Há palavras que ficam tão bonitas nos discursos que quase ninguém se atreve a questioná-las. “Inclusão” é uma delas.
Políticos adoram dizê-la. Especialistas repetem-na em conferências. Fica bem nas redes sociais, nas campanhas institucionais e nos discursos do Dia da Educação.
O problema é que entre a palavra e a realidade existe um abismo.
Hoje, em demasiadas escolas, a inclusão transformou-se numa encenação coletiva onde todos fingem que funciona, enquanto professores, alunos e famílias assistem ao desastre em direto.
Chamam-lhe inclusão quando uma professora passa metade da aula a gerir crises, conflitos e explosões emocionais. Chamam-lhe inclusão quando vinte alunos ficam à espera porque toda a atenção está concentrada num único caso. Chamam-lhe inclusão quando o direito de aprender de uma turma inteira é sacrificado no altar da correção política.
Mas isto não é inclusão.
É abandono com um nome bonito.
A escola descobriu uma fórmula extraordinária, não cria recursos, não contrata técnicos suficientes, não reforça equipas multidisciplinares, não dá condições aos professores e depois declara, triunfalmente, que está a incluir.
É como atirar alguém para uma piscina sem saber nadar e chamar àquilo um programa de desporto aquático.
No papel, tudo funciona. Nos relatórios, tudo é um sucesso. Nas estatísticas, todos estão integrados.
Na sala de aula real, a conversa é outra.
A inclusão tornou-se, muitas vezes, uma forma sofisticada de transferir responsabilidades para quem já não tem mãos a medir. O professor faz de docente, psicólogo, mediador de conflitos, assistente social, técnico de educação especial e gestor de crises. Tudo ao mesmo tempo. Tudo com os mesmos recursos de há vinte anos.
E depois admiram-se que as aprendizagens desapareçam.
O mais curioso é que quem se atreve a apontar este problema é imediatamente acusado de ser contra a inclusão. É o truque clássico: em vez de discutir a falta de meios, discute-se a coragem de quem denunciou a situação.
Como se criticar um telhado que mete água significasse ser contra casas.
Não. O problema não é a inclusão.
É vender como inclusão aquilo que não passa de improvisação permanente.
É exigir resultados sem criar condições.
É fingir que basta colocar todos no mesmo espaço para que exista.
Não existe.
Uma escola verdadeiramente inclusiva protege quem precisa de mais apoio sem prejudicar quem também tem direito a aprender. Garante recursos, equipas, técnicos e respostas diferenciadas. Não escolhe uns ou outros.
Porque o direito de um aluno nunca deveria significar a perda de direitos de vinte.
Enquanto continuarmos a confundir inclusão com remendo, continuaremos a assistir à mesma peça de teatro com discursos emocionados, fotografias bonitas, relatórios impecáveis e salas de aula onde a realidade desmente tudo.
A inclusão, tal como está a ser feita em muitos casos, não passa de uma operação de cosmética educativa.
E a verdade, por muito incómoda que seja, é esta:
Há demasiada inclusão para inglês ver e demasiado pouco apoio para funcionar a sério.



