Lágrimas silenciosas e olhares vazios são estrelas que vão morrendo lentamente sem que ninguém consiga perceber como o mundo vai ficando mais triste e o céu mais só, numa sociedade estúpida com cada vez mais gente e menos pessoas.
Na condição de professor, eu aprendi que falhar, me esquecer de coisas e me enganar, são imensos defeitos que – ao contrário da implacável exigência de infalibilidade que a sociedade tem para comigo – revelam que sou apenas humano. Mas também sei que irei estar lá quando o vosso filho for negligenciado por vós, quando estiver envolto em solidão, precisar de ajuda, precisar de ser salvo das famílias desestruturadas, que infligem maus-tratos; quando a criança que têm à vossa responsabilidade precisar desesperadamente de atenção, de ser visto e ouvido, nós, professores, iremos fazer por estar lá para ele. Órfãs de pais vivos, abandonadas dentro de casa pelos próprios progenitores, com falta de atenção, de acompanhamento, de querer, de querer saber, de cumprimento das mais básicas obrigações parentais, tantas crianças negligenciadas e invisíveis no seio das suas famílias, a quem se dá um telemóvel e por aí fica o cumprimento das obrigações dos pais, quando lhes falta o mais importante – atenção e afeto.
Ciente de tudo isto, com todas as virtudes e defeitos que sabemos que temos, nos dias de hoje, ser professor em Portugal é cada vez mais um ato de coragem.
Na verdade, na minha formação, nunca ninguém me disse que ser professor era tudo isto e muito mais; nunca ninguém me avisou que só se diz adeus uma única vez, porque só nós é que sabemos como soa a voz das crianças invisíveis que desaguam nas nossas salas de aula…
De peito aberto, deixo o testemunho do peso desses fardos que todos nós carregamos.
Na minha sala de aula assomou um grito de socorro…
Tudo o que querias é que te vissem.
Dir-se-ia que nunca chegaste a ter os teus dez anos, nem nunca os irás ter; nem sei mesmo se alguma vez foste criança. Começaste a aceitar que a tristeza era normal.
Bateste à porta de um céu sem deus. Onde estava quando mais precisavas dele? O que de tão importante o ocupava para, também ele, não estar para ti?
Que mal fizeste para merecer tudo o que te estava a acontecer?
Terias de gritar mais alto e chorar mais ainda para que te conseguissem ouvir?
Deixaste o teu nome num pedaço de papel às portas do céu e regressaste para o teu inferno. «Lar» tornou-se num lugar profundo e escuro. Invariavelmente, todos nós, ao fim do dia, voltávamos para o nosso céu, enquanto tu não tinhas nenhum e regressavas para um lugar que nenhum de nós conhece nem consegue imaginar. Essa era a tua vida…
Apesar de tudo, ainda tiveste a generosidade de não desistires de mim viajando todos os dias mil quilómetros para aqui para seres vista.
Todos os dias fugiste mil quilómetros do abismo para te refugiares aqui, debaixo das minhas asas na esperança de que te pudesse proteger.
Vieste de tão longe só para estares sentada mesmo à minha frente e, nem eu, te consegui ver; nem mesmo, quando, no fim da aula, ficavas um pouco mais, na derradeira expectativa de que eu conseguisse perceber a tua dor.
Só hoje consigo escutar a angústia do teu pensamento clamando “Quantas vezes terei de aqui voltar até que me consigas ver? Tenho estado, desde sempre, neste banco sentada à tua espera e não me vês? Quem me poderá salvar agora? Já aqui morri mil vezes e não me viste, mas voltarei sempre na esperança de que olhes e me vejas, nem que tenha de deixar crescer os meus cabelos até ganharem raízes neste chão para não ter de voltar para aquele sepulcro de dor.
As pessoas tornaram-se impessoas e olham-me indiferentes com o mesmo olhar de ignorância dos santos de pau e porcelana que dormem nos altares. Elas nunca saberão o que é estar morto em vida ou tão só no meio da inércia de uma multidão onde todos viram a cara e fingem não ver. Nunca o saberão, porque no reino dos homens as pessoas estão tão ocupadas a olhar-se ao ecrã que, simplesmente, deixaram de ver e de sentir. Esta é a minha vida da qual não consigo sair. Olhem para mim e vejam o enorme vazio que me encheu.
Já não consigo respirar, nem dormir, nem gritar. O grito afogado na garganta e as lágrimas esfarrapadas que saem dos meus olhos secos é tudo o que me resta das noites de solidão no meu quarto. Sempre que me vou embora espero que alguém chame o meu nome para eu me voltar e poderem ver toda esta tristeza que tomou conta de mim. Apenas queria ter o direito de chorar como uma criança, ser lírio do campo, porque não sou mulher, não sou adulto, não sou uma coisa, não sou um peso para ninguém, não sou um defeito, nem culpada por ter nascido; quero chorar a minha verdade pelo amor que não me deram, a dor que me infligiram, o passado que me marcaram e o futuro que me roubaram.
Quando eu me esfumar no ar, me misturar como rios no mar e a terra me receber de braços abertos, ninguém dará por isso. Fecho os olhos, abandono-me, voo para longe de mim e deixo de sentir tudo com esperança de me esquecer, de deixar de me sentir, deixar de existir… deixar-me ir para onde mais ninguém me conseguirá magoar.
Será que só me irão ver e escutar quando os anjos cantarem para mim às portas desse céu distante?
