1 de Junho de 2025 archive

Reflexão sobre as Adaptações Curriculares Não Significativas

ACN(E)S JUVENIS

 

 

No meu tempo não tínhamos vestígios de ACN(E)S 1 , pois os nossos educadores davam-nos as lo(i)ções adequadas e tínhamos a face limpa e brilhante, onde se refletia o resultado do sucesso honesto e verdadeiro, fruto do nosso trabalho e esforço. E, de rosto levantado, sentíamos tanto a responsabilidade como o orgulho pelas aprendizagens significativas que adquiríamos. Atualmente, surgem muitos casos de ACN(E)S nos nossos alunos, que passam pela PH(uber)DA de 2 (-) diagnóstico fácil e frequente. É um problema que talvez tenha origem nesta poluição luminosa e aérea, dos ecrãs a que as crianças e jovens são submetidos desde cedo. Naturalmente terá também uma carga genética associada e o Chato GPT também veio lançar achas para esta fogueira. Os adolescentes já sabem que, enquanto estiverem no Ensino Básico, ACN(E)S surgirão sempre e não vale a pena fazer nada. Já são ocorrências naturais e frequentes que os jovens em idade escolar sentem na pele, parecendo até infetocontagiosas; são adaptações que nem exigem esforço, nem sequer para as evitarem. Estas borbulhas mancham o rosto da Escola atual. As aprendizagens são essenciais, mas com ACN(E)S, aplicam-se, na verdade, cremes essenciais que mascaram a realidade, que não é de sucesso. Aprendem que atingem facilmente o sucesso na comunidade, ao darem de caras com ACN(E)S, estimulando antes as faltas de responsabilidade, de empenho e de esforço. Os agentes educativos alimentam este mal, com maus hábitos de uma alimentação desregrada, em que se facilita a atribuição de bonificações, favorecendo o aparecimento de ACN(E)S. E estas ainda se intensificam com medidas de facilitismo, como a atribuição de níveis de incentivo, sem critério, sendo habitualmente chocolates e guloseimas. As famílias aprovam o que é próprio da idade e esperam que o acompanhamento destes alunos com ACN(E)S, pelos especialistas, ajude a que passem… que passem mais um ano de cara levantada.

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1 Impõe-se aqui um esclarecimento, para que a mensagem seja bem recebida e bem interpretada pelo leitor, embora se o leitor estiver bem familiarizado com esta problemática dos alunos destas gerações recentes, dispensará qualquer esclarecimento adicional. Este acrónimo, ACN(E)S, significa, obviamente: Alterações Cutâneas de Natureza (Externa e) Superficial.
2 PH(uber)DA de: fase do desenvolvimento de uma criança/jovem com alterações físicas, hormonais e emocionais habitualmente diagnosticada em idade escolar, facilmente confundida com a Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção.

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À vista de tempestade… com mar de siglas

