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Jan 02 2026
Diz o Governo, nas suas Grandes Opções para 2025/2029, com aquela solenidade de quem acaba de descobrir a pólvora, que a grande meta é “transformar digitalmente o sistema de informação educativo” através de sistemas “robustos” que, entre outras maravilhas, “simplifiquem procedimentos administrativos”. Lê-se o documento e quase se sente o perfume da modernidade a entrar pelas salas de aula, não fosse o facto de qualquer professor com mais de dois dias de serviço saber que, no dialeto ministerial, “simplificar” é o eufemismo favorito para “atirar com mais trabalho para cima do lombo de quem já não tem mãos a medir”. O senhor Ministro, imbuído de um otimismo tecnológico que faria inveja a um vendedor de Silicon Valley, já veio prometer formação para as plataformas Inovar e afins, como se o problema da escola portuguesa fosse a falta de literacia digital dos docentes e não a obesidade mórbida de uma burocracia que agora, em vez de cheirar a papel químico, se esconde atrás de menus drop-down e botões de validação que teimam em não aparecer.
A ideia de cruzar a “robustez” do sistema com a formação contínua é de uma ironia deliciosa ao estilo do nosso quotidiano escolar. Imagina-se o cenário: o docente, já devidamente “formado”, passa horas a alimentar a besta informática com dados que ninguém lê, em plataformas que comunicam entre si com a fluidez de um diálogo de surdos, tudo em nome de uma “transparência” que mais parece uma vigilância eletrónica sobre se a ata da reunião de departamento foi submetida até ao último segundo do prazo. A desburocratização prometida é, na verdade, a digitalização do caos; em vez de se eliminar o trabalho inútil, ensina-se o professor a ser um digitador de luxo, um operário do clique que, entre um erro de servidor e uma atualização de Java, ainda tem de encontrar tempo para, por mero acaso, dar aulas.
No fundo, o que estas Grandes Opções nos oferecem é a metamorfose da papelada: tiramos o pó das prateleiras para o substituir pelo “pixel” que encrava precisamente quando 100 mil almas penadas tentam lançar notas ao mesmo tempo. A formação que o Ministério apregoa é a cereja no topo do bolo de um sistema que confunde modernização com a multiplicação de campos obrigatórios. Se o sistema fosse realmente robusto e simplificado, não precisava de manuais de instruções do tamanho de enciclopédias nem de sessões de esclarecimento para explicar como é que se regista uma falta de material sem que o computador entre em colapso nervoso. Mas não, o que conta é o rigor da estatística e a beleza do gráfico no dashboard de algum serviço central, enquanto o professor, esse eterno formando da paciência, continua a navegar num mar de procedimentos que só são “transparentes” porque deixam ver perfeitamente o vazio de uma reforma que muda a ferramenta, mas mantém a servidão.
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