Docente (*) é p’ra leccionar – Francisco Martins da Silva

Docente (*) é p’ra leccionar

O obstetra deve também ocupar-se da manutenção do colposcópio? Deve o pianista também afinar o piano? Espera-se do agricultor relatórios do consumo per capita da abóbora? Alguém pede ao economista a avaliação das calorias do cabaz de bens alimentares preferidos dos portugueses? E ao sapateiro, alguém pensaria exigir-lhe grelhas com descritores dos vários tipos de capas para tacões?

Ora, por que razão vivem os docentes submersos em tarefas e responsabilidades que nada têm que ver com leccionar? Não é da mais elementar lógica os professores ocuparem-se em exclusivo dos alunos e da leccionação? Que espaço se reserva à escola no meio de tanta acta, relatório, formulário, grelha, planificação, avaliação, tanto decreto a cada hora revogado e a cada hora revisto? Escola, do grego skhole, do latim schola, tempo para conversa interessante e educativa. Que tempo resta para a escola?
Além de leccionar às turmas que lhes cabem e de ainda poderem ser directores de turma, coordenadores de directores de turma, coordenadores de ciclo, coordenadores de departamento, representantes de grupo disciplinar, coordenadores de projectos, tutores, membros do Conselho Geral, adjuntos da Direcção, et cetera, et cetera, as caixas de correio dos professores recebem de manhã à noite, todos os dias da semana, um sem-número de e-mails, e transbordam permanentemente de urgências burocráticas designadas por PEI, UFC, RTP, CEB, PIT, EMAI, ELT, ACES, ULS, CPCJ, CRI, JNE, PL2, SPO, EO, DT, DEE, PHDA, ME, CAA, CT, EE, PAA, DAC, EECE, CP, PES, EFA, PASEO, IDNMSAI, PE, CAF, CD, ARA, PARA… Não, não vou aqui maçar ninguém a explicar o que significam todas estas premências, desde logo porque, havendo tantas, nenhuma pode ser importante. Em boa verdade, que se saiba, nenhuma destas siglas muda seja o que for no dia-a-dia de um só aluno. Apenas motivam infindáveis reuniões e formulários e são um inferno para os professores, transformando-os em adivinhadores de um ror de dificuldades cognitivas, psicológicas, relacionais, familiares e outras hipotéticas problemáticas. A produção desta papelada é um fim em si, pois nunca se fará qualquer balanço ou avaliação dos seus efeitos nem sequer dos seus custos.
Mas permitam-me ainda assim que desvende um dos possíveis significados da sigla CT: Conselho de Turma!… E que fazem os professores nos conselhos de turma, um por turma (há docentes que têm mais de dez turmas), no meio e no final de cada período, sempre fora do horário, sempre fora de horas e a somar a tudo isto? — Pois conferem a imensa papelosa produzida por todas as outras siglas, harmonizam-na para que não se contradiga e não decepcione a inspecção, e no fim debitam mais um papel — a acta. “Circunstanciada”, claro.
Por que carga de água se exige então aos professores todo este estéril trabalho extra, que não é pago, não é da sua competência e agride o seu estatuto?
A resposta é simples: controlando cada vez menos a sala de aula, cada vez mais o sistema de ensino se concentra em tudo o que lhe for lateral.

(*) Do latim docens (docens, -entis), particípio activo do verbo docere (ensinar).

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9 comentários

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    • Marta on 9 de Novembro de 2019 at 11:59
    • Responder

    Excelente descrição! A verdade nua e crua da realidade do trabalho de um professor nas escolas . Trabalho inútil, desgastante e desmotivador…. Tenho 6 turmas, tenho um direção de turma extremamente problemática, ministro 3 disciplinas, coordeno 2 projetos e tenho assento no CP.
    Acabei ontem as reuniões de avaliação intercalares, na escola das 8:30 até às 9:30 da noite, mais 50 mn de viagem . Como cheguei ao fim de semana? Exausta! As minhas filhas nunca as vi a não ser a dormir… e, agora que é fim de semana, tenho os testes de 6 turmas para corrigir e a família a cobrar que só trabalho para a escola. A minha filha mais nova diz, “deixa os testes, fazes depois”! E eu, prolongo o serão até à 1 da manhã….
    E começo a semana com o cansaço que a cada semana se vai acumulando e vou resistindo, até quando, não sei, com um sentimento de culpa por não ter tempo para responder a tudo na escola (a direção de turma é um horror de trabalho e só tenho 2h!) e em casa…

    • Orquídea neves on 9 de Novembro de 2019 at 14:06
    • Responder

    É difícil, sim. O pior é que nem sequer somos reconhecidos e respeitados por ninguém. Muitas vezes nem pelos próprios colegas. Todos querem chegar ao topo e, nesta luta, todos se atropelam. É desanimador.


