Burocratizar, digitalizando o trabalho dos professores

Diz o Governo, nas suas Grandes Opções para 2025/2029, com aquela solenidade de quem acaba de descobrir a pólvora, que a grande meta é “transformar digitalmente o sistema de informação educativo” através de sistemas “robustos” que, entre outras maravilhas, “simplifiquem procedimentos administrativos”. Lê-se o documento e quase se sente o perfume da modernidade a entrar pelas salas de aula, não fosse o facto de qualquer professor com mais de dois dias de serviço saber que, no dialeto ministerial, “simplificar” é o eufemismo favorito para “atirar com mais trabalho para cima do lombo de quem já não tem mãos a medir”. O senhor Ministro, imbuído de um otimismo tecnológico que faria inveja a um vendedor de Silicon Valley, já veio prometer formação para as plataformas Inovar e afins, como se o problema da escola portuguesa fosse a falta de literacia digital dos docentes e não a obesidade mórbida de uma burocracia que agora, em vez de cheirar a papel químico, se esconde atrás de menus drop-down e botões de validação que teimam em não aparecer.

A ideia de cruzar a “robustez” do sistema com a formação contínua é de uma ironia deliciosa ao estilo do nosso quotidiano escolar. Imagina-se o cenário: o docente, já devidamente “formado”, passa horas a alimentar a besta informática com dados que ninguém lê, em plataformas que comunicam entre si com a fluidez de um diálogo de surdos, tudo em nome de uma “transparência” que mais parece uma vigilância eletrónica sobre se a ata da reunião de departamento foi submetida até ao último segundo do prazo. A desburocratização prometida é, na verdade, a digitalização do caos; em vez de se eliminar o trabalho inútil, ensina-se o professor a ser um digitador de luxo, um operário do clique que, entre um erro de servidor e uma atualização de Java, ainda tem de encontrar tempo para, por mero acaso, dar aulas.

No fundo, o que estas Grandes Opções nos oferecem é a metamorfose da papelada: tiramos o pó das prateleiras para o substituir pelo “pixel” que encrava precisamente quando 100 mil almas penadas tentam lançar notas ao mesmo tempo. A formação que o Ministério apregoa é a cereja no topo do bolo de um sistema que confunde modernização com a multiplicação de campos obrigatórios. Se o sistema fosse realmente robusto e simplificado, não precisava de manuais de instruções do tamanho de enciclopédias nem de sessões de esclarecimento para explicar como é que se regista uma falta de material sem que o computador entre em colapso nervoso. Mas não, o que conta é o rigor da estatística e a beleza do gráfico no dashboard de algum serviço central, enquanto o professor, esse eterno formando da paciência, continua a navegar num mar de procedimentos que só são “transparentes” porque deixam ver perfeitamente o vazio de uma reforma que muda a ferramenta, mas mantém a servidão.

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8 comentários

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    • Mainada on 2 de Janeiro de 2026 at 9:37
    • Responder

    Mas não é já tudo basicaments digitalizado no Inovar (mais coisas do género Teams e quejandos)?

  1. não senhor. Só é digitalizado o que interessa.

    • Luluzinha! on 2 de Janeiro de 2026 at 14:28
    • Responder

    Panorama assustador, porém, autêntico e bem realista. Enfim…

    • 🤬 on 2 de Janeiro de 2026 at 17:30
    • Responder

    Pois, os idiotas dos diretores ainda não perceberam!
    Ah! 2026 será o ano do estatuto do ditador, digo, diretor. O ressuscitar, completo, de uma figura do FASCISMO. Factual.

    • J L Fernandes on 2 de Janeiro de 2026 at 19:10
    • Responder

    Nem mais!
    100% de acordo!
    J L

    • Judite on 2 de Janeiro de 2026 at 21:19
    • Responder

    O que se assiste é colocar o professor no centro da questão, maioritariamente com medidas de combate ao insucesso, nunca compreendendo que o problema vem de casa, quando na entrada para a escola primária, se mandam recados e os pais não leêm, se fala das dificuldades e não há resposta, pais wue nunca aparecem nas reuniões, quando são mal comportados e não há consequência. Enquanto não houverem consequências, nem pais e muito menos as crianças vão entender. Já vão educados de se ninguém se importa, está agora o prof a chatear-me a cabeça.

    • Zé das Couves on 4 de Janeiro de 2026 at 16:51
    • Responder

    estão em pânico com a debandada geral, nem as cartinhas do ministro surtem qualquer efeito…

    • Danieloe on 9 de Janeiro de 2026 at 18:41
    • Responder

    Galera quem tá procurando agilidade não pode perder essa novidade porque eu testei o saque no cassino pix e o dinheiro caiu na minha conta em segundos via Pix. É impressionante como facilita a vida da gente aqui no Brasil que não tem paciência pra esperar compensação bancária e quer aproveitar os lucros no fim de semana com a família sem estresse e sem taxas abusivas que outros sites cobram.

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