Há algo que começa a ser incompreensível, “os estudos ou trabalhos internacionais”, de que todos falam, mas nenhum tem a honestidade intelectual de os nomear ou apresentar…
Este assunto, tem pano para mangas, os intelectuais de gabinete, têm todos opinião sobre algo que, a meu ver, só conhecem a partir da teoria. Esta opinião, parece uma resposta a outras que já aqui foram publicadas… mas como disse o Tiago Brandão, “Quem manda é o governo”…
Sou contra os exames desde que estudei, investiguei e conheci os trabalhos internacionais que revelam que os exames são o modo mais pobre de avaliação das aprendizagens.
1. Os exames excitam os discursos e as críticas ao actual governo. A favor dos exames, basta o senso comum e a ignorância. Contra, é preciso entrar em grandes explicações. Para mim, a questão é simples: os exames são um mecanismo criado no interior do sistema que revela uma concepção de Escola. Dum lado, a Educação Para Todos com valorização do trabalho dos professores e procura de caminhos para assegurar aprendizagens exigentes face aos desafios do presente e do futuro e, do outro, a escola que conhecemos no passado, que exclui quem vem dos meios sociais mais pobres e das culturas “não eruditas”, uma escola de competição, de stress e de individualismo em que só a memória – auxiliar precioso – faz as vezes de inteligência.
É uma questão de fundo: como queremos educar os mais novos? Para um mundo com mais conhecimento e cultura, solidariedade e participação cidadã? Ou queremos jovens que vivem sem sentido crítico, absortos desde cedo no “cada um para si”, aceitando tudo o que se lhes impõe? A escola é, sem dúvida, a instituição que a todos marca, socializa e educa, promovendo ou excluindo.
2. Os exames foram introduzidos nos 9.º, 6.º e 4.º anos de escolaridade por governos do PSD e PSD/PP. Que haja provas finais no 12º ano, termo da escolaridade obrigatória, aceito. Mas o primeiro-ministro da educação a criar os exames do 9º ano depois de 1974 (antes havia apenas 6 anos de escolaridade obrigatória, é bom lembrar) foi David Justino, no XV Governo (2002-2004). O agora presidente do Conselho Nacional de Educação organiza, por estes dias, um seminário cujo título, para além de inaceitável, lhe fica muito mal: “Chumbar” melhora as aprendizagens? È que “chumbar” é matar!
Depois, veio Nuno Crato e criou os exames em todos os finais de ciclo. Aí, lamentavelmente, poucas vozes se levantaram contra a destruição da escola pública. Com efeito, os exames vieram com um “pacote” de medidas, desde o aumento do número de alunos por turma, a desconfiança crescente contra os professores, os dias escolares esmagados de burocracia, a selecção precoce dos que não atingem uns objectivos chamados “metas curriculares”, uma pedagogia uniforme, sem qualquer espaço para áreas interdisciplinares nem tempo para reflectir e aprender, tudo formatado para que as pessoas não possam ser diferentes e qualquer diferença traga estigma e se transforme em desigualdade. Foi o fim da Educação Para Todos (UNESCO). A direita rejubilou com a sua “escola”. Nem o “eduquês” lhes fez diferença. Cuspir nos outros é sempre mais fácil do que ver-se ao espelho. Se, no mundo da medicina (mero exemplo) há novos conceitos e conhecimentos que devemos aprender, isso não é possível em educação. Aí, o tempo parou. Todos sabem sempre tudo e, como dizia a minha amiga do bairro “fosse eu uma semana para o Ministério da Educação que punha tudo direitinho”. Evoluir e mudar em educação? Impossível. Para a direita a escola deve ser como era nos “bons velhos tempos”. Os filhos dos ricos e instruídos estudam e os outros aprendem o mínimo e uma profissão. Se algum destes mostrar que “merece” melhor, aí estão eles com o seu maravilhoso sentido democrático para os aceitar.
3. Que o fim dos exames do 4.º e 6.º anos tenha sido decidido na urgência, não me parece ideal mas é o tempo possível. Apoio, por isso, o actual ministro. E é curioso que alguns comentadores, de direita e de esquerda, venham dizer que devia haver mais continuidade nas políticas. Quando, há anos, foi elaborada uma proposta de “Pacto Educativo para o futuro”, procurando estabilizar orientações políticas para uma escola pública de qualidade que precisa de tempo para ser construída, a maioria de então no Parlamento respondeu: NÃO. Talvez se devesse voltar, agora, a uma proposta actualizada. Estranho o baixo nível e a ausência de “memória” no que se ouve e se lê. Estranho a desvalorização mediática e social da educação num país que tanto sofreu e sofre com o analfabetismo e com os baixos níveis de literacia.
