sim o que devemos resgatar dele. De certeza, não a palmada, mas certamente a clareza. Não o autoritarismo, mas a autoridade. Não o medo, mas o respeito.
Porque, no fim, educar continua a ser o mesmo desafio de sempre, preparar a criança para viver em sociedade. E isso implica, inevitavelmente, aprender que nem todos os impulsos podem ser seguidos, e que há limites que não se negoceiam. Ou vamos por este caminho ou como sociedade falharemos.
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Mar 23 2026
Alunos do 1º Ciclo atacam professoras na Sertã
Alunos menores frequentam escolas da Sertã e de Castelo. Agressões estendem-se a auxiliares e colegas.
Alunos do 1º Ciclo atacam professoras na Sertã
Três professoras do ensino básico da Sertã terão sido agredidas várias vezes e de forma violenta por dois alunos do 1º Ciclo que frequentam as escolas primárias da sede do concelho e da aldeia de Castelo.
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Mar 23 2026
O que preocupa mais é o pacote completo. É a criança que quer tudo depressa. É o aluno que bloqueia quando não consegue logo.
Pelo país, escuto dos professores que estão a receber crianças e jovens com mais dificuldades de base e, ao mesmo tempo, com menos tolerância à frustração, menos autonomia e menos treino para tarefas simples que antes surgiam com mais naturalidade.
Vê-se no aluno do 1.º ciclo que pega mal no lápis e se cansa depressa.
Vê-se no do 2.º ciclo que já consegue falar sobre a matéria, mas demora demasiado a copiar do quadro, suja o caderno todo, desiste facilmente e irrita-se quando lhe pedem cuidado.
E vê-se no do 3.º ciclo que até percebe a matéria, mas escreve à pressa, mal, com pouca organização, e perde qualidade por falta de base, de método e de resistência ao esforço…
O que muitos professores me transmitem é uma mistura difícil de explicar a quem está de fora: empatia pelas crianças e jovens, preocupação genuína com as famílias e, ao mesmo tempo, um enorme cansaço por verem cair sobre a escola problemas que começaram muito antes da sala de aula.
Um docente reconhece quando uma criança quase não recorta bem, quando evita desenhar, quando não regula a força da mão, quando não sabe esperar, quando quer desistir ao primeiro erro, ou quando vive tão habituada ao estímulo rápido que tudo o que exige atenção mais lenta parece “uma seca insuportável”.
E o que muitos pensam, a meu ver com razão, é isto: não se pode pedir à escola que repare sozinha aquilo que o estilo de vida atual tem vindo a fragilizar.
Os professores também partilham, muitas vezes, que há uma injustiça nesta conversa.
Quando uma criança chega com dificuldades muito visíveis, há quem olhe logo para o pré-escolar ou para o professor titular como se ali estivesse o centro do problema. Mas quem está na escola sabe que a realidade é outra. Sabe que há crianças com poucas horas de sono, excesso de ecrãs, pouca brincadeira livre, pouco treino de autonomia, pouca persistência e demasiada cedência à volta delas.
Sabe que há pais exaustos, outros desleixados, famílias sobrecarregadas e rotinas frágeis. E sabe, sobretudo, que a escola está a tentar ensinar enquanto também compensa, regula, acalma, organiza e repara. Isso desgasta muito.
Parece-me que o sto já não é só uma questão de “não saber segurar no lápis”. Isso seria quase o sintoma mais visível e mais simples.
É o pré-adolescente que tem dificuldade em ouvir um “não”. É o adolescente que acha insuportável o esforço continuado.
Muitos docentes sentem que estão a trabalhar cada vez mais sobre capacidades humanas básicas que antes vinham mais consolidadas de casa: esperar, insistir, tolerar desconforto, ouvir, cumprir, recomeçar…
Talvez esteja na hora de parar de simplificar. Não é sério culpar educadores de infância ou os professores por tudo.
A infância mudou, o ambiente familiar e digital mudou, e isso tem consequências reais no corpo, na atenção, na motricidade, na linguagem, no comportamento e na aprendizagem.
Acima de tudo, sinto que desejam que alguém diga com honestidade aquilo que eles vivemos todos os dias: a escola pode ajudar muito, mas não pode continuar a ser tratada como oficina geral de reparação daquilo que a sociedade vai desmontando.
…não, não estamos a pedir crianças perfeitas. Estamos a pedir crianças mais acompanhadas, mais treinadas para a vida real, e menos entregues a atividades que anestesiam o desenvolvimento.
Ensinar já é exigente.
Ensinar e, ao mesmo tempo, reconstruir bases que deviam vir de trás, é um peso enorme.
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Mar 23 2026
Diretores de escolas pedem aumentos e formação para novas funções
Os diretores de escola vão passar a assumir novas competências com a reforma orgânica do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), mas exigem ser recompensados pelo trabalho acrescido que vão ter e também pedem mais formação para desempenhar as novas tarefas. Reclamam também pela demora na apresentação do prometido estatuto do diretor, que deverá prever um reforço do suplemento remuneratório destinado a compensar funções de direção.
Diretores de escolas pedem aumentos e formação para novas funções
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Mar 22 2026
Diretores escolares ligam a docentes para aceitarem ir dar aulas
Com a lista nacional a não responder às necessidades de professores nas escolas e a não aceitação de horários em concurso de Contratação Escolas (publicados numa plataforma quando ninguém na lista nacional aceita o horário), os diretores escolares tentam de várias formas conseguir diminuir o número de alunos sem aulas.
Falta de professores: diretores escolares ligam a docentes para aceitarem ir dar aulas
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Mar 21 2026
98% dos professores do 1.º ciclo e educadores de infância estão exaustos?? – Alfredo Leite
Quando aparece uma notícia a dizer que 98% dos professores do 1.º ciclo e educadores de infância estão exaustos, indignados e sobrecarregados, a reação das pessoas costuma dividir-se.
E isso, por si só, já diz muito sobre o problema.
Há quem olhe para esta realidade e pense imediatamente: claro.
Basta entrar numa escola, observar a intensidade do trabalho diário e perceber que estes profissionais vivem no cruzamento de quase todas as pressões do sistema. Ensinam, regulam comportamentos, acolhem emoções, lidam com conflitos, adaptam estratégias, preenchem relatórios, falam com famílias, respondem a exigências institucionais e ainda tentam manter humanidade no meio disto tudo…
Para muitas pessoas, a exaustão destes profissionais não surpreende.
Mas existe também um segundo grupo, muito comum, que concorda com a ideia, embora a relativize. São aquelas pessoas que dizem: sim, estão cansados, mas hoje toda a gente está cansada.
É uma resposta meio empática, meio defensiva. Reconhece o problema, mas dilui-o. Como se o facto de haver cansaço em muitas profissões reduzisse a gravidade do que se passa na educação. Não reduz.
Porque no pré-escolar e no 1.º ciclo o desgaste tem uma particularidade: acontece precisamente nos contextos onde se constrói a base emocional, relacional e cognitiva !
