Testemunho de uma professora: O rei vai nu – Carmo Machado

Testemunho de uma professora: O rei vai nu

a passada terça de manhã, mal cheguei à escola, ouvi o meu colega Hugo (que habitualmente tem sobretudo turmas do ensino básico) afirmar com espanto e alguma ironia: Ah, ouviram? O melhor professor de Portugal diz que nunca teve um dia em que pusesse um aluno na rua. Já eu, não tenho um dia na vida em que isso não me aconteça… O meu colega Hugo é um excelente profissional. Dedicado. Aplicado. Assíduo. Sensível. Amigo dos alunos. Solidário. Bom colega. E ainda jovem, o que lhe concede uma enorme paciência, por mim já várias vezes testemunhada. Porém, ensina Matemática e, como se tal não bastasse, numa escola de território educativo de intervenção prioritária.

Todo este intróito para fazer uma breve apreciação ao debate sobre Educação do passado dia 12, moderado pela jornalista Fátima Campos Ferreira, no Canal 1, apregoado e realizado com pompa e circunstância, num auditório repleto de professores. Pretendia-se discutir as causas e as consequências da violência nas escolas mas também a urgência em dignificar a profissão docente, à mistura com o que deve ser hoje a aprendizagem, a polémica das notas e dos exames bem como o atual ponto de saturação de professores e alunos, entre outros assuntos sem dúvida importantes. Comecei por ouvir com atenção, não sem considerar que talvez se estivesse a meter o Rossio na Rua da Betesga.

O depoimento de um professor, Luís Sottomayor Braga, antecedeu o debate. O colega confessou ter sido agredido várias vezes. Sete, em bom rigor. Numa escola de um agrupamento T.E.I.P., como a minha. Outros casos de violência foram narrados, como o caso da agressão de um pai de uma aluna a professores e a auxiliares de ação educativa. Ali estava, pensei, um importante tema de interesse público, com grande atualidade, urgente e necessário. Segundo dados do Ministério da Educação, os casos de violência nas escolas têm vindo a diminuir (1500 casos de violência escolar em 2018, mas números estão a diminuir, avança a SIC). Será mesmo assim? Pela minha vivência diária numa escola T.E.I.P., tenho dúvidas. Acredito que a maior parte dos casos de indisciplina e de violência nas escolas fica em silêncio. Existe também a hipótese de muitas vezes se desincentivar a queixa uma vez que pode estar em causa a imagem da instituição, caso o número de casos de indisciplina / violência se revele elevado. Outros casos haverá em que os prazos para a participação disciplinar foram ultrapassados, a aplicação das penas demorou ou não chegou a acontecer, etc. Certo é que, quer sejam casos de bullying, injúrias, atentados à nossa integridade ou meros atos de indisciplina com que lidamos numa base diária, a maior parte destas situações são geridas em sala de aula pelos professores, com graves consequências para a sua saúde mental. Mas com tudo isto já nós vivemos há muito tempo e quase que estamos habituados. O que me preocupa é a afirmação de que haverá professores por esse país fora com medo de dar aulas.

Também eu já fui injuriada. A minha experiência profissional com três décadas de escola pública mostra que os alunos dos cursos profissionais são, em regra, mais indisciplinados do que os alunos dos cursos do ensino regular e que os do ensino básico provocam mais problemas do que os do secundário. Porém, é tudo uma questão de sorte. Já me chamaram “filha da puta”. Já entraram e saíram da sala com estrondo, aos pontapés e aos palavrões. Já me ameaçaram. Já amarrotaram e rasgaram testes corrigidos, atirando-os para o caixote do lixo, ali mesmo à minha frente. Todos os dias, dia após dia, há professores a passar por alguma situação de violência. São atos contínuos que vão corroendo a mente e o corpo. Num dia normal de trabalho, um professor lida com cerca de 90 a 120 alunos. Todos diferentes, sim! Mas também todos iguais na sua adolescência, na sua atribulada vida familiar, no seu (des)interesse pela escola, na sua (des)preocupação com as notas, na sua obsessão pelo telemóvel, na sua descoberta da sexualidade, na sua atitude de revolta.

