Greve em Chicago. Professores alcançam objectivos e voltam ao trabalho

Greve em Chicago. Professores alcançam objectivos e voltam ao trabalho

A greve dos docentes de Chicago durou duas semanas e foi a mais longa desde há mais de três décadas. Na quinta feira, o sindicato anunciou um pré-acordo que dava satisfação às principais reivindicações dos grevistas.

Quinta feira foi também o dia de uma manifestação com milhares de docentes, que arrostaram com o frio e a neve para trazerem a greve às ruas, na capital do Estado de Illinois, com a visibilidade que até aí já tinha ganho nas escolas.

O pré-acordo anunciado pelo CTU (Chicago Teachers Union) inclui um aumento salarial, redução do tamanho das turmas e alargamento dos quadros de pessoal. Para além dessas reivindicações mais imediatas, os grevistas punham em causa as linhas mestras da política educacional da cidade, tal como elas foram formuladas pelo mayor (presidente da Câmara) Rahm Emanuel em depois mandatos sucessivos e depois continuadas pela mayor actual, Lori Lightfoot.
Rahm Emanuel, chefe de gabinete de Obama até 2010, concorrera em 2011 ao cargo de mayor prometendo “reformar” o ensino, com uma terapia de choque, austeritária e privatizadora. A tradição grevista dos docentes de Chicago, que em 1987 tinham levado a cabo uma paralisação memorável, fazia antever graves convulsões sociais perante o programa do novo mayor.
Para que as suas medidas altamente impopulares pudessem impor-se sem resistência, Emanuel fez então aprovar no parlamento do Estado do Ilinois um diploma que obrigava qualquer sindicato a submeter qualquer proposta de greve a referendo, que teria de contar com pelo menos 75 por cento de votos favoráveis.
A inovação vinha no seguimento de uma política aprovada em 1995 pela maioria republicana na cidade, limitando drasticamente os temas em que o CTU teria competência legal para negociar. De fora da agenda do sindicato, ficavam pontos como o tamanho das turmas, que agora, precisamente, os grevistas puseram sobre a mesa sem se embaraçarem com os interditos jurídicos.
Aiás, já em 2012 uma greve dos docentes pusera em causa as “reformas” de Emanuel, mas sem conseguir abalar os seus fundamentos. E de pouco serviu que o próprio Emanuel tivesse reconhecido entretanto a falência da sua política e o estado caótico a que ela conduziu o ensino em Chicago.
Em maio de 2019 ganhou as eleições a jurista Lori Lightfoot, que baseara largamente a sua campanha na promessa de reverter a política de Emanuel. Apesar da sua filiação republicana, Lightfoot tinha um curriculum de declarações antirracistas e era a primeira mulher, negra e assumidamente gay a guindar-se àquela importante posição política. As expectativas sobre o cumprimento das suas promessas eleitorais eram portanto elevadas.
Mas nestes poucos meses de mandato, a mayor brilhou apenas pela sua inacção em temas como o alargamento dos quadros de pessoal, a eleição de um conselho para a educação pública, a melhoria dos serviços de saúde mental. Assim que o CTU começou a pressionar pelo cumprimento das suas promessas eleitorais, Lighfoot excedeu-se em iniciativas de todo o tipo para sabotar as negociações e, depois, para sabotar a greve.
Durante a greve, a mayor chegou a ameaçar o corte das contribuições da cidade para a segurança social dos professores, se a greve se mantivesse.
Mas a greve manteve-se, com centenas de piquetes, independentemente da intempérie, e com um apoio crescente dos estudantes, dos pais e da população. Ao quinto dia da greve, uma manifestação de 30.000 pesssoas dirigiu-se à Câmara para protestar contra a aprovação de uma orçamento anual que aumentava os gastos com a polícia, mas implicitamente recusava as reivindicações docentes, ao manter inalterado os gastos para a escola pública.
No balanço final, a mayor teve mesmo de alterar as prioridades orçamentais e dedicar 35 milhões de dólares a reduzir as turmas e a alargar os quadros de pessoal, contratando pelo menos uma enfermeira e uma assistente social para cada escola. Uma parte dos grevistas pensava, ainda assim, que a vitória podia ter sido mais ampla: 40 por cento votaram contra o pré-acordo que conduziu ao levantamento da greve.

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