Quando quem está a segurar essa base está no limite, o problema deixa de ser “apenas laboral”, passa a ser social.
Depois há quem reaja com desconfiança ou até irritação, sabia?!
Este grupo tende a achar que os professores se queixam demais, que têm regalias, que têm horários melhores do que outras profissões ou que a profissão sempre foi exigente.
O erro aqui, a meu ver, é olhar de fora para a escola, com memória de outros tempos.
A profissão mudou muito. Hoje, um docente é também regulador emocional, gestor de conflitos, mediador familiar, técnico de adaptação pedagógica, intérprete de comportamentos difíceis e, muitas vezes, alvo direto da frustração de um sistema que pede cada vez mais e organiza cada vez pior.
Olhar para esta profissão com categorias de há trinta anos é como avaliar um “telemóvel” atual como se ainda servisse só para telefonar.
Há ainda um grupo que vê nisto um sintoma de uma degradação mais ampla da sociedade. Estas pessoas não pensam que o problema esteja apenas na escola. Pensam que a escola está a pagar a fatura de várias falhas acumuladas: menos tempo de qualidade em família, menos consistência nos limites, mais ecrãs, menos tolerância à frustração, mais exigência emocional sobre os adultos, mais burocracia institucional e uma cultura geral onde tudo é urgente, tudo é sensível e quase nada é profundamente resolvido. Neste olhar, o professor e o educador aparecem como uma espécie de parede final contra a qual batem as insuficiências de todos os outros setores.
E depois há uma reação mais silenciosa…a de quem percebe que, se os profissionais que trabalham com crianças estão exaustos, isso é um sinal de alarme!
Porque no pré-escolar e no 1.º ciclo não se está apenas a ensinar letras, números ou rotinas…está-se a modelar atenção, linguagem, autorregulação, convivência, confiança e relação com o aprender.
Quando os adultos responsáveis por esse processo estão esmagados por tarefas, ruído e desgaste, a qualidade invisível da educação começa a cair. E a tragédia é que essa queda nem sempre aparece logo nas estatísticas. Aparece primeiro no clima. No tom. Na paciência. Na criatividade que desaparece. Na energia que já não chega para reparar, inspirar ou observar bem.
É por isso que a opinião pública fica dividida. Porque uma parte das pessoas vê o sofrimento destes profissionais e entende-o. Outra parte vê-o, mas banaliza-o. Outra desconfia. Outra usa-o como espelho de um problema maior. No fundo, a sociedade oscila entre empatia, incompreensão e resignação.
E esse é talvez, a meu ver, o aspeto mais inquietante: muita gente já aceita como normal que quem educa esteja profundamente cansado.
Ora, quando o esgotamento dos adultos que sustentam a infância começa a parecer normal, o problema fica dramático.
E você? De que lado se coloca?
PS: Parabéns à jornalista Manuela Micael, pelo artigo.
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Mar 21 2026
Por trinta euros – João André Costa
Havia uma criança, mas isso é de somenos importância, como se as crianças fossem uma espécie de poeira pousada ao de leve algures na vã memória dos adultos, e visível apenas quando a luz incide com um certo e determinado ângulo.
Trinta euros, indagaram, com a indiferença de quem põe de lado outras tantas migalhas, e a palavra “prazo” tombada sobre a mesa desde a Sexta-feira passada, a data limite para requerer duas semanas de refeições gratuitas durante as férias escolares para esta família em apuros.
A Direção da escola, composta por vozes amestradas a falar em conjunto sem dizer nada, alinhou argumentos como quem alinha talheres.
Falaram de regras, de processos, formalidades, de rigor financeiro, como se o orçamento fosse uma flor delicada e, ao mesmo tempo, exigente, para de seguida falarem de desvios mais o pecado original das exceções.
E no papel, nas linhas, nos números organizados num orgulho silencioso, nada para encher o estômago vazio de uma criança.
Primeiro a escola, afirmaram sem precisar de afirmar, primeiro a estrutura invisível responsável por sustentar a ordem, depois, e só depois, se houver margem, se houver folga, se houver um milagre capaz de permitir um gesto, a criança.
Mas a escola, essa estrutura de paredes e papéis, não respira sem os corpos pequenos de quem por ela entra todos os dias.
A escola não existe sem estes passos incertos nos corredores mais os olhares de quem ainda não aprendeu a disfarçar a necessidade.
E, no entanto, ali estava ela, a criança, reduzida a um pedido fora de prazo, a um erro administrativo, a uma linha não coincidente com a data certa.
A criança em casa, durante as férias, diante de um prato inexistente, a abrir armários como quem repete um gesto inútil, na esperança de alguma coisa, e alguma coisa é, invariavelmente, nada.
Nada mudou durante a noite e não aconteceu nada.
E a escola de portas fechadas duas semanas inteiras sabendo estar do lado de lá um corpo pequeno entregue ao intervalo da fome, e as férias são para desfrutar e não para incómodos e aborrecimentos de pouca relevância.
Porque a escola não se pode dar ao luxo de parecer flexível, de falhar perante quem avalia de cima, de abrir uma brecha impossível de fechar.
A palavra “precedente” circula como um fantasma, um fantasma mil vezes mais assustador se comparado com a fome de um petiz apenas.
E por um petiz não pára o mundo.
Mas devia.
E se uma criança não é uma ameaça, as vozes a gritar de cima são uma ameaça, e uma ameaça concreta.
Por conseguinte, escolhe-se o caminho mais fácil e mais seguro: recusar, arquivar, e seguir em frente com a consciência tranquila de quem cumpriu o seu dever burocrático.
Não sei como é possível dormir à noite depois disto.
Trinta euros, repito, como quem testa a solidez de uma palavra, como quem espera ver o número crescer, engordar ao ponto de uma gravidade capaz de justificar a recusa.
Mas não, mantém-se mínimo, risível, uma quantia capaz de se evaporar no dia a dia de qualquer adulto, um almoço a correr, uma despesa sem memória.
E ainda assim, naquele momento, transformou-se numa fronteira, uma trincheira, uma guerra perdida à partida.
Imagino as férias desta criança, quatorze “não-dias”, quatorze repetições, manhãs iguais onde a carência se instala devagar. E do outro lado, adultos com discursos anafados, a ruminar regulamentos numa convicção tranquila, certos de como proteger o sistema é uma espécie de virtude.
E quando a escola se esvazia, quando as luzes se apagam e os corredores devolvem apenas o eco dos passos ausentes, sobra uma instituição impecável, sem falhas no relatório, sem desvios no orçamento.
Do lado de fora do portão sobra uma criança fora do prazo.
E ninguém parece escutar esta aritmética simples: sem a criança, sem esta e outras crianças, a escola é apenas um conjunto de quatro paredes inúteis, assim como inúteis são os nossos empregos e respectivos salários.
Sem crianças, ninguém precisa de professores e os professores são dispensáveis.