(Por Pedro Alexandre Franco)
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Há um ponto no calendário escolar em que os professores começam a olhar o horizonte com desconfiança. O céu escurece, o ar pesa e o mar, que até então se agitava apenas com pequenas marés de reuniões e grelhas, começa agora a rugir.
Sou navegador e a minha rota é a escola. Mas, por esta altura, deixo de navegar por estrelas e passo a orientar-me por siglas. Muitas siglas. Um alfabeto afogado, um código de navegação inventado sabe-se lá por quem, que exige leitura avançada em linguagem burocrática. PEI, PAP, PAA, PASEO, NEE, DT, TIC, PAT, RTP, AE, DAC, DGE, APA, PCT, PIA, ACS, ACNS … Já perdi a conta e a paciência.
Se um náufrago desse à costa numa escola portuguesa em junho, acharia que tinha sido resgatado por uma tripulação de criptógrafos soviéticos dos anos 60.
– “Professor, já preencheu o PEI do aluno NEE que está no PAT?
– “Ainda não, porque a plataforma TIC estava em baixo e tinha a ficha do PAP por lançar no RTP do NEE da minha DT…
Ninguém se riu… Sabem porquê? Porque é verdade…
Sou professor com 9 turmas, o que, traduzido em carga real, equivale a tocar em mais de 200 mentes distintas, com mais de 200 humores distintos, mais de 200 vidas que pedem atenção. Também sou Diretor de Turma, o elo entre a escola e o mundo exterior, uma espécie de diplomata com papéis para preencher e chamadas e emails para devolver. E, como se não bastasse, “Professor Tutor” (PT) de alunos com dificuldades, ou seja, alguém que tenta ensinar a remar enquanto segura o leme, cola as velas e esvazia água do porão ao mesmo tempo.
Mas nesta altura do ano, tudo o que é essencial, as pessoas, os miúdos, as conversas, as ideias, vai sendo empurrado para os cantos da embarcação, enquanto o centro é ocupado por burocracia em forma de papelada. Há muitos momentos em que as aulas deixam de ser o mais importante: administro tabelas, despacho ficheiros, alimento plataformas. Sou menos pedagogo e mais gestor de grelhas.
A tempestade não é súbita. É minuciosa. Vai surgindo em notas de serviço, lembretes, “só mais um documento”, reuniões extra, e-mails com anexos de trinta páginas enviados às 22h45 com prazos para o dia seguinte. Tudo com muita importância. Tudo com prazos “improrrogáveis”. E tudo, curiosamente, tão urgente que parece eternamente adiado todos os anos.
O mais irónico? Parte significativa desta tempestade burocrática não melhora o mar  não repara barcos e não orienta rotas. Serve apenas para que, de longe, se diga que temos “instrumentos de monitorização” e “protocolos de atuação em rede”.
Chego a sonhar com um mundo onde o professor possa ensinar, conversar com os alunos, criar, ouvir, desafiar. Onde o tempo não seja engolido por códigos, plataformas e reuniões sobre reuniões.
Mas por agora, resta-me agarrar bem o leme. O mar está revolto. Os papéis voam como gaivotas tresloucadas. A tinta escorre dos formulários.
E lá ao fundo, talvez uma ilha de  de férias, talvez…

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AS CRIANÇAS INVISÍVEIS (SÓ DIZEMOS ADEUS UMA VEZ…)

Lágrimas silenciosas e olhares vazios são estrelas que vão morrendo lentamente sem que ninguém consiga perceber como o mundo vai ficando mais triste e o céu mais só, numa sociedade estúpida com cada vez mais gente e menos pessoas.

Na condição de professor, eu aprendi que falhar, me esquecer de coisas e me enganar, são imensos defeitos que – ao contrário da implacável exigência de infalibilidade que a sociedade tem para comigo – revelam que sou apenas humano. Mas também sei que irei estar lá quando o vosso filho for negligenciado por vós, quando estiver envolto em solidão, precisar de ajuda, precisar de ser salvo das famílias desestruturadas, que infligem maus-tratos; quando a criança que têm à vossa responsabilidade precisar desesperadamente de atenção, de ser visto e ouvido, nós, professores, iremos fazer por estar lá para ele. Órfãs de pais vivos, abandonadas dentro de casa pelos próprios progenitores, com falta de atenção, de acompanhamento, de querer, de querer saber, de cumprimento das mais básicas obrigações parentais, tantas crianças negligenciadas e invisíveis no seio das suas famílias, a quem se dá um telemóvel e por aí fica o cumprimento das obrigações dos pais, quando lhes falta o mais importante – atenção e afeto.
Ciente de tudo isto, com todas as virtudes e defeitos que sabemos que temos, nos dias de hoje, ser professor em Portugal é cada vez mais um ato de coragem.
Na verdade, na minha formação, nunca ninguém me disse que ser professor era tudo isto e muito mais; nunca ninguém me avisou que só se diz adeus uma única vez, porque só nós é que sabemos como soa a voz das crianças invisíveis que desaguam nas nossas salas de aula…
De peito aberto, deixo o testemunho do peso desses fardos que todos nós carregamos.