Que razões levam os professores a não marcarem faltas disciplinares amiúde ou, em casos mais trágicos, a não denunciar os alunos à polícia? Medo? Vergonha? Sensação de impunidade? No meu caso, é cansaço. É sobretudo cansaço, como diz o poeta. Há dois anos, um aluno do 11º ano de escolaridade, não só filmou as aulas de uma colega minha como fez uma montagem com o meu rosto no corpo de uma modelo em biquíni natalício – obviamente reduzido – que divulgou pelos colegas, acabando tal graça por chegar ao conhecimento de uma auxiliar de ação educativa que de imediato nos informou. Da participação disciplinar, nada resultou. Era necessário apresentar queixa na polícia e aí, mea culpa, demasiado ocupada com cento e vinte seres para ensinar (e perante a garantia de que o aluno abandonaria a escola), não agi. Nem o aluno mudou de escola nem nós fomos poupadas ao encontro com ele nos corredores, sem ter sido alvo de qualquer tipo de sanção.

Voltando ao debate, preocupou-me a ausência de um representante do Ministério da Educação, não menos do que a solidariedade pública perante os professores agredidos. Citando o professor Luís Sottomayor Braga, o mundo de sonhos em que alguns vivem é o pesadelos de outros. Tanto o professor do ano como a investigadora e o economista – que fizeram parte do painel – mostraram-nos uma triste realidade: os verdadeiros especialistas em educação, os professores, foram remetidos ao papel de meros papagaios relatores das suas experiências a peritos que vão explicando aquilo que não viveram. Tudo isto me fez recordar um professor de Mestrado na Universidade Católica, nome conhecido na praça que, sem nunca ter entrado numa sala de aula do ensino básico ou secundário, nos pedia semanalmente narrativas de casos por nós experienciados na escola (com os quais nos avaliava) e que depois transformava em crónicas semanais num conhecido jornal da nossa praça pagas a peso de ouro e em livros que vendiam como castanhas no outono.

O Inquérito Nacional a 16 mil docentes sobre as Condições de Vida e de Trabalho na Educação em Portugal, uma encomenda da Fenprof à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, é revelador do estado em que nos encontramos. Quando cerca de nove em cada dez professores admitem querer reformar-se de imediato, se tal oportunidade lhes fosse proporcionada, pouco mais há a dizer. Lidar com turmas de trinta alunos indisciplinados é, sem qualquer sombra de dúvida, difícil e penoso. Pela exaustão emocional que nos provoca e que vai aumentando à medida que as nossas capacidades de resiliência vão diminuindo. Existe uma forte correlação entre esta exaustão em que nos encontramos e os níveis de desejo de reforma que todos os colegas com quem falo me manifestam. Se os políticos e as políticas de educação continuarem a ignorar esta situação, preparemo-nos para o descalabro que se avizinha.

A sensação de impotência e de vazio espalha-se pelas salas de professores. Lidamos diariamente com comportamentos de baixo impacto mas de elevada frequência. E, pouco a pouco, dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano, o reflexo destes comportamentos aliado à urgência em apagar tantos fogos ao mesmo tempo vão-se acumulando dentro de nós. Eis-nos chegados a um ponto em que a nossa caixa de ressonância começa a vibrar cada vez menos com a escola. Vivemos as semanas de trabalho na esperança de que os meses e os períodos se sucedam rapidamente e o ano letivo termine. Por tudo isto, considero urgente um debate honesto sobre o cansaço, a exaustão e a desilusão dos profissionais de ensino em Portugal. Neste contexto, dificilmente conseguiremos chegar aos 66 anos e muitos meses na posse de plenas capacidades mentais. Eu por mim falo!

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10 comentários

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    • Fantastique! on 11 de Novembro de 2019 at 14:08
    • Responder

    Excelente texto. Parabéns!

    • pardaleca on 11 de Novembro de 2019 at 14:44
    • Responder

    Estamos à espera que o grunho do Pardal defeque nos professores como já é seu apanágio.

    • Anabela Esteves on 11 de Novembro de 2019 at 18:32
    • Responder

    Parabéns, pelo excelente texto!