São pormenores administrativos.
No fim, pagaste os trinta euros do teu bolso. Esta não é a escola com a qual sonhaste.
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Mar 20 2026
Professor e PowerPoint
Nas escolas, durante anos, fomos dando demasiado poder ao suporte e demasiado pouco à substância…
A meu ver, confundiu-se muitas vezes apresentação com aprendizagem, slide com pensamento e aspeto visual com qualidade pedagógica.
E o resultado ainda se vê com frequência: sessões longas, excesso de informação no ecrã, pouca arquitetura da mensagem, pouca ligação humana e quase nenhuma memória do que realmente interessava.
Uma boa apresentação em contexto escolar não se mede primeiro pelo design.
Mede-se pela clareza da ideia, pela ordem do raciocínio, pela escolha dos exemplos, pela força da narrativa e pela presença de quem fala. O centro não está no ecrã. Está na capacidade de tornar uma mensagem compreensível, viva e útil.
Ainda há dias, numa palestra para pais em Abrantes, pensei exatamente nisto.
No fim, o que fica nas pessoas raramente é o diapositivo bonito. O que fica é a ideia que entrou, o exemplo que fez sentido, a frase que organizou o pensamento. É isso que interessa.
Primeiro pensa-se. Primeiro arruma-se a ideia. Primeiro decide-se o que vale mesmo a pena dizer. Só depois faz sentido desenhar seja o que for.
Na minha opinião, a escola não precisa de apresentações mais vistosas.
Precisa de comunicação mais clara, mais viva e mais respeitadora da inteligência de quem ouve. Precisa de menos dependência do ecrã e de mais confiança na força de uma ideia bem construída.
Há pouco tempo, numa formação de professores online, voltei a encontrar o mesmo padrão: quanto mais carregada estava a apresentação, menos espaço havia para pensar.
O problema nunca foi o PowerPoint. O problema começa quando os slides deixam de servir a mensagem e passam a substituí-la. Nessa altura, a comunicação perde oxigénio. A sala continua presente fisicamente, mas a atenção já saiu pela porta.
Ao longo dos anos, em contextos muito diferentes, tenho visto a mesma verdade: uma mensagem clara, bem encadeada e bem entregue prende muito mais do que cinquenta slides cheios de texto.
Um bom professor, com uma folha em branco e pensamento organizado, continua a valer mais do que um mau comunicador armado com animações, esquemas e efeitos.
O resto, muitas vezes, é só pretensão de profundidade.
Há dias, numa formação para professores no Gavião, dizia precisamente isso: quando o pensamento está limpo, o suporte ajuda. Quando o pensamento está confuso, o suporte apenas disfarça. E disfarça mal.
E há ainda outro ponto, que digo com todo o respeito por quem organiza encontros, formações e seminários: também cansa ver contextos que gastam demasiado tempo antes de chegar ao essencial.
Apresentações intermináveis de oradores, currículos lidos como se fossem atas notariais, listas de cargos, agradecimentos em excesso, introduções que se arrastam e roubam energia à sala.
Tudo isso desgasta. Tudo isso afasta.
Tudo isso enfraquece a mensagem antes de ela começar.
Comunicar bem também é saber poupar o tempo dos outros!
Em educação, isso é uma forma de respeito. Porque quando a forma começa a ocupar o lugar da substância, já não estamos a ajudar ninguém a pensar melhor. Estamos apenas a encher o tempo com uma aparência de importância.
A boa comunicação não serve para impressionar a sala por uns minutos. Serve para deixar uma ideia viva o suficiente para continuar a trabalhar dentro da pessoa depois de tudo acabar.
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Mar 19 2026
Fórum FNE 2026 – “Valorizar a carreira é investir na Educação”
A Federação Nacional da Educação (FNE) promove no próximo dia 20 de março de 2026, no Auditório do SPZN, no Porto, a edição 2026 do Fórum FNE, que vai decorrer sob o lema “Valorizar a carreira é investir na Educação”.
Este será um espaço para debate e procura de mais respostas que permitam alcançar a valorização, desenvolvimento profissional e reconhecimento do trabalho docente durante o processo de Revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD), que decorre entre FNE e Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI).
Esta iniciativa pretende reforçar uma ação sindical transformadora, centrada numa intervenção participativa e inovadora, capaz de integrar as novas realidades da Educação e de promover um quadro legal mais justo, inclusivo e valorizador das carreiras.
A sessão de abertura decorrerá às 10h00 e estará a cargo de Pedro Barreiros, Secretário-Geral da FNE e da Vereadora do Pelouro da Educação e do Pelouro do Talento e Conhecimento, Dra. Matilde Gouveia Rocha seguindo-se às 10h30 o Painel I – O Estatuto da Carreira Docente: ponto de situação, com as participações de Paulo Fernandes, Secretário-Geral Adjunto da FNE, Pedro Brandão, Secretário Nacional FNE e Manuel Teodósio, Vice Secretário-Geral da FNE.
Pelas 11h30 acontece um espaço de debate, moderado por Maria João Cardoso, Vice-Presidente do Conselho Geral da FNE, antecendendo a paragem para almoço.
O regresso dá-se pelas 14h30 com o Painel II – Desenvolvimento profissional e valorização da carreira,com Rui Cardoso, Diretor Escolar, Alberto Veronesi, Diretor Escolar e Josefa Lopes, Vice Secretária-Geral da FNE, como oradores convidados seguindo-se um período de debate com moderação de Artur Silva,Secretário Nacional da FNE.
A “Sessão Final – Caminhos para a revisão do Estatuto” fecha os painéis de conversa e terá como oradores João Dias da Silva, Presidente da AFIET, José Ricardo, Secretário-Geral Adjunto da FNE e Joaquim Santos, Secretário Nacional FNE.
António Jorge Pinto, Vice Secretário-Geral da FNE e Gabriel Constantino, Presidente da Mesa do Congresso e do Conselho Geral da FNE, terão a seu cargo o encerramento desta iniciativa.

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Mar 19 2026
Pai,
Pai,
não sei bem onde começa a saudade
nem onde termina aquilo que ainda és em mim.
Sei apenas que não partiste por inteiro
há passos teus nos meus caminhos,
há gestos teus nas minhas mãos,
há silêncio teu nas decisões que tomo.
Foste filho antes de seres tudo o resto,
e fizeste-te homem na dureza dos dias,
com a coragem de quem não escolhe o caminho fácil
mas escolhe, sempre, o caminho certo.
Depois foste marido,
e foste porto seguro,
e foste casa.
E foste Pai
assim, com letra grande,
grande demais para caber numa palavra
e ainda maior para caber no meu peito.
E mesmo assim, cabes.
Cabes na forma como olho os meus filhos,
na forma como me levanto quando custa,
na forma como não desisto,
mesmo quando o mundo parece pesado demais.
Eu digo que te perdi,
mas é mentira que conto ao corpo,
porque a alma sabe:
eu tenho-te.
