Há um tipo de cansaço que nasce simplesmente de uma coisa muito concreta e muito física: estar horas dentro de uma sala quente, com ar parado, corpos inquietos, janelas abertas que pouco resolvem, ruído a crescer, atenção a cair, paciência a encurtar e a obrigação moral de continuar a ser adulto, calmo, lúcido e disponível quando o próprio corpo já está a pedir pausa.
A ciência não trata isto como mimo, trata isto como carga fisiológica: a Organização Mundial da Saúde refere que o stress térmico no trabalho pode provocar fadiga, desidratação, tonturas, disfunção neurológica e perda de produtividade, e estima que o rendimento dos trabalhadores diminui cerca de 2 a 3% por cada grau acima dos 20°C em Wet-Bulb Globe Temperature, uma medida que combina temperatura, humidade, vento e radiação, o que significa que uma sala demasiado quente não é apenas desconfortável, é um ambiente que retira capacidade real de atenção, decisão, autorregulação e trabalho.
E isto devia fazer-nos pensar: como é que se pede a um docente que lide com isto?
E as crianças estão concentradas quando o cérebro está ocupado a regular desconforto?
Como é que se fala de resultados, exames, inclusão, diferenciação pedagógica e saúde mental, se às vezes a sala onde tudo isso devia acontecer parece mais preparada para testar resistência do que para ensinar?
É preciso um estudo que acompanhe estudantes durante uma vaga de calor, para verificar que os que estavam em edifícios sem ar condicionado tiveram tempos de reação cerca de 13% mais lentos e pior desempenho em tarefas de atenção, processamento e memória de trabalho?
Ou a sua experiência já confirma que quando o calor sobe, a cabeça abranda, a irritabilidade aumenta e a aula deixa de ser apenas uma aula para passar a ser uma negociação permanente entre ensinar, regular, esperar, repetir e sobreviver ao ambiente?
Eu, que entro muitas vezes em escolas, em salas cheias, em auditórios improvisados, em espaços onde se sente imediatamente que o corpo chegou antes da palavra, já vi isto demasiadas vezes: professores a tentar manter elegância quando estão exaustos, educadores de infância a continuar disponíveis enquanto limpam suor da testa, auxiliares a segurar recreios escaldantes com uma paciência que ninguém contabiliza, alunos a mexerem-se mais, a ouvirem menos, a reagirem pior, porque o ambiente lhes retirou margem.
Os professores merecem ensinar sem ter de transformar cada aula numa prova de resistência.
Há dias, na minha rede social, um comentário que apaguei…”os professores são uns meninos, não aguentam o calor”. Apaguei e bloqueei a pessoa…
Uma sociedade que fala tanto de saúde mental, produtividade e qualidade educativa devia ter a coragem simples de reconhecer isto: melhorar a educação começa por baixar a temperatura da sala.
Ou isto é um “não assunto”?
Acredito que é um tema fundamental. Se condicionado não é luxo. Comentários como o que apaguei… são lixo.
Alfredo Leite




1 comentário
Obrigado, Dr. Alfredo.
…e ainda temos que acrescentar a rede Wi-Fi que é fraca ou que vai abaixo sistematicamente e o projetor que está internamente desfocado ou cuja lâmpada já perdeu a sua capacidade há mais de dois anos, e isto para não falar na falta de isolamento acústico nos tetos das salas ou ainda, a “cereja em cima do bolo”: o pátio do infantário que foi construído mesmo ao lado das janelas das salas de aula do 2ª e 3ª Ciclo, com a nossa “cultura” mediterrânica de gritaria berrante automaticamente associada…