Na minha sala de aula assomou um grito de socorro…

Tudo o que querias é que te vissem.
Dir-se-ia que nunca chegaste a ter os teus dez anos, nem nunca os irás ter; nem sei mesmo se alguma vez foste criança. Começaste a aceitar que a tristeza era normal.
Bateste à porta de um céu sem deus. Onde estava quando mais precisavas dele? O que de tão importante o ocupava para, também ele, não estar para ti?
Que mal fizeste para merecer tudo o que te estava a acontecer?
Terias de gritar mais alto e chorar mais ainda para que te conseguissem ouvir?
Deixaste o teu nome num pedaço de papel às portas do céu e regressaste para o teu inferno. «Lar» tornou-se num lugar profundo e escuro. Invariavelmente, todos nós, ao fim do dia, voltávamos para o nosso céu, enquanto tu não tinhas nenhum e regressavas para um lugar que nenhum de nós conhece nem consegue imaginar. Essa era a tua vida…

Apesar de tudo, ainda tiveste a generosidade de não desistires de mim viajando todos os dias mil quilómetros para aqui para seres vista.
Todos os dias fugiste mil quilómetros do abismo para te refugiares aqui, debaixo das minhas asas na esperança de que te pudesse proteger.
Vieste de tão longe só para estares sentada mesmo à minha frente e, nem eu, te consegui ver; nem mesmo, quando, no fim da aula, ficavas um pouco mais, na derradeira expectativa de que eu conseguisse perceber a tua dor.

Só hoje consigo escutar a angústia do teu pensamento clamando “Quantas vezes terei de aqui voltar até que me consigas ver? Tenho estado, desde sempre, neste banco sentada à tua espera e não me vês? Quem me poderá salvar agora? Já aqui morri mil vezes e não me viste, mas voltarei sempre na esperança de que olhes e me vejas, nem que tenha de deixar crescer os meus cabelos até ganharem raízes neste chão para não ter de voltar para aquele sepulcro de dor.
As pessoas tornaram-se impessoas e olham-me indiferentes com o mesmo olhar de ignorância dos santos de pau e porcelana que dormem nos altares. Elas nunca saberão o que é estar morto em vida ou tão só no meio da inércia de uma multidão onde todos viram a cara e fingem não ver. Nunca o saberão, porque no reino dos homens as pessoas estão tão ocupadas a olhar-se ao ecrã que, simplesmente, deixaram de ver e de sentir. Esta é a minha vida da qual não consigo sair. Olhem para mim e vejam o enorme vazio que me encheu.
Já não consigo respirar, nem dormir, nem gritar. O grito afogado na garganta e as lágrimas esfarrapadas que saem dos meus olhos secos é tudo o que me resta das noites de solidão no meu quarto. Sempre que me vou embora espero que alguém chame o meu nome para eu me voltar e poderem ver toda esta tristeza que tomou conta de mim. Apenas queria ter o direito de chorar como uma criança, ser lírio do campo, porque não sou mulher, não sou adulto, não sou uma coisa, não sou um peso para ninguém, não sou um defeito, nem culpada por ter nascido; quero chorar a minha verdade pelo amor que não me deram, a dor que me infligiram, o passado que me marcaram e o futuro que me roubaram.
Quando eu me esfumar no ar, me misturar como rios no mar e a terra me receber de braços abertos, ninguém dará por isso. Fecho os olhos, abandono-me, voo para longe de mim e deixo de sentir tudo com esperança de me esquecer, de deixar de me sentir, deixar de existir… deixar-me ir para onde mais ninguém me conseguirá magoar.
Será que só me irão ver e escutar quando os anjos cantarem para mim às portas desse céu distante?
Como deixei de saber sonhar, onde moravam os meus sonhos, abundam agora ervas daninhas. Quem me dera ter um par de asas e poder voar para lá daquela colina onde há um mundo que nunca conheci. Será que haverá para mim um tempo e um lugar com campos forrados de açucenas e primaveras com cheiro a terra molhada pelas primeiras chuvas e céus pintados com arco-íris habitados por sonhos e estrelas espalhadas até ao infinito?
Caminho descalça sobre o fio da navalha sentindo as dores na minha alma que são mais profundas do que a das nódoas que me cobrem o corpo escondidas numa vergonha da qual não sou culpada. Afinal, eu só queria que, um dia, pudesse saber o que é isso de «ser criança»…”

Tentaste gritar tudo isso, mas não foste capaz.
Tanto choro esteve escondido atrás desse olhar e nem uma só gota o conseguiu abandonar, porque já não tinhas mais para dar.
Não querias falar disso, só desejavas que te abraçasse com força e compreendesse a dor que todas essas lágrimas guardadas podiam contar. Querias crescer depressa para poderes fugir dos adultos, tanto como cresceres devagar para nunca vires a ser essa gente crescida.

