Precisa-se, urgentemente, de um Plano de Recuperação da Decência…

 

Foi recentemente conhecido o Plano de Recuperação das Aprendizagens, proposto pelo Ministério da Educação para o Ano Lectivo de 2023/2024, prevendo-se um novo ano, ainda mais, esquizofrénico, insano e delirante…

O Governo parece continuar em roda livre, perfeitamente alheado da realidade que se vive nas escolas, não podendo deixar de se ficar incrédulo e aturdido perante tal constactação…

Expectavelmente, no próximo Ano Lectivo, por força da alteração da fórmula do crédito horário, desaparecerão 3.300 horários de Professores que reforçavam o apoio providenciado aos Alunos, pelo que se torna muito difícil acreditar na seriedade do referido Plano…

Será possível executar um Plano, destinado à recuperação das aprendizagens dos Alunos, sem que existam os necessários Professores para o concretizar?

Acreditar-se-á que a carência de Professores não terá qualquer efeito nesse Plano?

O Ministério da Educação tem mostrado, de forma inequívoca, a sua recusa para melhorar as condições existentes na Carreira Docente e torná-la mais atractiva, parecendo, antes, mover-se por um certo prazer sádico, ao enveredar repetida e obstinadamente pelas “soluções” mais tortuosas, desleais, injustas e perversas…

Por vezes, parece existir, até, um certo esgar de regozijo, divertimento e gáudio, na apresentação de propostas que, pelo seu teor, causarão um expectável sofrimento físico e psicológico a terceiros, como a Tutela certamente antecipará…

O Concurso da Mobilidade por Doença é um exemplo paradigmático do anterior…

E não pode deixar de se considerar tal cenário com perplexidade, mas também como algo iminentemente perturbador…

Na verdade, ninguém precisa de Planos de Recuperação das Aprendizagens, ostensivamente, irrealistas e artificiais, impossíveis de concretizar em termos práticos e de duvidosa eficácia…

Efectivamente, mais do que recuperar aprendizagens, a Escola Pública precisa, com urgência, de recuperar a decência, que é como quem diz resgatar a democracia e a ética, fundamentais para se observar honestidade, respeito ou dignidade…

A Escola Pública ameaça transformar-se numa fraude, num embuste, onde começa a ser difícil perscrutar quem engana e quem é engando…

De uma forma ou de outra, andaremos todos a enganar e a ser enganados?

Que “estranha forma de vida” parece ter a actual Escola Pública:

Há muitas escolas que parecem gaiolas…

Pássaros criados em gaiolas acreditam que voar é uma doença” (Alexandro Jodorowsky)…

Muitos profissionais de Educação “não conseguem voar”, aparentemente reféns do medo e da sujeição a uma “normalidade” bizarra, repugnante à Razão…

Em particular, a Classe Docente está desagregada e fragmentada, não há consensos, nem solidariedade entre as partes que a compõem…

As estruturas sindicais não têm conseguido opor-se à desunião existente, nem têm servido para aglutinar os Professores, contrariando, dessa forma, as eventuais discórdias e “conflitos de interesses” existentes dentro da Classe Docente…

A descrença e o cepticismo generalizados dos Professores face às estruturas sindicais contribui para que cada Docente se enrede, cada vez mais, no seu próprio individualismo e na defesa dos seus próprios interesses, descurando a união de classe profissional…

Restará à Classe Docente uma “acção de guerrilha”, protagonizada por grupos de Professores?

A luta dos Professores deverá restringir-se à “acção de guerrilha”?

À partida, uma “acção de guerrilha” será um conjunto de episódios de luta pontual e implicará a existência de “combatentes voluntários”, dispostos a empreender determinadas acções de natureza “furtiva” ou “ataques surpresa”…

Previsivelmente, essa “acção de guerrilha” terá como principal objectivo desgastar e sabotar o adversário e isso implicará, quase sempre, distender um conjunto de acções por um longo período de tempo…

A Classe Docente terá os necessários “combatentes voluntários”, dispostos a enveredar por “acções de guerrilha”, que poderão decorrer sem previsão de término?

Qualquer luta tem custos, implica sacrifícios e requer a capacidade de resistência…

Quantos na Classe Docente estarão dispostos a aceitar os custos e os sacrifícios, decorrentes de eventuais “acções de guerrilha”?

Quantos na Classe Docente conseguirão resistir e manter-se motivados para encetar um número indeterminado de “acções de guerrilha”, expectavelmente por um período de tempo incerto?

Com franqueza, não parece que essa forma de luta possa sobreviver, ainda que possa existir um certo “romantismo”, habitualmente associado a “acções de guerrilha”…

Mas as pretensões dos Professores dificilmente serão satisfeitas por essa via:

– O cansaço e o desgaste originados por essa forma de luta levarão, inevitavelmente, ao desânimo e à desistência, sobretudo se não forem visíveis consequências concretas, num curto espaço de tempo…

Em resumo, no momento presente, a Classe Docente parece não ter definido qualquer estratégia de luta, que possa gerar o impacto desejado junto da Tutela, fazendo-a retroceder…

Sem união de classe profissional, sem unidade sindical e muito dificilmente com uma “acção de guerrilha”, a Classe Docente será ou não capaz de se erguer e comandar o seu próprio coração?