Tenho-te em cada escolha honesta,
em cada verdade que não nego,
em cada vez que tento ser melhor do que ontem.
E prometo-te, Pai,
não com palavras vazias
mas com a vida inteira
que hei de honrar o homem que foste.
Serei justo, como me ensinaste.
Serei firme, quando for preciso.
Serei abrigo, como foste para mim.
E quando me faltar a força,
sei que não estou sozinho:
há uma parte de ti que se levanta comigo.
Porque não te foste.
Transformaste-te.
Agora és caminho.
Agora és raiz.
Agora és voz dentro de mim.
E eu sigo,
com saudade, sim
mas também com orgulho.
Porque tive um Pai.
Porque tenho um Pai.
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Mar 19 2026
Lidar com alunos em desregulação emocional – Alfredo Leite
Numa escola, lidar com uma criança em forte desregulação emocional não é apenas um desafio técnico.
É um desafio neurobiológico, relacional e organizacional. E sim, é altamente desgastante para os adultos.
Muito mais do que muita gente admite, porque há uma tendência irritante para romantizar a inclusão sem falar do preço emocional pago, todos os dias, por quem está no terreno.
Em situações de meltdown e/ou shutdown, sobretudo em crianças com autismo, não basta boa vontade…
É preciso compreender o que está a acontecer. Um meltdown não é “má educação”, “manipulação” ou “birra sofisticada”.
É uma perda de regulação em que o sistema nervoso da criança entra em sobrecarga. Um shutdown é quase o inverso visível: em vez de explosão, há retraimento, bloqueio, desligamento, colapso funcional.
Nos dois casos, o cérebro está sob stress e a capacidade de linguagem, flexibilidade, raciocínio e autocontrolo fica diminuída.
É por isso que conhecer a teoria importa.
E importa muito. As boas práticas passam, por exemplo, por reduzir estímulos, frases muito curtas e concretas, não dar sermões em pico de desregulação, manter previsibilidade, antecipar transições, identificar gatilhos, validar sem reforçar desorganização, criar planos individualizados de regulação, treinar rotinas de co-regulação, respeitar sinais precoces de saturação e organizar o ambiente para prevenir em vez de apenas reagir.
Isto é ciência aplicada ao comportamento, à autorregulação e à neurodiversidade. Não é decoração pedagógica.
Mas aqui entra uma verdade essencial: saber a teoria não resolve automaticamente a realidade!
Há pessoas que confundem conhecimento com transformação. “Eu sei o que devia ser feito” não é o mesmo que “eu consigo fazer bem, de forma consistente, sob pressão, às 11h40, com barulho, com mais 25 alunos, depois de uma manhã inteira de desgaste”. A teoria é mapa. Não é milagre.
E mesmo quando o mapa é bom, a viagem continua cheia de curvas.
Além disso, aplicar corretamente boas práticas não significa que o comportamento do aluno vá mudar depressa. Este é um erro muito comum e muito humano.
Faz-se uma ou duas intervenções adequadas e espera-se alívio imediato. Mas regulação emocional, sobretudo em perfis com neurodesenvolvimento atípico, não funciona como se existisse um botão.
Funciona mais como “fisioterapia do sistema nervoso”: repetição, consistência, ajustamento fino, recaídas, pequenas melhorias, regressões e muito treino invisível.
Quem espera resultados lineares numa criança em sofrimento está a pedir ao cérebro uma obediência que o cérebro, naquele momento, não consegue dar.
É aqui que a equipa se torna decisiva.
Professores, auxiliares e técnicos têm de remar para o mesmo lado. Não basta cada um “fazer a sua parte” de forma isolada. É preciso que cada um saiba qual é a sua função, qual é a resposta combinada, quem intervém primeiro, quem reduz estímulos, quem protege o grupo, quem acompanha a criança, quem regista padrões, quem comunica com a família e como se faz o pós-incidente.
Quando isto não está alinhado, a escola transforma-se num barco em que cada um puxa o remo para um lado e depois todos se espantam por não sair do sítio. Um clássico da condição humana.
Também sinto que é preciso dizer isto: o cansaço altera a leitura moral que os adultos fazem uns dos outros. Sob stress crónico, o cérebro fica mais reativo, menos flexível, menos empático e mais defensivo.
A fadiga compromete atenção, controlo inibitório, memória de trabalho e capacidade de perspetiva.
Ou seja, como bem sabe, pessoas cansadas pensam pior, interpretam pior e cooperam pior.
Nessa fase, torna-se muito mais fácil ver a falha do outro do que a complexidade da situação.
Por isso surgem dinâmicas muito previsíveis…
O professor sabe a teoria, mas naquele momento não a consegue aplicar com qualidade.
A auxiliar até podia ajudar mais, mas tem medo e retrai-se…
O técnico percebe o quadro global, mas nem sempre está presente no minuto crítico.
E, como todos estão cansados, em vez de leitura sistémica aparece a circulação da culpa.
Uns culpam a professora. Outros culpam a auxiliar. Outros culpam a técnica. Outros culpam a família. E quase ninguém tem energia mental para dizer a frase mais científica de todas: “o sistema está sob pressão e precisa de mais coordenação, mais treino e mais apoio”.
O ponto central é este: numa escola, lidar bem com desregulação emocional grave exige três níveis ao mesmo tempo.
Primeiro, teoria sólida.
Segundo, prática consistente.
Terceiro, humildade para aceitar que mesmo boa prática não elimina a complexidade. Não estamos a falar de receita de culinária. Estamos a falar de cérebros humanos, stress, desenvolvimento, vínculo, ambiente e limites reais dos adultos.
O que mais ajuda, na prática, é simples de dizer e difícil de sustentar: plano comum, linguagem comum, papéis claros, treino repetido, entreajuda real, debriefing após incidentes e menos caça ao culpado.
Quando a equipa deixa de perguntar “de quem foi a falha?” e começa a perguntar “o que é que o sistema precisa para responder melhor da próxima vez?”, a escola sobe de nível.
A grande ironia é esta: para ajudar uma criança a regular-se, os adultos precisam primeiro de construir regulação entre si. Sólida.
Sem isso, cada crise da criança acorda a crise latente dos crescidos. E uma equipa cansada sem coordenação não educa, apenas sobrevive. E até as melhores equipas podem melhorar! E até as equipas de excelência necessitam de reforço e reciclagem (por isso, são de excelência).
Estão de parabéns aqueles que, muitas vezes sem reconhecimento, se expõe, tentam aprender mais e fazem por melhorar a sua prática. Os pais destes alunos (e dos outros) que se cruzam com estas equipas, são abençoados. Que eles também estejam à altura.
Alfredo Leite
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Mar 19 2026
Maior inquérito nacional sobre monodocência revela desgaste profundo entre educadores de infância e professores do 1.º Ciclo
O Inquérito nacional, promovido pelo Movimento de Professores em Monodocência (MPM) e pela plataforma MetaPROF, recolheu 7072 respostas e traça um retrato preocupante de exaustão, falta de reconhecimento e desigualdade estrutural no regime de trabalho.