Tenho de confessar que andei tão absorto no trabalho, repleto de tantas inutilidades que me mantiveram distraído, que não enxerguei um palmo diante do meu nariz.
É bem verdade que, aos poucos, os nossos olhos vão sento tapados por um sistema desumano movido por outros interesses maiores do que tu. Trabalho mal feito em casa por parte dos pais – uns, negligentes, por défice de atenção para com os filhos, outros, pais-helicóptero com excesso de zelo que não deixam os filhos pensarem ou resolveram qualquer problema ou adversidade que surja – vão enchendo as turmas com um número crescente de alunos diferenciados, pouco autónomos e com crescentes necessidades de apoio que nos absorvem. Depois, há o monstro… todos conhecem-no pelos intermináveis Decretos-lei, Leis, Despachos e Circulares, infinitos nomes como PASEO, DAC, PAA, PEA, ACND, ModA, TEIP, CEI, MPSSAI , PAFC, RTP…, mas o seu verdadeiro nome é «Burocracia». Toda a espécie de documentos atirados para frente dos nossos olhos, na escola e em casa, até que, sem darmos por isso, nos cegaram. Absorvidos por todo este trabalho excessivo, pelos nossos problemas pessoais e diversos papéis que temos de representar na escola, de repente, em pleno alto-mar, dão-nos uma boia e dizem-nos que, para além de ensinar, cabe-nos a missão de salvar todos os que foram atirados borda-fora por esta sociedade selvagem que foi incompetente na tarefa de cuidar das nossas crianças. Na realidade, o fracasso pandémico desta multidão que vive para lá dos portões das escolas, atirou para os professores a responsabilidade de se tomar como garantido que não há nada que não pertença às obrigações da Educação.

Mas, de modo nenhum, isso me serve de consolo quando fico em silêncio a conversar com os meus pensamentos. Neles, esquecida por um mundo doente, escondeste-te num recanto da minha alma onde mais ninguém te conseguirá magoar. Nesse esconderijo nos meus sonhos, onde perpetuamente ainda esperas por mim, junto com tantas outras mágoas que foram sendo guardadas. O único lugar onde, hoje, inutilmente tenho de te dizer que quero que saibas que nunca estarás só; que sempre que quiseres esta será a tua casa. Só quero dizer que agora te estou a ver e sinto muito. Apenas queria ainda poder ir a tempo de te dizer que, se tens medo, eu estou a caminho; que irei manter os vampiros longe de ti e que ninguém mais te poderá voltar a fazer mal; que, enquanto estiveres aqui abrigada, ninguém te poderá magoar; que não faz mal aliviares em lágrimas a dor que te vai na alma; que não há nada de errado contigo, apenas com um mundo demasiado imperfeito para amar as suas crianças. Ninguém quis saber, ninguém fez por te merecer enquanto a sua indiferença ia assassinando a tua infância.
Só eu sei o quanto te queria ver montar o unicórnio cor-de-rosa a cavalgar o arco-íris até aos campos floridos de lírios. Pela infelicidade que irei carregar até ao fim dos meus dias, este é o único lugar onde te consegui salvar – na minha memória que guardo no meu peito, onde as tuas lágrimas se juntaram às minhas até à eternidade…

Esses olhos tão novos já viram tanto; esse corpo frágil já sofreu tudo da vida; esse coração puro já amargurou o castigo pelo pecado dos outros.
Nunca me irei esquecer da tristeza enterrada nos teus olhos, nem do tormento da tua dor, nem do ensurdecedor grito de silêncio da solidão onde estavas sepultada.
Vieram atrás de mim para casa onde me desfaço nesse oceano de culpa afogado nos remorsos daquilo que não fui capaz de fazer.
Nunca me tinham dito que, ao abraçar esta profissão, ela iria invadir a minha vida, nem da tolice ingénua de pensar que sabia muito quando, na verdade, da vida, não sabia quase nada.
Apesar de ninguém compreender, é por ti que todos os dias me levanto e vou para a escola, para ainda ir a tempo de conseguir ver a tuas lágrimas no olhar de tantas crianças em risco que ainda poderei ajudar a alimentar na sua sede de aprender, mas, sobretudo, de alguma forma, poder ajudar a serem felizes… para nunca dizerem adeus.