    1. É por essas e outras que uso o termo “colega” sempre metido numas grandes aspas! Nunca eu pensei ver pessoas adultas que se querem livres, encolher as orelhas de tal maneira e serem tão facimente manipuladas, como vi numa escola da margem Sul do Mondego onde há uma diretora de curso mafiosa que manda nos cursos profissionais e arrebanha 99% dos professores, funcionários, EE e alunos. Nem a diretora tem mão naquela fanática do poder, que recorre aos estratagemas mais rasteiros para enlamear o nome de certos “colegas” “impuros” que não têm medo de dizer o que pensam e que não lhe lambem as botas.

      Entre os atos desta SACRIPANTA encontram-se:
      – difamação dos “impuros” em reuniões e posterior expurgação das atas (para não ir a tribunal) em reuniões expressamente marcadas para esse efeito
      – convocação de reuniões ilegais para sobrepôr decisões de reuniões do CT
      – difamação dos “impuros” de “mansinho” (para não ir a tribunal) em cada oportunidade que encontra, junto de profs funcionários EE e alunos
      – quando ninguém está a ouvir refere-se aos “impuros” como “atrasados”, “cagalhotos” e etc. (mas isto só com os fiéis mais próximos que não piam)
      – desautorização dos “impuros” em frente a alunos, invadindo as suas aulas e fazendo comentários difamatórios e jocosos frente a alunos
      – promoção e coordenação de ações de grupos de EE e alunos, com o objetivo de afastar os “impuros”
      – influência na distribuição de serviço de exames junto do rebanho denominado secretariado de exames (que procede a distribuir serviço aos “impuros” em 99% dos dias)
      – favorecimento nos horários das mafiosas do círculo íntimo
      – uma espécie de “rede de informação secreta” por toda a escola, entre profs, funcionários e até alunos, em que uma pessoa já nem sabe com quem pode falar
      – promoção de comportamentos criminosos dos alunos tais como gravação de aulas dos “impuros” (das quais só dá conhecimento aos fiéis mais próximos mas não à diretora da escola)

      Depois quando é para aparecer na fotografia, esta “líder” toma para si os louros que pertencem a outros, sem qualquer vergonha na cara:

        • tintins on 9 de Novembro de 2019 at 21:59
        • Responder

        Muito bem, colega. Essa “senhora” ainda por cima nem escrever sabe.

    • gatil on 9 de Novembro de 2019 at 15:49
    • Responder

    Há certas profissões que não se coadunam com a vida familiar – ser Professor , por exemplo.
    Outra coisa : não vejo ninguém a dizer nada acerca da questão do número escandaloso de turmas que são atribuídas a cada docente e ainda por cima com cargos de DT e outros!! isto é surreal!!
    A classe profissional que mais deve ser respeitada e acarinhada, não! não é o que se vê! é preciso perguntar porque é que pretendem enlouquecer os docentes.

    • Petrix on 9 de Novembro de 2019 at 19:24
    • Responder

    Aí está o termo certo, enlouquecer os professores…concordo

    • on 9 de Novembro de 2019 at 21:01
    • Responder

    Porque não fazes greve ás reuniões?

    • Maria on 10 de Novembro de 2019 at 19:04
    • Responder

    Colega, podia e talvez devesse ter feito greve às reuniões. Está convocada e é para abrandar esse abuso de que fala.

    • Francisco Martins da Silva on 12 de Novembro de 2019 at 16:11
    • Responder

    Na última linha há uma gralha. Onde se lê “em tudo o que for lhe lateral” deve ler-se “em tudo o que lhe for lateral”.
    Obrigado pela partilha.
    Só nos resta resistir.

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