E o que vai ser de nós? Porque é que a professora não fica? Não fica mais um ano?
Porque não pode. Porque o contrato acabou, chegou ao fim, independentemente do trabalho, da dedicação, das relações, do progresso dos alunos, do apoio aos pais, do excelente no relatório de desempenho.
A professora vai-se embora e não volta. Temos os concursos e a casa às costas, se tiver sorte a caminho de outras paragens, outros alunos, outros pais.
Não que fosse sua intenção ser professora, a investigação a rimar com o desemprego e a empatia a valer-lhe, com naturalidade, o tracto fácil, o sorriso, uma paixão difícil de explicar pelas rochas, pelas saídas de campo, pela escola não apenas fora das tais quatro paredes mas também debaixo dos pés e aqui está ela, ou esteve, de machadinha em riste a recolher amostras, a mostrar de onde vimos, do que somos feitos, para onde vamos enquanto astros formam planetas, a astrofísica é a mãe da mineralogia mas também o seu fim e nós pelo meio à procura de um sentido, de uma vida.
E as crianças a reconhecer o entusiasmo e a alegria a responder com igual entusiasmo e alegria ao verem na professora um guia, uma mestra, um ponto de apoio, a amizade e confiança, os problemas partilhados e os conselhos em troca, a confiança de mãos dadas com a esperança e as crianças a crescer mais um pouco, a viver mais um pouco, a questionar mais um pouco, a serem quem um dia serão mais um pouco.
O orgulho é imediato e a professora bem sabe não ter preço apesar de valer o seu peso em ouro e aqui está o verdadeiro trabalho de um professor e a missão cumprida.
Mas as crianças não param de crescer e para o ano mais desafios, mais questões e dúvidas, outros receios, a ansiedade de volta e a professora não mais aqui.
As relações à distância já deram de si de tão distantes, as redes não cobrem os danos e de pouco vale repetir vezes sem conta como nunca nos vamos embora se em Setembro já cá não estamos e fazemos sempre falta e ainda mais falta quando cá não estamos.
A saudade já está, por conseguinte, a travar as palavras e as lágrimas sôfregas nas gargantas destas crianças. A pergunta é válida: o que vai ser de nós agora que a professora se vai embora?
E a professora sabe a resposta de outros professores seus de outrora, quarenta anos volvidos e a casa ainda às costas, esta sina e esta cruz às costas feita castigo para um país inteiro e órfão de quem um dia teve a coragem de nos dar a mão.
Adeus, professora, nunca mais nos esqueceremos de si. E com o coração pequenino nas mãos aprendemos mais uma lição, não a esperada, e crescemos mais um pouco.
Talvez, quem sabe noutro tempo e noutra vida, nos cruzemos outra vez, porventura diante de um gnaisse de filões máficos, nunca se sabe assim como não sabemos o tamanho deste abraço, mas calculamos, quando um dia este dia chegar.




3 comentários
A professora vai andar com a casa às costas enquanto houver concurso nacional de professores. Um docente aceita ir para longe com o objetivo de vir a ficar perto de casa.
Quando forem as escolas ou os QZPs com 5 concelhos a recrutarem os professores isso acaba na hora. Porque ou professor fica naquela escola ou fica no desemprego. No ano letivo seguinte só não fica se não houver horário.
Quando deixar de haver mobilidade interna, deixa de haver casa às costas. Por isso, é que o ministro da educação vai acabar com ela. Os professores tinham uma boa ferramenta para conseguirem dar aulas perto de casa. Os professores tanto se queixaram/vitimizaram que agora perderam o que de melhor tinham. Parabéns!!
Sem mais. É isso mesmo.
A partir de agora preparem-se para um grande lambe-rabos de diretores e de políticos que estejam nas autarquias a desmandar quem vai ser contratado.
É assim a municipalização e vai tudo nesse sentido.
Por isso, é que este professor se vai. Depois de quase 20 anos a lecionar e a gostar de lecionar, chega de ser maltratado e roubado por governantes. Roubo de tempo de serviço, roubo de ordenado, roubo de reforma porque não se progride, roubo de horas sem conta que deveriam ter sido para a família e não para trabalho para a escola e roubo de respeito.
O diploma que agora será aprovado ir-me-ia congelar no 4.º escalão para sempre. Chega (sem conotações partidárias). Chega de ser roubado por gentalha que nunca fez mais nada na vida a não ser enganar e sacar da política. Saio hoje, último dia de julho (embora formalmente só no final de agosto). A mim já não roubam mais.
Milagre!
Um Tsunami em dois Palácios…