Diz-se dos britânicos saberem a chegada do Verão quando a chuva está quente. Quanto ao resto, e o resto é o mundo, a realidade em redor, o resto continua dia após dia e indiferente à mudança das estações.
O mesmo se diz em relação às necessidades educativas, indiferentes aos ritmos sazonais, ainda para mais quando a chegada do Verão equivale à chegada das férias escolares e a hiperactividade não tira férias, o autismo não tira férias, a labilidade emocional também não e as dificuldades de expressão e/ou compreensão igualmente, só para enumerar alguns exemplos do dia-a-dia.
Os professores vão de férias, a escola, sim, vai de férias durante 6 semanas por inteiro e durante 6 semanas os portões fechados, o ensino ausente, a certeza incerta, a insegurança e o inesperado à espreita.
E se num passado não muito distante eram abundantes as actividades recreativas estivais de foro gratuito para as crianças desta terra, os cortes orçamentais acrescidos de desavenças políticas com os países da União entre pandemias e guerras levou à perda do supérfluo e o supérfluo são as crianças à deriva sem pais para acudir, exaustos e/ou ausentes, e um Verão inteiro por preencher.
Sistematicamente, em Setembro cabe aos professores do ensino especial apanhar os cacos que um dia foram crianças entre consumo de estupefacientes, criminalidade juvenil, abusos físicos, emocionais e sexuais, abandono parental, a perda da habitação, fome e desnutrição e todo o trabalho de um ano por água abaixo.
As crianças já não confiam, temem, perdem a pouca inocência ainda presente ou então regridem para estadios desenvolvimentais infantis e à chegada à escola metem dó.
Conclusão: num futuro não muito distante, as escolas de ensino especial não poderão encerrar para férias. Virtualmente já não encerram, estando a escola em contacto regular com a polícia e os serviços sociais nos casos mais urgentes onde a partilha de informações é vital para o bem-estar das crianças.
Resta saber qual o modelo e o financiamento capazes de sustentar a abertura física da escola para o desporto, jogos, cinema, voluntariado, salas de estudo, entre outros. Na ausência de fundos públicos, terão as escolas de recorrer a patrocínios de privados? Já é comum o aluguer de espaços escolares para desporto ou conferências durante os fins-de-semana e períodos de férias num incremento ao orçamento. Daqui para as seis semanas estivais é um passo sob o emblema de uma popular marca de refrigerantes.
E os professores? Terão os professores descanso ou direito ao mesmo? Será esta realidade distópica uma realidade em breve? E porque não os apoios aos pais e famílias igualmente patrocinados por uma popular marca de refrigerantes? E o mesmo em relação às actividades de Verão? Porquê o ónus da educação sempre na escola e nos professores? Qual a motivação política?
A desculpa é a mesma de sempre: depois dos pais, são os professores quem melhor conhecem as crianças.
E caso não aceitem, a chantagem é imediata sob pena de responsabilidade legal caso o bem-estar da criança esteja em causa.
Com o Verão à porta, são estas as conversas à porta ou às portas, nos corredores, nas salas de reuniões das instâncias hierárquicas superiores.
Mas com as mesmas instâncias destituídas da capacidade de uma planificação à distância, ou não tivesse a mesma custos políticos, para já e até prova em contrário esta é uma não notícia, típica da “silly season” que se aproxima.
A realidade, infelizmente e aqui estamos todos de acordo, tem o tamanho do Verão e a escola fechada sem ninguém para acudir.
Até que algo aconteça. Quando esse dia chegar, aí sim, os custos políticos, as parangonas e as decisões governamentais em nome das crianças e as crianças acima de tudo.
É uma questão de tempo.