  1. «Que razões levam os professores a não marcarem faltas disciplinares amiúde»? Numa escola da margem Sul do Mondego, uma das razões é porque se o fizerem são escrutinados em reunião de CT por uma fascizóide que manda nos cursos profissionais. Classificações nas suas disciplinas são de 14 para cima (só 4 e 5 no Básico) e não há indisciplina (santinha!), quando põe alunos na rua acompanha-os à Biblioteca mas oficialmente não marca falta de presença nem disciplinar. SACRIPANTA NOJENTA!

    Quanto a filmagens, esta criminosa incentiva alunos a filmarem aulas de colegas de quem não gosta, para tentar expulsá-los da profissão em conluio com grupos de EE desempregados que não têm nada para fazer. CRIMINOSA!

    Arrebanha 99% dos professores, funcionários, EE e alunos. Nem a diretora tem mão naquela fanática do poder, que recorre aos estratagemas mais rasteiros para enlamear o nome de certos “colegas” “impuros” que não têm medo de dizer o que pensam e não lhe lambem as botas.

    Entre os atos desta SACRIPANTA mafiosa encontram-se:
    – difamação dos “impuros” em reuniões e posterior expurgação das atas (para não ir a tribunal) em reuniões expressamente marcadas para esse efeito
    – convocação de reuniões ilegais para sobrepôr decisões de reuniões do CT
    – difamação dos “impuros” de “mansinho” (para não ir a tribunal) em cada oportunidade que encontra, junto de profs funcionários EE e alunos
    – quando ninguém está a ouvir refere-se aos “impuros” como “fdp”, “atrasados”, “cagalhotos” e etc. (mas isto só com os fiéis mais próximos que não piam)
    – desautorização dos “impuros” em frente a alunos, invadindo as suas aulas e fazendo comentários difamatórios e jocosos frente a alunos
    – promoção e coordenação de ações de grupos de EE e alunos, com o objetivo de afastar os “impuros”
    – influência na distribuição de serviço de exames junto do rebanho denominado secretariado de exames (que procede a distribuir serviço aos “impuros” em 99% dos dias)
    – promoção de comportamentos criminosos dos alunos tais como gravação de aulas dos “impuros” (das quais só dá conhecimento aos fiéis mais próximos mas não à diretora da escola)

      • Manuel on 11 de Novembro de 2019 at 20:23
      • Responder

      Colega ,estás a repetir a tua narrativa e está fora do contexto. Parece-me que seja perseguição a alguém?

    • Isabel Neves on 11 de Novembro de 2019 at 20:42
    • Responder

    A impunidade tomou conta da sala de aula porque não há consequências eficazes que promovam o autocontrolo. É a cidadania sem regras que vale. Respeito pelo professor fica nas ruas da amargura!!!

    • Sandra on 12 de Novembro de 2019 at 0:12
    • Responder

    Muito bem, Carmo!
    Aquele programa foi surreal. Tivemos oportunidade de expor tudo o que aqui escreves e que é muito comum nas nossas escolas e no final… tudo está bem (sabemos bem que não!). Uma vergonha. Tanta hipocrisia.

    • João on 12 de Novembro de 2019 at 1:53
    • Responder

    Parabéns! Excelente texto, muito bem escrito!

    • iluminado on 12 de Novembro de 2019 at 9:10
    • Responder

    Está tudo certo. Mas o que é que a classe faz? Nada. Faz uma “greve” às horas extraordinárias. Ridiculo. A situação atual é também culpa nossa. Não temos vontade de mudar, não basta falar e fazer queixas. É preciso querer e ter força para mudar. Eu não estou a ver a classe a unir-se. Aqui está o verdadeiro problema. A falta de união. E os políticos sabem disso e aproveitam-se. Somos muitos mas somos fracos. A mudança só se faz com dureza. É preciso ter coragem e encostar os politicos à parede e isso só se consegue parando a escola a sério e por tempo indeterminado. O resto é conversa fiada.

    • Ser prof. não é para qualquer um on 12 de Novembro de 2019 at 18:54
    • Responder

    Estou absolutamente de acordo com o Iluminado. União e bloqueio.
    Se querem que desmobilizemos, restituam-nos a autoridade e o respeito.

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