E o simulacro de luta continua…
A Plataforma de Sindicatos, encabeçada pela FENPROF e pela FNE, anunciou, em 7 de Julho passado, que a primeira Greve do próximo Ano Lectivo estará prevista para o dia 6 de Outubro do corrente ano (Jornal Público, em 7 de Julho de 2023)…
Perante tal declaração, não restará outra alternativa que não seja sorrir sarcasticamente:
– Agendar uma Greve para daqui a três meses, sabendo que, no último meio ano, nenhuma das principais reivindicações dos Professores foi atendida pelo Ministério da Educação e que a Tutela continua a fazer “gato-sapato” da Classe Docente, será o mesmo que, subliminarmente, afirmar:
“Esqueçam lá isso, fiquem mas é sossegadinhos e caladinhos”…
– Agendar uma Greve para uma sexta-feira, sabendo que no dia anterior é Feriado Nacional (5 de Outubro, Implantação da República) será o mesmo que, subliminarmente, afirmar:
– “Vá, façam lá Greve, que assim sempre ficam com quatro dias de descanso”…
O objectivo do evento agora anunciado será fazer esquecer a luta ou estar-se-á a assumir que, afinal, a mesma nunca existiu?
Que seriedade e que credibilidade poderão ser reconhecidas a este tipo de actuação que, em vez de contestar fortemente a injustiça, a iniquidade e as atitudes, cada vez mais, revanchistas por parte da Tutela, se limita a decretar uma Greve para daqui a três meses, nas circunstâncias anteriormente descritas?
Sobretudo, quem olha de fora para esta actuação não poderá deixar de sorrir e de a ridicularizar, considerando-a, expectavelmente, como uma forma de “brincar às Greves”…
Alguém acreditará que tal acção “reivindicativa” possa ser susceptível de forçar a Tutela a retroceder no que quer que seja?
Que poder negocial, junto do Ministério da Educação, poderá ser reconhecido a estruturas sindicais, cujas acções “reivindicativas” sejam semelhantes à que agora foi decretada pela Plataforma de Sindicatos?
Se isso é o melhor que se consegue fazer em termos de luta, de protesto e de reivindicação, num momento tão crucial para todos os Professores como o actual, restará, então, afirmar que a referida estrutura sindical parece ter-se tornado numa caricatura de um Sindicato…
Num dos momentos mais difíceis para os Professores, após o 25 de Abril de 1974, em vez do apoio inequívoco da Plataforma de Sindicatos e da firmeza dos seus líderes, mais parece que os Docentes foram brindados com passividade e incompetência…
Deste momento, ficaria, por certo, uma caricatura patética e jocosa, não fosse dar-se o caso de tudo isto poder ser realmente trágico para a maioria dos Professores…
O Ministro da Educação bem poderá ficar descansado:
– A farsa das “coreografias bem encenadas” parece prevalecer, assim como os simulacros de luta e os plausíveis “pactos de não agressão” em relação à Tutela…
A descrença generalizada dos Professores na maior parte das estruturas sindicais que supostamente os representam, que já era um dado adquirido, torna-se, agora, ainda mais evidente e incontornável…
E esse cepticismo dos Professores face aos Sindicatos que supostamente os representam também contribuirá, certamente, para que cada Docente se enrede, cada vez mais, no seu próprio individualismo e na defesa dos seus próprios interesses, descurando a união de classe profissional…
A Classe Docente tem-se caracterizado por uma certa predisposição para a desagregação e para a fragmentação, plausivelmente originadas pelas diversas situações profissionais aí presentes, que culminam, frequentemente, na ausência de consensos e de solidariedade entre as partes que a compõem…
As estruturas sindicais poderiam, e deveriam, ter um papel fundamental no sentido de conseguirem aglutinar os Professores e de contrariar as eventuais discórdias e “conflitos de interesses” existentes dentro da Classe Docente…
Infelizmente, as estruturas sindicais não têm conseguido opor-se a essa desunião, uma vez que elas próprias se têm constituído como factores de divisão e de facciosismo, frequentemente assentes num incompreensível corporativismo e na exaltação de protagonismo…
Enquanto assim for, não haverá qualquer esperança de poder encetar-se uma luta verdadeiramente séria e credível, que conduza aos resultados pretendidos…
E os principais prejudicados serão sempre os Professores que se encontram “no terreno”, pois serão sempre eles os principais destinatários das maldades concebidas pelo Ministério da Educação…
Em vez de insistirem em simulacros, as estruturas sindicais da Educação talvez devessem aconselhar-se sobre formas sérias e credíveis de luta junto das suas congéneres da Saúde, da Justiça e dos Transportes…
Já o conforto proporcionado por alguns Gabinetes Sindicais e a distância que os separa de qualquer escola e, em particular, das salas de aula, poderão ser verdadeiramente enganadores e péssimos “conselheiros”…
Aceitar o mau, considerando que o mesmo poderia ser ainda muito pior, não passa de uma estratégia para disfarçar os insucessos e escamotear a incapacidade para combater frontalmente as políticas educativas, procurando, sem reservas, alcançar o bom…
E isso é muito “poucochinho” para quem tem aspirações ao protagonismo…
(Paula Dias)