O Movimento de Professores em Monodocência (MPM), em colaboração com a plataforma MetaPROF, apresenta hoje o Relatório Nacional sobre Monodocência 2026, o maior levantamento realizado em Portugal sobre as condições de trabalho dos educadores de infância e professores do 1.o Ciclo do Ensino Básico.
O estudo reuniu 7072 respostas válidas de docentes dos grupos de recrutamento 100 (Educação Pré-Escolar) e 110 (1.o Ciclo do Ensino Básico), recolhidas entre 27 de fevereiro e 4 de março de 2026, revelando um retrato consistente de desgaste profissional, falta de reconhecimento e desigualdade estrutural no regime de monodocência.
Entre os dados mais marcantes, 86% dos participantes afirmam que a monodocência é vivida como uma profissão de desgaste rápido, enquanto 72% consideram insuficientes os recursos humanos disponíveis nas escolas. O estudo revela ainda que os docentes acumulam, em média, 6,8 horas semanais de trabalho extra não reconhecido nem remunerado e quase metade dos inquiridos admite ponderar abandonar a profissão “algumas vezes” ou “frequentemente”.
Segundo Luísa Brandão, administradora do MPM, “este relatório dá voz a milhares de profissionais que enfrentam uma sobrecarga muito acima do razoável, acumulando funções pedagógicas, emocionais, administrativas e assistenciais. A monodocência continua invisível e em profunda desigualdade face aos restantes ciclos de ensino.”
Também Paula Costa Gomes, do mesmo Movimento, alerta para a total falta de atratividade destes grupos de recrutamento: “não existe atualmente qualquer atratividade para captar novos candidatos para a educação pré-escolar e para o 1.o ciclo. Esta realidade, somada à rutura no número de docentes, já visível de norte a sul do país, deve constituir uma prioridade política urgente, sob pena de a muito curto prazo não existirem educadores e professores em número suficiente para assegurar as aprendizagens das
crianças.”
O relatório evidencia igualmente o envelhecimento da profissão, com 73,5% dos inquiridos a terem mais de 20 anos de serviço. Entre os principais fatores de desgaste apontados destacam-se a acumulação de múltiplas funções pedagógicas e assistenciais, o aumento da burocracia e a indisciplina em contexto escolar.
A análise de sentimento das respostas abertas reforça este diagnóstico: 98% dos comentários relativos aos problemas da profissão apresentam tom negativo, confirmando um clima generalizado de insatisfação e exaustão.
Face aos resultados, o relatório apresenta um conjunto de recomendações, entre as quais se destacam:
● Revisão urgente do Estatuto da Carreira Docente, garantindo equidade para os grupos 100 e 110;
● Equiparação da componente letiva e reduções letivas aos restantes ciclos de ensino ou, em alternativa, criação de um regime especial de aposentação que reconheça o elevado desgaste associado à monodocência;
● Redução do número de alunos por turma;
● Constituição de um grupo de trabalho nacional com o objetivo de simplificar processos burocráticos e repensar o atual modelo organizacional das escolas.
O Relatório Nacional sobre Monodocência 2026, que inclui gráficos, análise qualitativa e
propostas de intervenção, encontra-se disponível em: www.metaprof.pt
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Mar 18 2026
Mais uma competência (escondida)
Os candidatos deverão proceder à submissão da respetiva declaração em Certificação de Tempo de Serviço – EPC no SIGRHE, para efeitos de contagem do tempo de serviço relevante para o concurso.
No momento da validação da candidatura, as declarações submetidas pelos candidatos integrarão diretamente o respetivo processo.
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Mar 18 2026
Reserva de Recrutamento 44 / Reserva de Recrutamento Concurso Externo Extraordinário 6 – 2025/2026
Aplicação da aceitação disponível das 0:00 horas de quinta-feira, dia 19 de março, até às 23:59 horas de sexta-feira, dia 20 de março de 2026 (hora de Portugal continental).
SIGRHE – Aceitação da colocação pelo candidato
Listas – Reserva de Recrutamento n.º 44
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Mar 18 2026
E se um professor, em certos momentos, não gosta de um aluno? – Alfredo Leite
E, se isso acontecer, é profissionalmente legítimo é transformar esse sentimento em tratamento desigual, humilhação, desistência pedagógica ou profecia de fracasso?
Esta distinção, a meu ver, é a mais importante: sentir não é o mesmo que agir…
Ensinar é uma profissão emocionalmente exigente, e a investigação mostra precisamente isso: os professores gerem emoções reais todos os dias, sobretudo em contextos de conflito, desengajamento e desgaste.
Fingir que um professor “deve gostar genuinamente muito de todos, sempre” não é uma espécie de “moralismo mal desenhado”.
Do ponto de vista psicológico, um professor pode não gostar de um aluno por várias razões: porque o aluno interrompe constantemente, desafia a autoridade, mente, provoca colegas, entra num jogo relacional desgastante, lembra alguém difícil da sua própria história, ou ativa preconceitos implícitos de que o professor nem tem plena consciência.
Vieses implícitos e expectativas dos professores podem influenciar perceções, atitudes e comportamentos em relação a certos alunos ou grupos, mesmo quando o adulto acredita estar a ser justo.
Por isso, a pergunta correta, na minha visão, não é “um professor pode sentir antipatia?”. Pode.
A pergunta correta é: “o que faz com isso?”.
Porque a qualidade da relação professor-aluno está associada a envolvimento escolar, rendimento, adaptação social, bem-estar subjetivo e clima de sala.
Relações mais próximas e menos conflituosas tendem a estar ligadas a melhores resultados; mais conflito tende a associar-se a mais problemas emocionais, sociais e académicos.
Imagine três exemplos.
Primeiro: um aluno do 7.º ano interrompe, faz comentários sarcásticos e testa limites sempre que a aula exige silêncio. É perfeitamente plausível que o professor sinta irritação e até rejeição. Isso é uma reação emocional. Mas, se começar a dar-lhe menos tempo de resposta, a corrigi-lo com dureza especial, a interpretar tudo o que ele faz como má intenção, ou a nunca lhe reconhecer progresso, já saiu da esfera do sentimento e entrou na esfera da injustiça. Aí o problema já não é “não gostar”. É discriminar pelo afeto negativo.
Segundo exemplo: uma aluna muito passiva, desligada e aparentemente “fria” nunca responde, evita olhar e parece desinteressada. O professor pode sentir antipatia porque lê aquela postura como arrogância ou desrespeito. Mais tarde descobre que a aluna está em sofrimento, com ansiedade social ou contexto familiar duro. Isto acontece muitas vezes: o adulto reage à superfície comportamental e falha o diagnóstico funcional.
A ciência das relações educativas mostra precisamente que as perceções do professor moldam a relação, e essa relação molda depois o comportamento e os resultados do aluno… espero não ter perdido o/ caro/a leitor/a… estes temas são importantes, parabéns por querer ir mais fundo.
