Burrocracias…

 

Desde há muito que ouço falar em desburocratização da escola e do trabalho dos professores, mas ficamos por aí. Falamos…

A diversidade de burocracia que se encontra nas nossas escolas é algo de monstruoso. Qualquer gato pingado inventa mais uma grelha e um documento para preencher. Correndo alguns agrupamentos, vemos que os procedimentos para a mesma ação são tão diversos como a vontade de quem lidera e de quem, não liderando, quer agradar a quem o faz.

Embora ouça, de tempos a tempos, alguém dizer que vai acabar com o nível burocrático existente nas escolas portuguesas e que vai libertar os professores desse trabalho que em nada beneficia a sua prática, esse trabalho tem vindo a aumentar.

Para compreendermos até que ponto isto chegou, basta olhar para a ordem de trabalho de uma qualquer reunião de avaliação. As diferenças são abismais. Enquanto num agrupamento a ordem de trabalhos pode conter apenas dois pontos de discussão; Ponto um: Avaliação dos alunos do 1º período; Ponto dois: Outros Assuntos; no Agrupamento ao lado pode conter mais de dez pontos para informação e discussão de temas da dita avaliação. É um regabofe de informação, maior parte dela inútil, que se transcreve para uma ata. Não há um consenso do que deve e não deve constar de uma ata de avaliação. As orientações são escassas ou inexistentes e a coberto de uma pseudo-autonomia, criam-se pequenas enciclopédias de dados inúteis que em nada melhoram as práticas dentro das escolas.

No 1º ciclo até a forma como se reúne o C.D. diferencia de um agrupamento para outro. Uns reúnem com a totalidade de docentes que lecionam no 1º ciclo (docentes do Grupo110, titulares de turma e de apoio educativo, docentes do Grupo 120, Inglês e Docentes do Grupo 910, Ed. Especial), outros reúnem por grupos de ano (os docentes do apoio educativo, Inglês e Ed. Especial andam a saltar de sala em sala) e ainda há quem reúna por escola (fazem os docentes do 120 e 910 andarem na estrada sem necessidade nenhuma…).

As folhas de excel também vieram para ficar. Ganharam uma importância tal que nenhum professor se pode dar ao luxo de não ser “letrado” nesta ferramenta. Há até quem diga que não pode trabalhar sem ela. De facto pode ser uma ferramenta importante para a obtenção e tratamento de dados, mas daí a ser método único, vai um caminho muito longo. É importante saber para que servem as ditas grelhas e o que se pode obter com as mesmas. A maioria dos agrupamentos institucionaliza grelhas para depois analisar dados. Muito bem. Mas o que é que faz com esses dados? Como é que esses dados contribuem para a melhoria das práticas letivas e não letivas? Ou será só para constatar factos? Factos que serão registados numa daquelas atas com muitos pontos de discussão, que de seguida é arquivada, ninguém a lê ou dela tira conclusões, só saindo do ficheiro quando por lá aparece a inspeção. A inspeção, por sua vez, concorda na integra com os dados que lhe apresentam, não tem como discordar, parabeniza o ato e essa parabenização faz com que o ato, para alguns, se torne sagrado. (esquecem-se depressa da tal da autonomia)

É de extrema urgência, a elaboração de um documento com orientações, claras e concisas, para acabar com estas discrepâncias e trabalho inútil que em nada melhora a prática dentro e fora da sala de aula. Não quer dizer que esse documento venha atentar contra a desejada autonomia, mas que venha por ordem em atos administrativos que ninguém entende e nada têm de útil. Os agrupamentos podem ficar com margem de manobra de como elaborar certos e determinados documentos, mas que em todos eles se possa ver o mesmo conteúdo de agrupamento para agrupamento.

Talvez assim isto se tornasse menos burrocrático …

 

 

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3 comentários

    • Virgulino Lampião Cangaceiro on 21 de Dezembro de 2017 at 20:18
    • Responder

    A burocracia nasceu filha da desconfiança e cresce no intestino dos asnos…

    • Fernanda on 22 de Dezembro de 2017 at 13:03
    • Responder

    Subscrevo tudo o que relatado neste post.
    Dou o exemplo das várias plataformas onde se registam os sumários e ausências de alunos (mas que têm de ser escritos no fim do dia devido à falta de portáteis na sala de aula, resultando em perda de tempo e trabalho duplicado).
    Nestas plataformas regista-se tudo, mas mesmo tudo. E as actas das reuniões de avaliação e/ou outras são lá colocadas.
    Mas, o que acontece?
    Neste caso específico de actas de reuniões de avaliação, elas são previamente impressas e entregues nos serviços administrativos. Uma reunião, sem quaisquer problemas, tem, no mínimo, 10 páginas, devido aos inúmeros e repetitivos pontos das ordens de trabalhos. Algumas actas terão o dobro.
    E os/as docentes (casos raros) que pretendem contribuir para um maior pragmatismo em todo este processo, são olhados como aves raras.
    Um outro exemplo?
    Para quê os enormes dossiês de direcção de turma quando a maioria das informações estão nessas plataformas?
    Um outro exemplo?
    Para quê a exigência dos PCTs que se vão elaborando em cada período lectivo (pelos Dts), em jeito de balanço de tudo o que está já registado em actas e noutros registos? Um verdadeiro copy e paste das actas!

    Resumindo, no tempo de plataformas digitais que fazem grande parte deste trabalho, mantêm-se os velhos procedimentos em papel. Em duplicado e em triplicado.
    “É bom porque pode desaparecer tudo!”, dizem-me.
    Como se isso acontecesse, não existissem outros meios tecnológicos de arquivo de todo este material.

    • Maria Conceição Oliveira on 26 de Dezembro de 2017 at 18:12
    • Responder

    Concordo plenamente.Há sempre aquele ou aquela colega que acha que ser hiperativo rodeado de grelhas é sinónimo de competência e inventa mais trabalho para cima dos outros. As reuniões , no meu caso tenho experiência de reuniões cuja Ordem de trabalhos tem 12 pontos, arrastam-se ridiculamente atrás de conversas pouco objetivas relativamente à avaliação…pois claro,No final do ano letivo passam todos os alunos.São todos Bons, trabalhadores, inteligentes e aplicados. Quem tem dificuldades é NEE. Agora é moda !É pena que haja tanta burocracia e tanta fotocópia para grelhas e outros documentos , menos para facilitar a vida aos professores, que andam a correr na escola, para apanhar um computador vago pois não há condições para trabalhar com o número de computadores insuficiente e a falta de sala ou salas de trabalho para os docentes.

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