4. Sou contra os exames desde que estudei, investiguei e conheci os trabalhos internacionais que revelam que os exames são o modo mais pobre de avaliação das aprendizagens, o mais selectivo, o que mais desvaloriza o trabalho dos professores, o que sufoca qualquer inovação na escola, o que faz os alunos correrem atrás do tempo, confundindo memória com inteligência. Aliás, nunca as aprendizagens dependeram de exames mas sim do trabalho feito no dia-a-dia da escola e os países mais avançados sabem-no muito bem. Os exames reforçam o individualismo e a competição. Outros modos de conhecer as aprendizagens foram sendo criados, entre os quais as provas de aferição (seria bom que os comentadores, pelo menos os que são pagos, soubessem do que falam, já que são tão defensores dos “trabalhos de casa”). Ouvir J.M.Tavares dizer um chorrilho de asneiras criticando o facto de os exames terem agora passado para os 2.º, 5.º e 8.º anos é insuportável. Deixei de ver o programa e de o ler e espero não ter sido a única.
5. E assim vai o país. É a raiva da direita contra um governo inesperado. Nem a OCDE e os trabalhos que publicou, no virar de século, sobre a “Escola de Amanhã” dizem a estes personagens que a escola do passado não nos serve.
Há eleições presidenciais daqui a dias, e esta “gritaria” é uma das razões – não a única, evidentemente – por que voto Marisa Matias. Quem nunca se preocupou com as políticas públicas da Educação de Qualidade para Todos não terá o meu voto.
Socióloga, socialista
In Público 20/01/2016




12 comentários
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Os filhos dos ricos no passado não precisavam nem de estudar nem de ter uma profissão.Os filhos dos ricos e dos pobres hoje quer sejam instruídos ou tenham uma profissão não arranjam trabalho pago com ordenados decentes.
Os alunos portugueses(independente da classe económica de origem) aplicados e traumatizados ou não pelos exames, hoje depois de terminada a sua formação universitária acabam por arranjar colocação no estrangeiro.A maioria deles em áreas compatíveis com as respetivas habilitações.
No país de 40 anos de socialismo ou servidão provavelmente continuarão a ser humilhados por serem instruídos.Espera-os a caixa de supermercado e outros empregos de trampa para quem queimou as pestanas.Tanto os adeptos do eduquês como os campónios ignorantes tem tendencia a desvalorizar a cultura.Porque é que os deputados de esquerda não põe os respetivos rebentos a trabalhar em empregos duros e mal pagos? Os filhos dos esquerdistas iluminati estão sim no topo e nas posições cimeiras de trabalhos bem pagos.
Caro Fuego, antes de mais, cumprimentos!
Estava para ir ao jornal Público, para descobrir o artigo de opinião da Ana Benavente, para lá ir desancar um pouco no espaço de comentários.
Mas como vi o seu comentário, fiquei por aqui.
Ora vejamos o que penso do que diz:
O passado já lá vai! O Futuro é o que interessa. Mas acautelar o Futuro harmonioso implica uma construção progressiva que se exige ser feita a partir de Hoje, pelo menos. Lamentavelmente, desde há 40 anos, nada se tem feito em Portugal para acautelar um futuro harmonioso para nós e para as próximas gerações.
Ora isso é sumamente Vergonhoso e, pior, cai na tipologia da Sabotagem e destruição de todo um Povo! E sabotadores ou são refinados traidores, ou agentes estrangeiros a soldo de terceiros.
Ou então, é porque somos um povo estúpido liderado por espertalhões pouco abonados de inteligência, mas muito abonados de interesses pessoais.
Quanto à dicotomia Rico/Pobre, é falacioso.
No antigamente, uma mulher de ricas heranças até poderia ser muito estúpida, mas facilmente arranjava um par para casar.
Nessa época, um homem de ricas heranças facilmente desbarataria o património se fosse estúpido. O corrente era o dito cujo projectar-se socialmente, não pela ostentação, mas pela gestão das influências sociais. E ter alguma cultura para não fazer figura de urso.
Ou seja, uma criatura de ricas heranças a viver dos rendimentos está ao nível dos contos da carochinha.
Quanto a nós sermos um povo que não valoriza a Cultura e a Formação, é um facto! Mas não se culpe Salazar nem o Estado Novo por isso. Afinal passaram quase 50 anos desde que a criatura se finou. E continuamos um povo estupidificado.
No antigo Regime, um ignorante ou humilde tinha noção do seu lugar e estatuto. Por vezes assumia isso de forma humilhante; outras vezes era humilhado por isso.
