O ano lectivo que terminou foi tudo menos normal no que toca às aprendizagens que ficaram para trás. Os alunos mais penalizados pela turbulência que o caracterizou são os mesmos que pouco ou nada aprenderam durante os anos de pandemia, aqueles cujo futuro depende em exclusivo do que a escola pública lhes possa dar. E sem pôr fim ao conflito entre os professores e o ministro da Educação não haverá paz no próximo ano letivo, muito menos educação para todos.
A pandemia, a perda de aulas por falta de professores e a irregularidade de funcionamento trazida à escola pelos conflitos laborais, face mais visível das desastrosas políticas de Educação em curso, fizeram crescer o mercado das explicações, de que resultou um acentuado aumento das persistentes desigualdades de oportunidades entre alunos. Segundo disse à Renascença o presidente do Conselho Nacional de Educação, cerca de 200 mil estudantes, isto é, metade dos alunos do ensino secundário em Portugal, têm explicações, cujos custos, naturalmente, são suportados pelas famílias. Vamos continuar assim?
Nos últimos dias foi notícia uma decisão que nos deveria fazer reflectir: o governo sueco, que há 15 anos iniciou um processo de digitalização da educação, vai regressar ao ensino baseado em livros de papel. Os meios tradicionais de ensino vão substituir os ecrãs e os quadros digitais. Motivo? A acentuada diminuição das capacidades de leitura, escrita e expressão das crianças suecas, que o contacto demasiado precoce com a digitalização provocou.
A introdução das tecnologias informáticas nas escolas deve ser progressiva e nunca alheia à produção científica das neurociências, quanto às suas influências no desenvolvimento neuronal dos alunos dos primeiros anos de escolaridade.
Entre nós, a imbecilização das práticas pedagógicas, com destaque para a digitalização da educação, feita à bruta e precipitadamente, está a transformar os nossos jovens em seres cada vez menos pensantes e reflexivos, em simples sorvedores passivos e acríticos de tudo aquilo que os ecrãs lhes apresentam. Claro que o fenómeno tem responsáveis adultos: pais e professores comodistas, manipulados por uma legião de promotores de ideologias perniciosas, apresentadas como pedagogias modernas. Vamos continuar assim?
É urgente que a denominada sociedade civil desperte para o sombrio que mancha a paisagem humana das nossas escolas: preocupantes sinais de violência na relação entre alunos e no seu relacionamento com professores e funcionários; esgotamento físico e psíquico do corpo docente, vergado pelo grotesco burocrático de tarefas inúteis; êxodo precoce dos professores mais experientes; clima de luta insana por uma carreira sem futuro, donde se esvaíram a cooperação e a confiança que cimentavam a comunidade humana dos docentes; uma organização curricular que confunde um quadro de formação global, pacificamente aceite pelo senso pedagógico comum como determinante para as restantes aprendizagens, com as chamadas “aprendizagens essenciais”, que querem equiparar o que não é equiparável, em sede de currículo. Vamos continuar assim?
Desde Dezembro que o S.TO.P. não faz outra coisa que não seja convocar greves por tempo indeterminado, com resultados praticamente nulos e nenhuma mobilização crescente visível, que apenas contribuíram para vulgarizar, banalizar e descaracterizar um instrumento sério de luta dos trabalhadores. Agora, decretou mais uma greve às avaliações, até 15 de Julho. No quadro político que todos conhecemos, designadamente o impacto dos serviços mínimos vigentes, espera o S.TO.P., realisticamente, que a sua iniciativa tenha algum resultado prático? Aliás, por que razão nunca o S.TO.P. apresentou à opinião pública o número dos grevistas que conseguiu mobilizar, referidos a termos circunstanciais precisos?
De uma relevância inicial, galvanizadora de vontades e disponibilidades, o S.TO.P. rapidamente passou a alinhar com as mesmas rotinas que sempre criticou nas outras organizações sindicais, a denegar na actuação o que propalou na retórica promocional, numa palavra, a deixar que a seriedade (se alguma vez a teve) desse lugar ao habitual folclore protestativo, que não dignifica a classe. A desilusão a que o S.TO.P. me conduziu teve o tamanho da ilusão que inicialmente me provocou. Vamos continuar assim?
In “Público” de 5.7.23




7 comentários
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Ui! Zangaram-se as comadres!
Concordo em absoluto!
Professora discreta mas com opinião.
Em resposta ao seu paralelismo anafórico, deixe-me dizer – lhe que sim! Vamos continuar assim.
Sabendo que é um homem com envergadura intelectual q.b., atente na História deste país e vai concluir que, muito infelizmente, vamos continuar assim.
