Os Números que Interessam e Não é o 9-4-2

(…)

Mas indo aos números:

Desde 2007, o estado português gastou 11% do PIB com o sistema financeiro. O que compara com apenas 2% na área do euro. De facto, houve quem tivesse gasto mais como a Irlanda, Grécia ou até a Eslovénia (esta última muito devido a problemas específicos em algumas empresas públicas). Mesmo a Espanha, que teve uma bolha imobiliária em termos relativos maior do que a americana, gastou “apenas” 5% do PIB – menos de metade do que a economia portuguesa que não beneficiou do mesmo crescimento que a Espanha antes da bolha rebentar!

Custo com intervenções públicas no setor financeiro entre 2007 e 2019 (% do PIB)

Fonte: Eurostat e cálculos do autor

Até se poderia argumentar que, tal como noutros países, este esforço público foi feito também para ajudar a que os bancos limpassem os seus balanços para conceder mais crédito às empresas em melhor condição. Nada mais errado. Na verdade, o volume de crédito para empresas em Portugal caiu cerca de 30% desde 2007, o que compara com um crescimento de 5% na área do euro. Já o crédito para as famílias caiu também, ainda que menos (16%), tendo crescido 14% na área do euro. Ou seja, na prática o que foi gasto foi para pagar os erros do passado.

E o panorama no mercado de capitais é ainda mais desolador. Uma parte do crédito bancário foi substituído pela emissão de obrigações. Mas na verdade, ainda que o volume de títulos emitidos por empresas esteja praticamente em linha com o registado em 2008, está já 10% abaixo do máximo registado em 2013 (quando as maiores empresas com algum acesso ao mercado internacional substituíram o crédito bancário pelo mercado de capitais).

E, por último, o mercado de ações, se é que ainda lhe podemos dar esse nome. Depois de 2007, não só o nosso maior índice de ações passou de PSI 20 a PSI 18, como está 60% abaixo do valor do verão de 2007 (antes da crise). O Eurostoxx 50 (principal índice da área do euro) está também ainda abaixo do seu máximo de 2007, mas ainda assim com menor distância: “apenas” 20%.

O resultado económico é sabido. Desde 2007, o PIB subiu apenas 3% em Portugal, e 11% na área do euro, com todos os países a crescerem mais do que Portugal, com a exceção da Grécia e Itália. E sem financiamento e com pouca poupança, o investimento agregado só agora voltou para os valores registados antes da crise, algo que apenas se verifica também na Grécia…

Crescimento real acumulado do PIB 2017-2018 (%)

Fonte: Eurostat e cálculos do autor

Conclusão: Vamos voltar ao mesmo?

É certo que muito mudou e Portugal está agora noutra fase. Tem crescido acima da média da área euro e o crédito (e investimento) tem vindo a recuperar. Muito do que foi feito antes da crise seria praticamente impensável hoje em dia, até porque os principais bancos são regulados não a partir da Rua do Comércio, mas de Frankfurt. No entanto, este consenso em “condenar” Joe Berardo com esse grande castigo que será a retirada das condecorações esquecendo que muitos dos outros comendadores foram também responsáveis não augura nada de bom.

Ao condenar Berardo está-se a pôr uma esponja sobre todos os outros, e pior, a caricaturar algo bem sério: A captura do estado, reguladores e bancos por um grupo de empresários e políticos. Com o programa de ajustamento, com as alterações ao nível europeu e com a perceção pública de que algo teria de mudar, estávamos a andar na direção certa, mas será que agora que já há algumas melhorias vamos voltar ao mesmo? Basta retirar as condecorações a alguém apenas porque gozou com os deputados? E foi Berardo o único a gozar?

Como dizia Marx, a história repete-se primeiro como tragédia e depois como farsa. Depois da tragédia da última década chegámos agora à farsa?

Hey Joe, what do you know? A tragédia portuguesa resumida numa gargalhada – ECO

 

PS:

E a fina flor do entulho continua ai…a rir e na boa:

Joe Berardo não é o único grande devedor da Caixa condecorado – ECO

 

PS2:

Berardo pode aldrabar? Sim, mas com bons modos no Parlamento – ECO

 

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1 comentário

    • João Lima Ferrreira on 19 de Maio de 2019 at 15:56
    • Responder

    É hoje evidente que Portugal, consegui esconder um subprime do setor bancário.
    Tal como em Espanha a ajuda FMI/UE, deveria sanear as enormes imparidades da banca. Mas não, o problema eram os “portugueses que viviam acima das suas possibilidades”.
    Quando se junta o setor bancário( incluindo o regulador Banco de Portugal), político e construção civil o resultado e certo!
    A pergunta que eu faço é : o que vieram cá fazer os técnicos do FMI e UE?
    Mandar umas bocas??
    Já sabemos que a culpa ” morrerá solteira de recurso em recurso até à PRESCRICAO FINAL”.

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