Hoje, qualquer ignorante tem o estatuto de VIP, com direitos adquiridos, mas sem noção clara dos seus deveres. Afinal, falamos de criaturas no exercício pleno da Liberdade, que tem sido distribuída a granel e sem critério. Em nome dessa coisa, qualquer VIP com a 4.ª Classe incompleta pode desancar, sem constrangimentos, num licenciado, desde médicos, engenheiros, professores, e outros que tais. Invocando o exercício da Liberdade a granel. Pois gente com estudos é, em virtude das conquistas do Pote da Liberdade, um par entre os demais. O critério do reconhecimento do Valor de quem tem estudos foi destruído juntamente com o estatuto privilegiado das classes sociais do Antigamente. Ou seja, tudo foi colocado no mesmo saco e atirado ao rio – os privilégios das Classes Sociais e os privilégios de quem tem Estudos.
Não admira, pois, que quem tenha estudos neste país de revolucionários ressabiados, seja desconsiderado ou tomado como mais uma criatura indiferenciada para explorar à força toda.
O mais caricato e triste é que muitos desses licenciados não se dão ao respeito e até achem que valorizar o seu estatuto de cidadão com estudos é uma forma negativa de estar na Sociedade…
(Tenho de apresentar uma declaração de intenções prévia, pois, por experiência própria não necessariamente adquirida por via deste Fórum, a sua ausência eleva, na generalidade do público receptor, ideias pré-concebidas e muito despeito e pequenez. Seria interessante analisar este fenómeno pela vertente sociológica, mas deixo isso para quem tem formação acreditada nessa área.)
Adiantando:
Nada tenho contra a divulgação do artigo de Ana Benavente;
Nada tenho contra o facto de ser uma transcrição de um artigo do do jornal ‘Público’;
Elogio o trabalho da equipa que trabalha para o Blog de referência nacional ‘BlogDeArlindo’, que tem tido um desempenho de excelência bem mais eficaz que o trabalho de muitos sindicatos, espartilhados em formalismos e limitações tipológicas inerentes ao seu estatuto e reféns de políticas/ideologias na maior parte das vezes muito pouco evidentes;
Tenho, no entanto, objecções relativamente a alguma displicência no modo como são apresentadas algumas informações neste Blog que, acredito, não seja intencional. Mas que denota, porventura de modo inconsciente, uma maneira de pensar algo “caseira” ou “amadora” de que há muito o Blog se deveria demarcar, quanto mais não seja pelo simples facto de ter um índice de audiências de TOPO!
Neste pressuposto, julgo conveniente a definição de um “Livro Branco” de procedimentos e boas práticas que, não só eleva os padrões de qualidade do Blog, como também projecta uma dimensão pedagógica junto do público-alvo. Este último propósito deverá ser parte integrante de políticas conscientes e assumidas pela equipa do ´BlogdeArlindo’ o qual, inquestionavelmente, configura uma INSTITUIÇÃO de interesse público, não obstante ser feita (julgo) na base do voluntariado.
Assim sendo, modos de pensar do tipo “Para quem é, carapau basta”, não são aceitáveis em INSTITUIÇÕES de projecção mediática muito forte.
E todo este texto para quê?
Em primeiro lugar, por “deformação” profissional, pois onde trabalho não são admissíveis padrões de qualidade abaixo do ‘Muito Bom’.
Em segundo lugar, e por inerência ao primeiro, aspectos, por alguns, considerados “menores”, são, afinal, a evidência de trabalho com baixos padrões de qualidade. A excelência está também no detalhe!
E quanto a detalhes:
Há quem considere “fútil” o modo como é agrafado um conjunto de documentos. Mas há um procedimento simples e eficaz que optimiza a funcionalidade do agrafo nos documentos. A divulgação deste procedimento, lamento mas é paga!
Relativamente à publicação em apreço, feita pelo Rui Cardoso, lamento informá-lo mas há um pequeno detalhe que “escapou” ao caro colaborador.
Mencionar simplesmente que a fonte é do Jornal PÚBLICO é insuficiente.
O mínimo exigível é inserir a data da publicação. (As deduções inferidas são falíveis!)
O adequado seria inserir uma hiperligação para o artigo no Jornal. (Há notícias exclusivas para assinantes, mas também há leitores que são assinantes.)
Não colocar nada disto denota trabalho apressado (Ir dar a aula, levar o puto ao infantário, Portátil quase sem bateria, necessidade irrevogável de ir aos sanitários… etc.)
Cumprimentos
Palavras chave: Memória e inteligência. Excelente artigo.
Eu não consigo entender o porquê de tanta discussão por causa de exames… O correto seria que cada escola, que cada docente profissional tivesse autonomia e capacidade para preparar e aplicar seus exames conforme as necessidades do contexto. Por que tem que ser uma imposição de um centro? Por que tem que nivelar e ter uma autoridade acima dos docentes para decidir os instrumentos, se esses são profissionais?