Coração independente
Coração que não comando

Vives perdido entre a gente
Teimosamente sangrando
Coração independente

 

(Estranha forma de vida, Amália Rodrigues e Alfredo Marceneiro).

Nunca é tarde para (re)aprender a voar…

A não ser que, em alternativa, se aceite, definitivamente, a clausura numa gaiola asfixiante e o medo imposto pela mesma…

 Mas, e por muito que se escalpelize o tema, será sempre impossível escapar a esta conclusão:

– Ninguém poderá “libertar” os Professores, a não ser eles próprios…

Neste momento, já não existirá qualquer margem para ilusões:

– Os protestos da Classe Docente só serão levados a sério pela Tutela quando os Professores encontrarem a coragem e a determinação necessárias para proceder ao encerramento das escolas pelo tempo que for necessário…

– Até isso acontecer, ninguém, na verdade, se importará com a luta dos Professores…

– Até isso acontecer, a Tutela continuará a desrespeitar, jocosamente, a dignidade dos Professores…

– Até isso acontecer, qualquer outra forma de luta será sempre entendida pela Tutela como um “fait-divers”, inconsequente, sem importância e inofensiva, em termos de danos ou abalos…

– Até isso acontecer, prevalecerá a ideia de que, afinal, tudo está bem e corre bem na Escola Pública…

A “luta fofinha” já deu o que tinha a dar… Não será, com certeza, por esse tipo de luta que se demove a Tutela…

Precisa-se, urgentemente, de um Plano de Recuperação da Decência…

(Paula Dias)

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8 comentários

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    • Vanda Serrão on 23 de Julho de 2023 at 20:10
    • Responder

    Urgência? Está superlotada.

    • Paula Dias on 23 de Julho de 2023 at 20:26
    • Responder

    Lamento, mas, por lapso, onde se lê Ano Lectivo 2022/2023, deve ler-se 2023/2024.

    Paula Dias

  1. Santa ingenuidade! Até parece que os autores deste blog não são dirigentes escolares! Esntão vocês não sabem que este plano se destina a sacar subsídios comunitários para pagar salários de técnicos especializados (psicólogos, terapeutas da fala, etc. ). Por isso, continua, ainda que seja só no papel ,porque não se podem fazer omeletes sem ovos. Vocês só têm de fazer a monitorização no final do ano a dizer que correu tudo muito bem e melhorou o sucesso escolar (como sabem, agora o sucesso depende da vontade dos diretores e não das aprendizagens dos alunos)! O mesmo se passa co m outros planos e projetos muito inovadores que têm saído do ME nos últimos tempos.

  2. Santa ingenuidade! Até parece que os autores deste blog não são dirigentes escolares! Então vocês não sabem que este plano se destina a sacar subsídios comunitários para pagar salários de técnicos especializados (psicólogos, terapeutas da fala, etc. ). Por isso, continua, ainda que seja só no papel ,porque não se podem fazer omeletes sem ovos. Vocês só têm de fazer a monitorização no final do ano a dizer que correu tudo muito bem e melhorou o sucesso escolar (como sabem, agora o sucesso depende da vontade dos diretores e não das aprendizagens dos alunos)! O mesmo se passa co m outros planos e projetos muito inovadores que têm saído do ME nos últimos tempos.

    • Senso Comum on 23 de Julho de 2023 at 21:24
    • Responder

    1. A guerrilha mantém o tema na ordem do dia e parece ter pernas para andar. Está com gente realmente empenhada.
    2. A população, em geral, também está insatisfeita com o que se está a passar na educação e reconhece a perversidade e gaudio sádico das medidas.
    3. Os sindicatos actuarão no sentido de demonstrar as ilegalidades e repor justiça nas decisões educativas sob pena de serem ultrapassados.
    4. Alguma comunicação social mostra a insatisfação portuguesa que é forte.
    Tudo isso irrita mesmo os ministros e para obter votos há que aliciar em vez de desagradar propositadamente!

    • professora on 23 de Julho de 2023 at 23:10
    • Responder

    Concordo.Precisamos dum plano de recuperação da dignidade, autoridade e respeito pelos professores.E de valorização da escola pública como uma escola de qualidade e inclusiva onde todos deveriam estar.Situação que existiu até 2000 e pouco com Guterres que é bem formado e dá importância à educação. Depois começámos a ser governados por labregos pouco educados.
    Nestes 20 anos temos andado a ser tuteladis governos desses “labregórios”. Deixámos também de pertencer a classe média para sermos proletários assalariados com pouco poder de compra, mas com ambições burguesas mercê da preparação superior que temos. Uma frustração e um desencanto.
    Os professores portugueses são pessoas dedicadas e trabalhadoras dizem no os pais estrangeiros europeus e não europeus.Até altruístas no seu trabalho diário com as populações. Merecemos voltar a ser reconhecidos e apreciados pelos nossos alunos e pela população portuguesa. Quem morde a mão trabalhadora , humilde mas de qualidade ,do professor português,não merece ser cumprimentado.

  3. Nada mais certo:

    “– Os protestos da Classe Docente só serão levados a sério pela Tutela quando os Professores encontrarem a coragem e a determinação necessárias para proceder ao encerramento das escolas pelo tempo que for necessário…”

    • Mrtsousa on 30 de Julho de 2023 at 9:04
    • Responder

    Precisa-se, urgentemente, criar a Ordem dos Professores Portugueses!

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