Terceiro exemplo: um aluno é brilhante, rápido e até simpático, mas confronta o professor de forma subtil, corrigindo-o e tentando ganhar palco. O professor pode sentir antipatia porque a relação toca em orgulho, autoridade e estatuto. Isso também é humano. O critério profissional não é “nunca sentir isso”; é não retaliar pedagogicamente.
Um professor maduro transforma o desconforto em gestão de enquadramento: valida a participação, define regras de intervenção e recentra a relação no trabalho. Não é fácil. Eu sei. Não sou só o “psicólogo teórico”, felizmente, também faço ações de sensibilização para alunos e também dou aulas.
Em termos éticos, há uma formulação muito clara: o professor não tem obrigação de sentir ternura universal; tem obrigação de garantir equidade relacional mínima, segurança psicológica e acesso real à aprendizagem.
Não é obrigatório gostar, mas é “obrigatório” não perseguir, não desistir e não reduzir o aluno ao pior comportamento dele. Porque quando expectativas negativas e vieses entram no quotidiano, podem alterar o clima socioemocional da turma e o percurso do próprio aluno.
(Estou a precisar de reler a frase acima, a propósito de uma turma).
Também importa dizer isto: por vezes o problema não está apenas no professor!
Há alunos objetivamente “difíceis”….
Mas eu não me refugio nas aspas…
… há alunos agressivos, manipuladores, cronicamente opositores ou emocionalmente exaustivos. A relação pedagógica não é uma dança angelical. É uma relação assimétrica, intensa e repetida, dentro de uma profissão com forte carga de stress e burnout.
A investigação sobre trabalho emocional docente mostra que esta gestão contínua entre emoção sentida e emoção expressa tem custos.
Mas exatamente por isso a competência superior do professor não é “sentir bonito”. É pensar melhor sobre o que sente. Em termos práticos, quando um professor nota que não gosta de um aluno, deve fazer pelo menos quatro movimentos mentais. Primeiro, separar comportamento de identidade: “este aluno tem comportamentos que me irritam” não é o mesmo que “este aluno é insuportável”.
Segundo, procurar função antes de fazer julgamento: isto é desafio, defesa, procura de estatuto, insegurança, atraso autorregulatório?
Terceiro, monitorizar microcomportamentos próprios: tom de voz, ironia, proximidade, tempo de espera, feedback, contacto ocular.
A literatura mostra que o viés docente aparece precisamente nestas microinterações, às vezes invisíveis para o próprio adulto.
Quarto, criar uma rotina mínima de reparação relacional: um comentário neutro, uma pergunta sincera, uma oportunidade de sucesso, uma correção sem humilhação.
Há até uma formulação útil para formação de professores: não gostar de um aluno pode ser um dado emocional; tratar pior esse aluno é uma falha profissional; usar essa antipatia como pista para pensar melhor a relação é maturidade pedagógica.
Ninguém (são) pede ao professor que seja santo!
Pede-lhe algo mais difícil e mais sério: consciência, autorregulação e justiça.
Porque, numa sala de aula, a antipatia sentida em privado pode ser suportável.
A antipatia transformada em padrão relacional pode marcar um adolescente durante anos. E esse é o tipo de poder que exige carácter, não teatro emocional.
O professor verdadeiramente forte não é o que gosta espontaneamente dos alunos fáceis. É o que consegue não abandonar internamente os difíceis. É o que leu até aqui de mente aberta. Parabéns.
Alfredo Leite
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Mar 17 2026
Mais umas delegação de competências nos diretores
Despacho (extrato) n.º 3423-B/2026
Nos termos do disposto na alínea a) n.º 2 do artigo 6.º da Lei n.º 3/2004, de 15 de janeiro, na sua
redação atual, nos artigos 44.º a 50.º do Código do Procedimento Administrativo, aprovado em anexo
pelo Decreto-Lei n.º 4/2015, de 7 de janeiro, na sua redação atual, e no n.º 6 do artigo 20.º do Decreto-
Lei n.º 75/2008, de 22 de abril, na sua redação atual, determino o seguinte:
1 — Delego nos diretores dos Agrupamentos de Escolas e Escolas não Agrupadas, bem como nos
presidentes das Comissões Administrativas Provisórias, a competência para a prática dos seguintes atos:
a) Autorizar a acumulação de funções e atividades públicas ou privadas por parte do pessoal
docente e não docente em exercício de funções no respetivo agrupamento de escolas ou escola não
agrupada, nos termos da legislação aplicável, sendo as respetivas decisões tramitadas através da
aplicação informática disponibilizada pela Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE);
b) Autorizar a realização de visitas de estudo, intercâmbios escolares, atividades de geminação ou
outras atividades pedagógicas externas, no território nacional ou no estrangeiro, incluindo a deslocação
dos discentes participantes e dos docentes acompanhantes, independentemente da respetiva duração,
nos termos legalmente previstos;
c) Autorizar permutas entre docentes colocados em Agrupamentos de Escolas ou Escolas não
Agrupadas, desde que salvaguardadas as necessidades permanentes do serviço educativo e observados
os requisitos legais aplicáveis;
d) Autorizar a concessão de equiparação a bolseiro ao pessoal docente e não docente em exercício
de funções no respetivo Agrupamento de Escolas ou Escola não Agrupada, nos termos da legislação
aplicável, quando tal não implique encargos adicionais para o serviço, sem prejuízo das competências
legalmente atribuídas ao município.
2 — O presente despacho produz efeitos no dia seguinte ao da sua publicação.
16 de março de 2026. — O Presidente da Agência para a Gestão do Sistema Educativo, I. P., António
Raul da Costa Torres Capaz Coelho
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Mar 17 2026
Sete adolescentes identificados por usar artigos pirotécnicos em escola de Aveiro
A PSP identificou sete jovens, com idades entre os 12 e 15 anos, suspeitos de terem deflagrado cinco artigos pirotécnicos no interior de uma escola em Aveiro, informou aquela força policial.
Sete adolescentes identificados por usar artigos pirotécnicos em escola de Aveiro
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Mar 17 2026
Jovem mexia em faca durante aula nos Olivais. PSP apreendeu a arma
Um aluno foi ‘apanhado’ a mexer numa faca durante uma aula numa escola nos Olivais, em Lisboa. A coordenação da escola alertou a PSP para a situação que se deslocou ao local e apreendeu a arma branca. O caso foi remetido à CCPJ e ao Tribunal de Família e Menores de Lisboa.
Jovem mexia em faca durante aula nos Olivais. PSP apreendeu a arma
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Mar 17 2026
Treinadores (amargos) de bancada – Alfredo Leite
Na escola, como na vida em geral, há uma diferença decisiva entre os que constroem e os que comentam a construção. É uma das verdades mais antigas da convivência humana. Uns entram em campo. Outros ficam na bancada. E, como quase sempre acontece, quem está sentado vê muito erro em quem está a correr.
