Inclusão é pôr as vacas a comer carne – José Afonso Baptista

 

Eu sou um pobre professor de entendimento fraco. Tão fraco que não consigo entender os “sábios” do ministério da educação quando falam que inclusão é educar todos juntos.

Eu penso que inclusão é educar todos bem, mesmo todos, ainda que sejam burrinhos, alguma coisa hão-de aprender, o que é importante é educar com grande qualidade o que cada um é capaz de aprender. Quando puder ser juntos, melhor, se tiver de ser separados, paciência.

Fui à minha aldeia, lá prós lados de Castelo Branco, e finalmente percebi o que era inclusão, segundo o ministério da educação, que não é o que eu acho, mas eu sou fraco de entendimento. Fui à quinta do Ti Manuel do Canto, onde tem os animais do costume, cabras, borregos, cães, gatos, e até tem uma vaca leiteira, que não há muitas lá para aqueles lados.

E fiquei espantado quando o homem teimava em dar a todos palha seca, misturada com umas ervas também secas que lá chamam feno, gente esquisita, e não é que os cães e os gatos não quiseram comer?!

Eu disse-lhe a rir, mas ele não gostou, que experimentasse dar carne a todos, talvez a vaca se deleitasse a comer um bom bife e as cabras e os borregos talvez ficassem contentes com umas iscas de porco.

O Ti Manuel do Canto é um homem bom e pacífico, mas não gostou da piada e quando se zanga é terrível e deu pontapés nos cães e nos gatos por não quererem comer palha e feno juntos com as cabras e os borregos, nem mesmo com a vaca leiteira. Bichos esquisitos e teimosos.

O Ti Manuel do Canto fez-me lembrar os sábios do ministério. Ele não entende que não pode dar aos herbívoros a mesma comida que dá aos carnívoros, que são gostos diferentes, e que tem de respeitar a natureza e a diferença. A igualdade é importante, tratar todos igualmente bem, mas a diferença também. Tratar como iguais os que são diferentes só pode dar asneira. E eu pra mim entendi que inclusão é alimentar todos bem, dar carne aos cachorrinhos e erva aos cabritos. Dar a todos a mesma coisa não resulta.

É isto que os sábios do ministério não entendem, penso eu, com o meu fraco entendimento. Ensinar os surdos como se ouvissem, ou ensinar os cegos como se vissem e pôr todos a ver o mesmo filme sem legendas, os surdos a reclamar porque não ouvem as falas e os cegos a gritar por que não veem as imagens, a professora a gritar em altos berros para ver se todos entendem, uma confusão, mas pró ministério o importante não é educar bem, é educar juntos.

Não foi isso que disseram os senhores lá em Salamanca nem é o que diz a UNESCO. Todos juntos sempre que possível, mas muitas vezes não é possível. O problema é que os sábios do ministério são como o Ti Manuel do Canto: querem dar carne às vacas.

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9 comentários

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  1. Mto bom.

    • Cláudia on 8 de Julho de 2023 at 15:03
    • Responder

    Excelente!

    • Carlos Moreira on 8 de Julho de 2023 at 15:04
    • Responder

    Boa! Bem ilustrado!

  2. Pelos vistos, eu também sou um professor de muito, mas mesmo muito, fraco entendimento…

    • professora on 8 de Julho de 2023 at 16:33
    • Responder

    😂 belo título e belo exercício lógico.
    Mas não concordo com tudo. Há escolas onde a educação inclusiva corre bem.
    Depende dos entendimentos e dos alimentos😂

    • Sardanisca on 8 de Julho de 2023 at 18:15
    • Responder

    Houve um tempo que os Diretor Regional de Educação, há 20 e tal anos atrás, que se aposentavam lá, depois de lá estarem pouco tempo, no tempo em que se aposentavam pelo último vencimento que tinham, que era maior. Houve um tempo…

    • Mário Rodrigues on 9 de Julho de 2023 at 12:30
    • Responder

    Uma das razões por que, pedi licença sem vencimento, e fui para casa estudar, escrever e dedicar-me à agricultura, foi porque também não entendo os “sábios” do ministério da educação.
    Ou se calhar entendo. Eles não serão imbecis. Serão apenas uns escroques ( = indivíduos sem escrúpulos) a executarem o projecto de destruição da escola pública!…
    Não sendo possível «implodir o ministério da educação» como defendia Nuno Crato, talvez o melhor seja reformar antecipadamente todos os “sábios” do ministério da educação, no mínimo, com a pensão do Presidente da República. Custava menos dinheiro ao País e evitava-se a tragédia em curso!…

    • Luís Miguel Cravo on 9 de Julho de 2023 at 16:46
    • Responder

    EXCELENTE, José Afonso Baptista! A propósito da educação inclusiva, uma aluna, há um par de anos atrás, acabou o 12°ano,na escola onde eu estava na altura, depois de ter passado todo o secundário, na portaria da escola, com as funcionárias que, pobres, também a levavam ao quarto de banho e a limpavam…. Na reunião de avaliação, não ne esquece, perdemos 56 minutos, numa turma de 27 alunos, a escrever comentários em tom EJACULATÓRIO (este mesmo) sobre o “sucesso” da pobre rapariga….. Ac educação inclusiva é mesmo supimpa!

    • Paula on 10 de Julho de 2023 at 14:30
    • Responder

    Mas o que é isto??? Que linguagem simplória e pobre é esta? Comparar alunos com animais? Esta é uma visão de quem nunca devia dar uma aula na vida pois, claramente, tem uma mentalidade medieval!

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