Carlos santos… como muitos outros professores que salvaram várias crianças, mas que carregam o peso de tantas outras que lhes foram invisíveis

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Eu quero ser estónio – José Afonso Baptista

 

Confesso: esta manhã acordei com um desejo inusitado. Não era café. Nem um aumento nas pensões. Era… ser estónio. Ideia maluca, ou sonho tonto, com a leitura do The Guardian de 26 de maio passado.
Sim, estónio. Esse pequeno país do Báltico que cabe inteiro no Alentejo mas aparece gigante nos relatórios internacionais de educação. No último PISA, a Estónia foi o país europeu mais bem classificado em literacia, matemática e ciências. Os alunos estónios não só lêem melhor como resolvem problemas com mais lógica, e fazem tudo isso com naturalidade digital, sem medo dos ecrãs nem dos algoritmos. E para cúmulo, gastam menos por aluno do que nós. Uma afronta!
O The Guardian contou que a Estónia recusou a moda de banir os telemóveis nas escolas. Em vez de panos quentes ou interditos cegos, apostou naquilo que por cá se considera perigoso: inteligência (natural e artificial). Desenvolveram uma estratégia nacional de digitalização, criaram plataformas públicas interoperáveis (como a eKool), formaram professores, envolveram os pais e colocaram a tecnologia ao serviço da pedagogia, e não o contrário. Os telemóveis não foram proibidos: foram integrados, com regras e propósitos.
Na prática, isso significa que há escolas onde a IA já ajuda a detetar dificuldades precocemente, recomenda percursos personalizados, e apoia a avaliação formativa. Professores recebem alertas, não só circulares. E os alunos aprendem desde cedo a programar, a pesquisar com sentido crítico e a compreender o impacto social da tecnologia. Uma literacia digital real.
E nós? Bem, por cá estamos em modo fado: ora se proíbe tudo, ora se impõe tudo. A ideia de dar autonomia às escolas parece radical. Debater com pais e professores? Uma ameaça. Confiar nos profissionais? Um risco. Adotar uma abordagem experimental por territórios? Utopia. A solução mais confortável é nacionalizar o medo e regulamentar o pânico. E depois queixamo-nos que os alunos estão distraídos com os telemóveis, como se o problema estivesse nos aparelhos e não na pedagogia.
Por isso, digo-vos com convicção: quero ser estónio. Quero viver num país onde a escola é levada a sério, não como tema de campanha mas como política de Estado. Onde a tecnologia é uma aliada da equidade e não uma desculpa para a desigualdade. Onde os professores são formados e ouvidos, e não apenas “implementadores” de decisões superiores. Onde os alunos não são “vítimas do digital”, mas cidadãos do século XXI.
Descansem, não vou emigrar, mas, teimoso como sou, deixo, com algum realismo, uma sugestão final: não proíbam nem imponham. Deixem que as escolas, com os seus professores e pais, assumam as suas responsabilidades. Experimentem durante três anos, com liberdade e acompanhamento sério. Depois, ausculte-se o universo das escolas e veja-se onde é que os resultados foram melhores. Talvez se descubra que temos estónios entre nós, à espera apenas de confiança e meios para mostrar o que valem.
José Afonso Baptista | Ciências da Educação |

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A escola ou a fábrica do caos?

Quando abrimos os jornais ou espreitamos as redes sociais, somos confrontados com a enxurrada de vídeos de miúdos – chamemos-lhes assim, na falta de melhor palavra – a esmurrar colegas, a insultar professores, a transformar os corredores das escolas em ringues com inspiração “gameistica”. E a resposta é sempre a mesma? Uma salada de lugares-comuns: “São casos pontuais”, “Faltam recursos”, “Precisamos de mais psicólogos nas escolas”.

Vamos ser honestos. Não é um caso pontual quando, de norte a sul, se acumulam relatos de violência física e psicológica, com professores a meter baixas médicas por exaustão e alunos a saírem da escola como se tivessem sobrevivido a uma travessia de Gaza. Não é falta de recursos quando as escolas estão armadilhadas de projetos “inovadores” que têm tanto de modernidade como de vazio prático. Não é só de psicólogos que precisamos; é de um pacto social para resgatar o que a escola deveria ser.