Os que fazem são fáceis de reconhecer. Não porque sejam perfeitos, mas porque deixam rasto. São os diretores que não se limitam a gerir incêndios e burocracias, mas criam cultura de escola. São aqueles que decidem, por exemplo, lançar um projeto de leitura quando seria mais cómodo dizer que “os miúdos já não gostam de ler”. São os que organizam semanas temáticas sobre bem-estar, cidadania ou ciência, mesmo sabendo que isso dá trabalho, exige articulação e nunca agrada a toda a gente.
São também as professoras com iniciativa. Aquelas que não ficam à espera que alguém lhes diga tudo. As que montam uma feira do livro, criam um mural de elogios entre alunos, organizam uma campanha solidária, preparam uma sessão com pais sobre limites e ecrãs, ou inventam maneiras novas de ensinar quando o manual, sozinho, já não chega. São as que percebem que educar não é apenas cumprir um programa. É mexer no ambiente. É elevar o contexto. É puxar a escola um pouco mais para cima do que ela estava ontem.
Há ainda os pais que lidam com a escola pela positiva. Não são pais submissos, nem ingénuos. São pais colaborativos. Pais que, quando há um problema, procuram perceber antes de atacar. Pais que dizem “como podemos resolver isto em conjunto?” em vez de começarem logo com o tribunal da indignação. Pais que reconhecem o esforço dos docentes, que aparecem quando são chamados, que educam os filhos para respeitar regras e pessoas. Esses pais não fazem barulho desnecessário, mas fazem uma diferença imensa. São uma espécie de cimento invisível da comunidade educativa.
E há os técnicos atualizados. Psicólogos, mediadores, animadores, terapeutas, formadores, assistentes, profissionais que estudam, que se revêm criticamente, que não ficaram parados em ideias gastas como se o mundo tivesse congelado em 2004. São pessoas que percebem que a realidade mudou, que os alunos mudaram, que as famílias mudaram, e que responder aos desafios atuais exige mais ciência, mais lucidez e menos frases feitas. Esses profissionais ajudam a escola a não envelhecer.
São estas pessoas que levam o mundo para a frente. Não porque sejam heróis de filme, mas porque aceitam a parte menos glamorosa da responsabilidade. Fazer implica expor-se. Implica decidir. Implica ouvir críticas. Implica, às vezes, falhar. Quem cria um projeto pode ver pouca adesão. Quem organiza uma atividade pode esquecer um detalhe. Quem tenta inovar pode não acertar logo. Mas há aqui uma diferença moral importante: falhar a fazer não é o mesmo que nunca fazer nada. O erro de quem tenta tem dignidade. O conforto de quem nunca arrisca costuma vir disfarçado de superioridade.
Depois há os que não fazem. E dentro desses, felizmente, há muita gente decente. Pessoas que não lideram projetos, não puxam processos, não têm perfil para organizar, mas também não atrapalham. Cumprem, respeitam, ajudam quando podem, não vão a palco nem aguentam. Essas pessoas merecem todo o respeito. Nem todos nasceram para abrir caminho, mas o mundo também precisa de quem saiba não destruir a estrada.
O problema não está nesses.
O problema está naquela minoria ruidosa que nada constrói, mas quer sempre parecer árbitro universal do esforço alheio. São os eternos comentadores da bancada. Os tais “velhos do Restelo” em versão contemporânea, agora com internet, perfil sem rosto e convicção a mais para obra a menos. Nunca lançaram um projeto. Nunca mobilizaram uma equipa. Nunca seguraram o peso real de decidir por outros. Mas aparecem sempre prontos para dizer mal de quem fez, de quem tentou, de quem ousou.
Vê-se isso muito nas escolas e nas redes sociais. Uma diretora cria uma iniciativa para aproximar famílias da escola e logo aparece alguém a dizer que “isto é só para aparecer”. Um professor organiza um encontro intergeracional e há logo quem desvalorize com um comentário azedo. Um técnico propõe uma abordagem nova e surge logo a crítica fácil de quem confunde cinismo com inteligência. É curioso como tantas vezes os mais ferozes na acusação são os mais estéreis na ação. Há pessoas que nunca plantaram nada, mas tornaram-se especialistas em avaliar colheitas.
Também é verdade que alguns desses perfis vivem presos a uma visão amarga da autoridade, da mudança e do mérito dos outros. Nem sempre por maldade pura. Por vezes por frustração, ressentimento, rigidez mental, hábito crónico de suspeitar de tudo, ou incapacidade de suportar ver alguém fazer o que eles próprios nunca tiveram coragem de tentar. O ser humano é assim, uma máquina estranha: aplaude o discurso da mudança, mas muitas vezes ataca quem mexe realmente nas peças.
E há outro dado da realidade que quase toda a gente reconhece, mesmo que nem sempre o diga: alunos, colegas e comunidades tendem a confiar mais em quem é genuinamente útil do que em quem é sistematicamente corrosivo. Pode haver medo momentâneo do crítico barulhento, mas raramente há admiração profunda. As pessoas podem ouvir o ruidoso, mas seguem o confiável. No fim, quem marca uma escola não é quem comenta mais. É quem melhora o ambiente, resolve problemas, cria pontes e inspira trabalho sério.
Convém, por isso, fazer uma distinção justa. Nem toda a crítica é má. Uma escola saudável precisa de contraditório, precisa de perguntas difíceis, precisa de gente que chame a atenção para erros reais. Mas crítica séria é diferente de ruído. Crítica séria ajuda a corrigir. Ruído tenta humilhar. Crítica séria assume responsabilidade. Ruído refugia-se no sarcasmo e na distância. Crítica séria quer melhorar a realidade. Ruído quer apenas parecer mais esperto do que quem está a trabalhar.
A conclusão nobre é esta: o mundo avança por causa dos que fazem. Dos que arriscam, propõem, organizam, corrigem, caem e voltam a levantar-se. São eles que mantêm viva a escola, a comunidade e a esperança prática. Merecem respeito, proteção e coragem renovada. Não precisam de ser perfeitos. Precisam de continuar.
Mas também merece reconhecimento quem, não sendo da linha da frente, sabe estar com dignidade. Quem não lidera, mas não sabota. Quem não cria projetos, mas não apaga a chama dos outros. Quem percebe uma verdade simples e rara: já é uma forma de grandeza humana não atrapalhar quem está a tentar construir.
Numa escola madura, como na sociedade, há lugar para os que lideram e para os que apoiam.
O que mais prejudica crianças e jovens é a pequena tirania dos que nada fazem e ainda se sentem autorizados a tentar enfraquecer quem faz.
Alfredo Leite
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Mar 17 2026
Da (grande farsa da) liderança escolar à impunidade: ainda as 79 escolas visitadas pelos influenciadores digitais
O PÚBLICO expôs este caso, agora mediático, que veio revelar fragilidades nos órgãos de direção, administração e gestão das escolas. Urge investigar com lisura e imparcialidade.