“Este assunto, tem pano para mangas, os intelectuais de gabinete, têm todos opinião[…]”
Isto é a Língua Portuguesa no seu melhor…
Coitados dos petizes que estão entregues a tão excelsos professores…
É inaceitável e penso tratar_se de um professor do primeiro ciclo!!!(porque está sempre a defender os docentes deste ciclo!) Agora percebo por que razão os alunos chegam ao segundo e terceiro ciclo a escrever tão mal…. Todos os dias insisto: isso é uma vírgula proibida, não se separa sujeito de predicado!!!! Enfim…
E logo na primeira frase… as vírgulas!!!!
Quando li o título pensei que, finalmente, iria ler um artigo científico a defender os benefícios da extinção dos exames.
Bolas!
Era só uma bolorenta “benaventada” alicerçada em preconceitos.
Tantos preconceitos como os dos defensores dos santíssimos exames! Que estudos apresentou o PSD a que o senhor pertence que validem, inequivocamente, a importância dos exames para melhorar a qualidade das aprendizagens dos alunos.
Sinceramente, como cidadão o senhor tem todo o direito à sua opinião, como Diretor de um Agrupamento de Escolas, deveria manter alguma reserva!
As 50 sombras de Justino
[texto enviado para vários jornais, que não tiveram sequer a delicadeza de assegurar a sua recepção – discutem educação diariamente, mas esquecem-se de ouvir professores para além dos filintos da vida]
David Justino desdobra-se, nos últimos dias, por eventos, debates, quadraturas, planos mais ou menos inclinados. Até vai ao parlamento dizer o que pensa. Com tanta actividade, pensamos: “Como será que consegue? Será só um ou terá clones?”
Há, na verdade, vários Justinos, numa luta incansável entre eles e com um único desígnio: a chegada ao poder e o reconhecimento como ministro-sombra. Só que é uma sombra que tem de tapar tantas cabeças que se torna uma sombra múltipla.
Quantos Justinos há afinal?
Temos, em primeiro lugar, o David Justino a que nos habituámos nos últimos anos: o Presidente do Conselho Nacional de Educação. É o David Justino que faz aprovar recomendações para se lutar contra a retenção, o mesmo que fez um parecer em que valoriza a avaliação formativa, que defende que os exames sobrevalorizaram o Português e a Matemática, com desmerecimento de outras disciplinas. Este é o Justino bonacheirão e gerador de consensos.
Este Justino não conversa com a segunda sombra: o Justino ex-ministro. Este é o que introduziu exames no sistema, sem se saber porquê, e tentando antecipar as medidas do amigo Crato, esse ministro que ele branqueou ao longo de quatro anos. O Justino ex-ministro gosta de si próprio e não suporta que haja agora um jovem ministro que chegou e disse que queria corrigir os estragos iniciados pelo ex-ministro. Este é o Justino azedo e zangado, que destila fel quando fala.
Há ainda o ministro sociólogo. Aquele que tem uma rede de escolas financiadas pelo Ministério da Educação, que continua a alimentá-lo e que ele diz que são excelentes (por acaso, também financia autarquias PSD com esses dinheiros). O Justino sociólogo tem a rede montada desde 2008 e escreve e diz que as metas que as escolas têm de estabelecer se baseiam na construção de planos pedagógicos, na diferenciação pedagógica e numa intervenção nos processos. Este é o Justino que se lembra de estudar e que tem uma reputação académica a defender e que por isso se exime de vomitar non-sense sobre educação.
Este último Justino não dialoga com o comentador televisivo. O comentador defende os exames como medida para melhorar a escola (suscitando olhares desiludidos do Justino sociólogo), defende que a aferição gera desigualdade social (para grande surpresa do Presidente do CNE), confunde rotinas de treino com treino específico para provas (desiludindo o ex-ministro, que até era um tipo convencido) e defende que, afinal, o Português e a Matemática são mais importantes do que as outras disciplinas. Às vezes o ex-ministro encontra-se com o comentador, mas o sociólogo sério vira-lhe sempre as costas e o Presidente do CNE fica embaraçado. Este comentador é o Justino que promove a ignorância e o discurso fácil e que bebe shots à noite com o tudólogo Medina Carreira.
De onde saiu o comentador? Das trincheiras do PSD, escavadas em Belém por aqueles que, tal como ele, foram convidados para assessores do Cavaco, o grande liquidatário de Portugal.
Destas sombras se faz um Justino só, guerrilheiro do seu partido e que põe o seu partido à frente da boa figura que já fez e podia estar a fazer, construindo pontes numa área tão central para o país como a educação, sobretudo numa altura em que se reverte tanto estrago que estava a ser feito e se devolve a confiança à escola e aos professores.
Pedro José Pereira
Professor – Lisboa
Não deve falar por todos….não estou nada , nada, confiante …. E olhe que nada tenho a ver com a direita.