E não venham com a conversa  que “os jovens estão revoltados porque têm vidas difíceis”. O mundo sempre foi difícil e não há vidas fáceis. A diferença é que antigamente havia a noção, ainda que incipiente, de que o respeito pelos outros – colegas, professores e funcionários – era um pré-requisito para qualquer aprendizagem e relação. Agora, a pedagogia do “coitadinho” venceu. O miúdo insulta o professor? Pobre menino, deve estar frustrado com a vida ou tem um qualquer problema que justifique o ato. O aluno parte o nariz a um colega? Uma vítima da sociedade que não sabe gerir as emoções ou sofre de espasmos musculares. O próximo passo? Professores a darem aulas envergando coletes à prova de bala e capacetes? Funcionários fardados com fatos anti bomba?

Vamos ser claros: não estamos a falar de crianças esfomeadas que recorrem à violência como instinto de sobrevivência. Estamos a falar, na esmagadora maioria dos casos, de jovens que vivem imersos em confortos materiais, com smartphones de última geração, zero responsabilidades em casa e um discurso parental de permissividade total: “O meu filho nunca mente”, “Ele é tão sensível”, “A culpa é do sistema”. Mas a frase que mais se ouve é: “Já não sei o que lhe hei de fazer”. E para continuar, a minha preferida no momento: “ele só roubou 5€… não era preciso suspende-lo…”.

A escola é apenas o palco onde se representa a tragicomédia da nossa abdicação como sociedade. Pais que tratam os professores e funcionários como empregados subalternos, direções escolares paralisadas pela burocracia, tutelas políticas que confundem inclusão com indulgência. E no meio disto tudo, os professores – os últimos resistentes – são despojados de autoridade, transformados em animadores culturais de alunos.

É preciso dizê-lo sem rodeios: a violência nas escolas não é apenas um problema da escola. É um problema da sociedade. Uma sociedade que, a cada eleição, discute superficialidades enquanto as escolas se transformam em zonas de guerra. Uma sociedade que tem pavor de impor limites porque tem medo de ser impopular. Uma sociedade que idolatra o discurso da “liberdade” sem perceber que liberdade sem responsabilidade é apenas um convite ao caos. Para ser livre tem que se saber ser, e aprender que a liberdade, também, tem limites.

Enquanto continuarmos a relativizar agressões, a desculpabilizar miúdos violentos e a engavetar relatórios, estamos a cavar a sepultura do conceito de escola como espaço de formação de crianças e jovens. E não, não são só “casos pontuais”. É uma epidemia lenta, tão perigosa quanto invisível.

Porque, convenhamos, uma escola que tem medo dos seus próprios alunos não é uma escola. É apenas um espaço onde o futuro do país se esvai em cada punho cerrado e em cada adulto que vira a cara para o lado.

Se ainda restassem dúvidas sobre a gravidade da situação nas escolas portuguesas, os dados mais recentes dissipam qualquer ilusão. No ano letivo de 2023/2024, a PSP registou 3.441 crimes em contexto escolar, um aumento de 10,6% face ao ano anterior. As ofensas corporais subiram 8,8%, totalizando 1.346 casos, enquanto as injúrias e ameaças aumentaram 14,7%, atingindo 946 ocorrências .

Em paralelo, a GNR registou 103 crimes de bullying, dos quais 12 de cyberbullying, no mesmo período . Estes números são apenas a ponta do icebergue, considerando que a maioria dos casos permanece oculta, vítimas do silêncio e do medo.

O impacto desta violência vai além das estatísticas. As vítimas enfrentam traumas que podem perdurar por toda a vida, incluindo ansiedade, depressão e, em casos extremos, automutilação ou suicídio . A escola, que deveria ser um espaço seguro e de crescimento, transforma-se num ambiente hostil, onde o medo e a insegurança imperam impostos por uma minoria.

Perante este cenário, é imperativo questionar: que medidas concretas estão a ser tomadas para inverter esta tendência? Não basta reconhecer o problema; é necessário agir com determinação e responsabilidade. A escola não pode continuar a ser o espelho da indiferença social, mas deve tornar-se o reflexo de um compromisso com a educação, o respeito e a dignidade humana.

Porque, no final, a violência nas escolas não é apenas um problema educativo; é um sintoma alarmante de uma sociedade que precisa urgentemente de se reencontrar com os seus valores fundamentais para que possa, verdadeiramente, prosperar.

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