Como deixei de saber sonhar, onde moravam os meus sonhos, abundam agora ervas daninhas. Quem me dera ter um par de asas e poder voar para lá daquela colina onde há um mundo que nunca conheci. Será que haverá para mim um tempo e um lugar com campos forrados de açucenas e primaveras com cheiro a terra molhada pelas primeiras chuvas e céus pintados com arco-íris habitados por sonhos e estrelas espalhadas até ao infinito?
Caminho descalça sobre o fio da navalha sentindo as dores na minha alma que são mais profundas do que a das nódoas que me cobrem o corpo escondidas numa vergonha da qual não sou culpada. Afinal, eu só queria que, um dia, pudesse saber o que é isso de «ser criança»…”
Tentaste gritar tudo isso, mas não foste capaz.
Tanto choro esteve escondido atrás desse olhar e nem uma só gota o conseguiu abandonar, porque já não tinhas mais para dar.
Não querias falar disso, só desejavas que te abraçasse com força e compreendesse a dor que todas essas lágrimas guardadas podiam contar. Querias crescer depressa para poderes fugir dos adultos, tanto como cresceres devagar para nunca vires a ser essa gente crescida.
Tenho de confessar que andei tão absorto no trabalho, repleto de tantas inutilidades que me mantiveram distraído, que não enxerguei um palmo diante do meu nariz.
É bem verdade que, aos poucos, os nossos olhos vão sento tapados por um sistema desumano movido por outros interesses maiores do que tu. Trabalho mal feito em casa por parte dos pais – uns, negligentes, por défice de atenção para com os filhos, outros, pais-helicóptero com excesso de zelo que não deixam os filhos pensarem ou resolveram qualquer problema ou adversidade que surja – vão enchendo as turmas com um número crescente de alunos diferenciados, pouco autónomos e com crescentes necessidades de apoio que nos absorvem. Depois, há o monstro… todos conhecem-no pelos intermináveis Decretos-lei, Leis, Despachos e Circulares, infinitos nomes como PASEO, DAC, PAA, PEA, ACND, ModA, TEIP, CEI, MPSSAI , PAFC, RTP…, mas o seu verdadeiro nome é «Burocracia». Toda a espécie de documentos atirados para frente dos nossos olhos, na escola e em casa, até que, sem darmos por isso, nos cegaram. Absorvidos por todo este trabalho excessivo, pelos nossos problemas pessoais e diversos papéis que temos de representar na escola, de repente, em pleno alto-mar, dão-nos uma boia e dizem-nos que, para além de ensinar, cabe-nos a missão de salvar todos os que foram atirados borda-fora por esta sociedade selvagem que foi incompetente na tarefa de cuidar das nossas crianças. Na realidade, o fracasso pandémico desta multidão que vive para lá dos portões das escolas, atirou para os professores a responsabilidade de se tomar como garantido que não há nada que não pertença às obrigações da Educação.
Mas, de modo nenhum, isso me serve de consolo quando fico em silêncio a conversar com os meus pensamentos. Neles, esquecida por um mundo doente, escondeste-te num recanto da minha alma onde mais ninguém te conseguirá magoar. Nesse esconderijo nos meus sonhos, onde perpetuamente ainda esperas por mim, junto com tantas outras mágoas que foram sendo guardadas. O único lugar onde, hoje, inutilmente tenho de te dizer que quero que saibas que nunca estarás só; que sempre que quiseres esta será a tua casa. Só quero dizer que agora te estou a ver e sinto muito. Apenas queria ainda poder ir a tempo de te dizer que, se tens medo, eu estou a caminho; que irei manter os vampiros longe de ti e que ninguém mais te poderá voltar a fazer mal; que, enquanto estiveres aqui abrigada, ninguém te poderá magoar; que não faz mal aliviares em lágrimas a dor que te vai na alma; que não há nada de errado contigo, apenas com um mundo demasiado imperfeito para amar as suas crianças. Ninguém quis saber, ninguém fez por te merecer enquanto a sua indiferença ia assassinando a tua infância.
Só eu sei o quanto te queria ver montar o unicórnio cor-de-rosa a cavalgar o arco-íris até aos campos floridos de lírios. Pela infelicidade que irei carregar até ao fim dos meus dias, este é o único lugar onde te consegui salvar – na minha memória que guardo no meu peito, onde as tuas lágrimas se juntaram às minhas até à eternidade…
Esses olhos tão novos já viram tanto; esse corpo frágil já sofreu tudo da vida; esse coração puro já amargurou o castigo pelo pecado dos outros.
Nunca me irei esquecer da tristeza enterrada nos teus olhos, nem do tormento da tua dor, nem do ensurdecedor grito de silêncio da solidão onde estavas sepultada.
Vieram atrás de mim para casa onde me desfaço nesse oceano de culpa afogado nos remorsos daquilo que não fui capaz de fazer.
Nunca me tinham dito que, ao abraçar esta profissão, ela iria invadir a minha vida, nem da tolice ingénua de pensar que sabia muito quando, na verdade, da vida, não sabia quase nada.
Apesar de ninguém compreender, é por ti que todos os dias me levanto e vou para a escola, para ainda ir a tempo de conseguir ver a tuas lágrimas no olhar de tantas crianças em risco que ainda poderei ajudar a alimentar na sua sede de aprender, mas, sobretudo, de alguma forma, poder ajudar a serem felizes… para nunca dizerem adeus.
Carlos santos… como muitos outros professores que salvaram várias crianças, mas que carregam o peso de tantas outras que lhes foram invisíveis