Pegando no seu “… êxodo precoce dos professores mais experientes…”, orgulho – me muito de lhe dizer que sim, também! Dia 1 de Setembro, digo “então, até um dia!” e espero, na verdade, que ele (o dia) nunca aconteça.
Um artigo muito lúcido e certeiro, como de costume, aliás, atendendo a quem o escreveu. O STOP galvanizou e agregou vontades, mas por qualquer razão que ignoro, insistiu para além da conta em greves destruídas por serviços mínimos que quando declarados ilegais pela Relação, já era tarde demais para produzir quaisquer efeitos práticos, e em vez de levar os serviços mínimos e as “necessidades sociais impreteríveis em Educação” ao Tribunal Constitucional, segue os ditames da tutela e continua a marcar grevezitas que sabe-se logo que vão ser destruídas por serviços mínimos e que já nem os delegados do STOP fazem. Só imitou aqueles que critica em “lutazinhas a fingir”, e desatou a “armar” em promotor de acampamentos e outras medidas pífias sem qualquer resultado prático. Da Fenprof do Nogueira, muito pouco esperava. Do STOP esperava muito e… A montanha pariu um rato.
Tenho seguido com atenção a jornada de luta dos professores. Mas de repente, acabou as aulas e não há marcação de greves. Só às avaliações! Por que não convocar uma greve à preparação do ano letivo? Ou às reuniões de departamento? E porque não uma greve para a sexta-feira, 14 de julho? Mas isso não vai acontecer! Porque a grande maioria dos professores está a “preparar o próximo ano letivo” na praia.
Relativamente aos computadores, pessoalmente defendo que os alunos só deveriam pegar num no 10ºano. As TIC e a Internet são coisas fantásticas mas devido á sua tenra idade os alunos não têm ainda uma estrutura mental e uma maturidade que lhes permita ter discernimento sobre o que vêm nas redes sociais. Posto isto, penso que esta coisa dos computadores veio da pandemia e do “Lockdown”. Deram computadores aos alunos e professores e agora querem dar-lhes uso. Manias.
Já o STOP foi muito importante para a luta docente. Os Sindicatos estavam acomodados no compadrio e em coma com morte cerebral. Vem o STOP e com muita imaginação arranjou formas de luta inéditas que fez tremer os Costas.
Aconteceu que os Costas e ratos como são, arranjaram de forma totalmente ilegal serviços mínimos para tudo, foram mais espertos que o STOP e ainda não houve um Sindicato que conseguisse dar a volta a isto.
Texto lamentável pela seu incentivo, encapotado, à desmobilização da luta coletiva, à desunião entre partes e pela mistura de assuntos como opiniões sobre currículos ou metodologias. Quanto aos últimos, penso que se reflita seriamente sobre as transições de ano administrativas. Quanto às neurociências cuidado com os mitos da moda e cada coisa no seu lugar e a seu tempo, sobre tudo quando os estudos no contexto nacional são escassos.
“A pandemia, a perda de aulas por falta de professores e a irregularidade de funcionamento trazida à escola pelos conflitos laborais, face mais visível das desastrosas políticas de Educação em curso, fizeram crescer o mercado das explicações, de que resultou um acentuado aumento das persistentes desigualdades de oportunidades entre alunos.”
Lamentável este parágrafo (para não lhe chamar um nome mais feio) constituído por uma meia verdade. Então, entre a pandemia e a falta de professores, é a irregularidade de funcionamento produzido pelos conflitos laborais que fazem crescer a desigualdade de oportunidades entre os alunos? Não será antes o contexto laboral (dos pais) que se está a criar em Portugal, fruto de um neoliberalismo galopante que cria essas desigualdades?
Óh Rui, Rui, afinal estais ao serviço de quem?
Já agora, qual o propósito deste artigo onde claramente aparecem misturados “alhos com bugalhos”? É verdade que exigimos que nos paguem aquilo que nos devem e também sentimos que é necessário alterações substantivas quanto a metodologias, investimento tecnológico e novas formas de organizar todo o trabalho docente. No entanto se quisermos falar de uma organização objetiva da luta laboral docente, torna-se evidente, neste texto, a ausência de uma definição de prioridades.
Estou bastante descontente com tudo aquilo que se passa no nosso sistema educativo, mas este tipo de artigo não abona, pela sua perigosa subjetividade, em nada a favor do sucesso da união na luta da classe docente. Independentemente do sindicato a que pertençamos temos de estar todos unidos na definição das prioridades na luta laboral.
Atenção e muito cuidado com a partidarização e sectorização das lutas laborais. Deixaria aqui o belíssimo exemplo do sindicato dos estivadores o qual sempre se uniu em torno dos interesses da classe, tornando-se impermeável à politização partidária, viesse ela de onde viesse.