Conhecemo-nos há muitos anos. Desde o tempo em que transportávamos ao colo os sonhos do futuro como se a abóboda celeste pendesse sobre nós. Lançámo-nos ambas na profissão ao mesmo tempo, voando sobre precipícios de realidade que eram meros abismos onde desenhávamos pontes e erguíamos estátuas de inspiração rebelde.
Ser professoras, mais do que um desejo, era a nossa missão.
Desde esses imemoráveis tempos, muita pedra nos fez tombar no caminho. Passaram já 20 anos desde o início de todos esses tempos abismais, ferozes, audazes.
Perdemos grande parte da esperança entre escombros, grande parte da audácia esgotou-se num tempo feito de cedências e espera. Sucumbimos ao desencanto, dispersou-se em nós o desassombro das coisas felizes.
No entanto, não nos perdemos uma da outra, apesar dos silêncios e da distância, a gargalhada firme a estilhaçar medos.
Por isso, o telefonema de hoje deu-me um murro forte no estômago. Andamos nisto há 20 anos, é uma vida, feita de sacrifícios e muita raiva acumulada.
A Carlota agarra-se ao telefone como um náufrago num bote meio vazio.
“O que é que eu faço? O que é que eu faço?”.
Onde andam as soluções quando se fecham todas as portas? Sugiro-lhe que agarre no carro e quebre os quilómetros num ápice, se não a ouvem ao telefone, terão de a ouvir em pessoa.
Afinal, tudo não passou de um engano, um lapso, um descuido extemporâneo, qualquer pessoa vê que não é uma mentira, que não faz sentido continuar a alimentar as chamas do inferno se a Bolsa de contratação está moribunda. Que espécie de colegas temos que insistem na bárbara cegueira, na inflexível surdez?
“Já viste? Porque me enganei no campo que dizia “outras habilitações” – escrevi licenciatura pré-Bolonha” uma espécie de esclarecimento da minha licenciatura e dizem que prestei falsas declarações, não aceitam que foi um estúpido engano, não aceitam…”
O desespero na sua voz é tão palpável que percebo que a cólera é uma pestilenta virose que os outros plantam dentro de nós.
Se for excluída, a Carlota fica impedida de concorrer este ano letivo. Desempregada, sozinha com dois filhos adolescentes. Sem direito a comer o pão que o diabo amassa lá naquele sítio a que concorreu.

Uma fornalha de malditos que cozem os outros em lume brando.
Deve dar-lhes gozo, erradicar as pessoazinhas que se candidatam lá, para as bandas da Brandoa.
As pessoazinhas que estão dispostas a fazer 90 km diários, quase duas horas de viagem, uma fortuna em portagens, para que lhes seja contado o tempo de serviço.
Deve dar-lhes gozo, deve, apontarem os dedinhos e dizerem que não, que estão excluídos, que não merecem aquele lugarzinho porque foram “desonestos”.
Deve dar-lhes gozo a imbecilidade de serem desumanos e miseramente rudes.
Contudo, o destino tem destas coisas maravilhosas e improváveis. A Carlota ia já a caminho do forno do diabo, quando recebeu o telefonema de outra escola à qual também concorreu noutra Bolsa. Aceitava? Quando é que podia começar? Nem comprovativos de coisa nenhuma, nem nada.
Deu meia volta ao carro e regressou a casa.
Desta vez a providência salvou-lhe 20 anos de não carreira, de não enquadramento em lado nenhum.
Na terra do forno do Demo devem já estar a cozinhar outro acólito, imagino. O gozo que lhes dá, consigo ver bem, por entre as chamas do lume lento, o gozo que lhes dá.
De facto, pode acabar-se com o monstro nas escolas, mas, às vezes, é impossível matar o monstro que habita certas pessoas…