Da (grande farsa da) liderança escolar à impunidade: ainda as 79 escolas visitadas pelos influenciadores digitais
Sofia Neves
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Mar 16 2026
O que implicam as novas competências do diretores?
A explicação de cada ato, riscos e regras procedimentais…
Alínea a) — Matrícula repetida no mesmo ano e curso
O diretor pode autorizar que um aluno se matricule num ano de escolaridade em que já esteve matriculado anteriormente, quando a lei o admite (cf. regime de retenção e progressão, DL n.º 55/2018 e legislação conexa). A decisão deve ser fundamentada, identificando a norma habilitante, a situação concreta do aluno e a justificação pedagógica ou legal. Não se trata de um ato discricionário puro — o diretor não pode autorizar o que a lei proíbe; a delegação só opera dentro dos casos legalmente permitidos.
Alínea b) — Antecipação ou adiamento da matrícula no 1.º ciclo
A matrícula no 1.º ano pode ser antecipada (crianças que completem 6 anos entre setembro e dezembro) ou adiada (situações de imaturidade ou condição de saúde), nos termos do Despacho Normativo n.º 10-B/2021 e legislação aplicável. A alínea exige fundamentação qualificada — o diretor não pode deferir sem elementos objetivos que documentem a situação excecional (relatório médico, parecer do psicólogo, etc.). A decisão deve constar de despacho escrito com identificação dos factos e da norma habilitante.
Alínea c) — Revalidação de matrícula anulada por falta de pagamento
Aplica-se sobretudo ao ensino secundário particular e cooperativo com paralelismo pedagógico, onde a propina é devida, e ao seguro escolar. O diretor pode reativar a matrícula anulada, mediante comprovativo de pagamento ou acordo de regularização. Sugere-se que o procedimento contemple: pedido escrito do encarregado de educação, comprovativo de pagamento ou acordo, despacho de revalidação com data de produção de efeitos.
Alínea d) — Transferências e matrículas/inscrições fora de prazo
Esta é provavelmente a alínea de maior impacto operacional. Abrange:
- Transferências internas e externas, com ou sem mudança de percurso formativo (p. ex., de Ciências para Humanidades)
- Matrículas e inscrições requeridas após o termo dos prazos legalmente estabelecidos
O âmbito é explicitamente amplo: ensino básico e secundário, público e privado. No que respeita ao ensino privado, a competência do diretor de agrupamento público aplica-se quando o processo tem origem ou destino na sua escola.
A decisão de autorizar transferência com mudança de percurso deve considerar a viabilidade de integração curricular, os módulos ou disciplinas em causa e o interesse do aluno — são elementos de instrução do processo que devem constar do dossier administrativo.
Alínea e) — Qualificação de acidentes em serviço (DL n.º 503/99)
Esta é a alínea de maior complexidade jurídica e de maior risco para o diretor. Delega três competências distintas:
- Qualificar o acidente como acidente em serviço — ato constitutivo de direitos, com efeitos na proteção social do trabalhador. Exige instrução rigorosa: participação do acidente, relatório das circunstâncias, testemunhos se possível, confirmação de que o acidente ocorreu no exercício de funções ou a caminho do serviço (acidente in itinere).
- Autorizar o processamento das despesas — ato com impacto financeiro direto. O diretor deve verificar a documentação de suporte (faturas, recibos médicos) e autorizar o pagamento dentro das condições do DL 503/99.
- Autorizar a reabertura por recidiva, agravamento ou recaída — implica análise técnica do nexo de causalidade entre o evento inicial e a nova situação clínica. É prudente solicitar parecer médico formal antes de decidir.
Cautela prática: o diretor deve registar sistematicamente todos os processos em SIGRHE e manter dossier completo, dado o potencial de litígio nestas matérias (ação judicial, queixa à Inspeção-Geral de Educação e Ciência).
Alínea f) — Protocolos, parcerias e acordos de cooperação
Competência de enorme utilidade para a vida dos agrupamentos, mas com condição expressa: não podem implicar encargos financeiros permanentes. A interpretação desta condição é crucial:
- São admissíveis encargos pontuais ou transitórios (p. ex., uma contribuição para uma atividade específica)
- São excluídos encargos que se prolonguem no tempo de forma sistemática ou que criem obrigações financeiras de execução continuada
O despacho não exige a publicação dos protocolos no Diário da República, mas recomenda-se que os mesmos sejam submetidos a aprovação do Conselho Geral quando envolvam contrapartidas relevantes para a escola, por força das competências de acompanhamento daquele órgão (DL 75/2008, art. 13.º).
Alínea g) — Autorização de estudos científicos
Competência simples na forma, exigente na instrução. O diretor deve avaliar: impacto no funcionamento normal das atividades; tratamento de dados pessoais de alunos (RGPD — obrigatoriedade de consentimento dos encarregados de educação); eventual parecer da Comissão Nacional de Proteção de Dados se envolver dados sensíveis; e idoneidade científica da entidade proponente.
Alínea h) — Permutas de disciplina opcional e de língua estrangeira no ensino básico
Competência de natureza pedagógico-administrativa: permite ao diretor autorizar que um aluno frequente, por exemplo, uma segunda língua estrangeira diferente da atribuída à turma, ou uma disciplina opcional distinta da sua turma, quando haja vaga e compatibilidade de horário. A decisão deve ser registada no sistema de gestão escolar e comunicada aos serviços de ação educativa.
Como devem ser praticados estes atos — regras procedimentais comuns
1. Forma escrita obrigatória. Todos os atos delegados são atos administrativos e estão sujeitos ao regime do CPA. Devem ser praticados por escrito, com identificação do decisor, da norma habilitante (incluindo referência ao Despacho 3423-A/2026 e à alínea correspondente), dos factos relevantes e da decisão.
2. Fundamentação. Nos termos do artigo 152.º do CPA, os atos administrativos estão sujeitos a dever de fundamentação, especialmente quando sejam desfavoráveis ou discricionários. Mesmo os atos favoráveis devem identificar a base legal e os elementos de instrução que os sustentam.
3. Tramitação preferencial em SIGRHE. O despacho estabelece expressamente que, sempre que possível, os procedimentos devem ser tramitados através do SIGRHE, dispensando comunicações adicionais aos serviços centrais. Esta indicação serve dois propósitos: rastreabilidade e dispensa de procedimentos burocráticos paralelos.
4. Impugnabilidade. Os atos praticados ao abrigo desta delegação são impugnáveis pelos interessados perante o próprio diretor (reclamação) ou hierarquicamente perante o membro do Governo competente (recurso hierárquico), nos termos gerais do CPA. O diretor deve estar preparado para responder a estas impugnações.
5. Responsabilidade. A delegação transfere para o diretor a responsabilidade pela legalidade e mérito dos atos praticados. Em caso de ilegalidade, o ministro pode avocar e revogar, mas a responsabilidade disciplinar e eventualmente financeira permanece na esfera do delegado.
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