Pagar escolas para todos ou escolas para alguns?

(…) 3. É curiosa, surreal, a ideia da direita de que o tratamento dado pelo Estado à escola pública seria ilegítimo porque as privilegiaria face às escolas privadas. Os neoliberais defendem que a escola pública seja tratada em pé de igualdade com as escolas privadas (ou seja: que os impostos de todos nós alimentem as empresas privadas proprietárias de escolas). O que acontece, por muito que isso aborreça os neoliberais de serviço – e eles têm estado diligentemente de serviço –  é que o Estado democrático possui um estatuto diferente das empresas privadas não só porque lhe cabe defender o interesse público de todos os cidadãos sem excepção mas porque emana de uma vontade colectiva democraticamente definida, que decide os valores que a sociedade quer ver promovidos.

4. Finalmente, não tem o menor sentido justificar a defesa da escola pública com o seu custo inferior, porque o valor da escola pública não é o seu preço. A comparação pode ter interesse mas não pode ser a base de qualquer opção política. Mesmo que a escola pública custasse o dobro da privada ela deveria continuar a ser suportada pela comunidade. Porque a escola pública possui um caderno de encargos que nada tem a ver com a escola privada. A escola pública possui, antes de mais, o nobre objectivo de servir todos os cidadãos: os bons alunos, os maus, os péssimos, os indisciplinados, os imigrantes, os ciganos, os pobres, os filhos dos analfabetos, os toxicodependentes, os deficientes, os violentos, os doentes, os contestários. A escola privada é um negócio e tem o direito de o ser. A escola pública tem o dever de não o ser. A escola privada pode seleccionar os mais endinheirados, por exemplo. A escola pública aceita todos. A escola pública esforça-se por dar a todos uma oportunidade e por promover os menos afortunados. A escola privada gosta de campeões e escolhe os que o podem ser. A escola privada reproduz um sistema de castas que a escola pública tem como missão destruir. É por isso que, se existem sectores e momentos onde a escola privada pode tapar uns buracos da rede pública, nunca a poderá nem deverá substituir.

Há falhas na escola pública? Há e é nosso dever repará-las e fazer da escola pública um exemplo de cidadania e de qualidade. Mas não temos qualquer dever de garantir os rendimentos da escola privada.

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4 comentários

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    • Agnelo Figueiredo on 1 de Junho de 2016 at 21:39
    • Responder

    “Mesmo que a escola pública custasse o dobro da privada ela deveria continuar a ser suportada pela comunidade”
    Xiça !!!
    O tipo que escreve isto não deve pagar impostos.
    Mas, mesmo assim, devia ter respeito pelos que os pagam.
    Lamentável.

    1. Lamentável são comentários destes. O primeiro fim da ESCOLA ´PÚBLICA, como de qualquer instituição pública não pode ser LUCRATIVO. Sabe o que significa o “bem comum”?
      O bem coletivo deve sobrepor-se aos interesses individuais PONTO.
      O estado NÃO PODE acabar com um serviço DE INTERESSE público só por que dá prejuízo. Se é para todos, temos o dever de o pagar. O mesmo não acontece com serviços que são do interesse APENAS DE ALGUNS e que dão prejuízo ao país ainda que alguns lucrem com ele. Neste caso, porque temos de pagar todos?
      É isso que o Livresco está a tentar dizer…percebeu?

        • Agnelo Figueiredo on 2 de Junho de 2016 at 15:08
        • Responder

        Olá Lia

        Aposto que a Lia também não paga impostos..
        Olhe que eu não defendo a escola privada. Defendo a Escola Pública na qual trabalho há 40 anos.
        Mas tenho muito respeito pelos contribuintes que me pagam o vencimento.
        Por isso, defendo que eles devem pagar impostos o menos possível, o que implica que os serviços do estado sejam o mais barato possível, mantendo a qualidade.
        Nunca a qualquer preço.

        Finalmente:
        A frase não é do Livresco. Ele só a reproduziu.

    • Elisabete Oliveira (910) on 3 de Junho de 2016 at 15:18
    • Responder

    Dêem-me o cheque ensino a que os meus filhos têm direito, pois farto-me de pagar impostos, e eu coloco os meus filhos onde eu quiser. Estas guerras de escolas não têm sentido nenhum: há uma perseguição evidente àqueles que têm os filhos no ensino privado! E há uma estigmatização da escola pública em relação à sua qualidade. A Escola é de quem a faz… Dêem condições aos professores e responsabilizem os pais e verão que têm o problema resolvido! As crianças têm direito ao financiamento do Estado na sua Educação, quer sejam filhos de pais ricos, pobres ou da classe média. Parem de criar este sentimento de desaprovação daqueles que têm a sorte de estar numa escola com melhor qualidade porque,felizmente, têm condições para isso.

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